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Um nevoeiro em torno de Omar “lobo solitário” Mateen

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TRAGÉDIA. Ataque a bar LGBT nos EUA fez 50 mortos

reuters

O FBI insiste na pista de que Omar Mateen, autor do atentado em Orlando que provocou 50 mortos (terrorista incluído) e 53 feridos, agiu inspirado no Daesh, mas sem qualquer ligação direta à hierarquia do grupo terrorista. “Ainda existe um nevoeiro em torno deste caso, mas há claros indícios de que se trata de um lobo solitário”, diz ao Expresso Carol Cratty, agente da Polícia Federal Americana. Mas o que significa o rótulo de lobo solitário e quantos existirão nos EUA?

O xerife Rick Dunlap, presidente da Associação “County Sheriffs of Colorado”, contou-nos segunda-feira que existirão mais de 1000 investigações ativas sobre a presença de indivíduos nos Estados Unidos (EUA) com ligações ao Daesh. Tal informação foi enviada por carta ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na qual se pode ler que a profusão destes lobos solitários desaconselha a transferência dos detidos de Guantánamo para os EUA, visto que tal poderia espoletar uma onda de violência.

“Sabemos que o FBI tem quase 1000 investigações ativas sobre a presença de elementos com ligações ao Daesh nos EUA. As prisões para onde fossem transferidos os detidos de Guantánamo tornar-se-iam alvos destes grupos ligados ao Daesh, com o objetivo de os libertar ou de simplesmente marcar pontos na agenda terrorista. Não podemos ser inocentes”, diz Carol Cratty. O agente não confirma qualquer dado sobre aquelas investigações e muito menos o número avançado pelo xerife Dunlap.

Porém, David Katz, antigo agente especial da Drug Enforcement Administration (DEA), a agência americana que lidera o combate ao narcotráfico, e CEO da empresa “Global Security Group” suspeita que o número seja “bastante superior”. “Há mesquitas onde o silêncio persiste e arrisca-se a ser cúmplice. Em Boston, por exemplo, Tamerlan Tsarnaev, um dos bombistas da maratona, frequentava uma mesquita onde todos conheciam muito bem o seu discurso. Essa mesma mesquita fora albergue para dois dos 19 piratas do ar que levaram a cabo os atentados de 11 de Setembro”, denuncia Katz, que também trabalhou como instrutor na academia do FBI, em Quantico.

ricado lourenço

Durante os ataques de Boston, o Expresso visitou aquela mesquita suspeita, a “Islamic Society of Boston (ISB)”, em Cambridge, localizada paredes meias com casas e lojas de comércio de emigrantes portugueses. Na altura, todos os responsáveis negaram a existência de qualquer programa de radicalização na mesquita. Dias depois do ataque da maratona de Boston, ocorrido a 15 de Abril de 2013, a ISB seria vandalizada.

Em entrevista exclusiva ao Expresso, Coleen Rowley, antiga directora do Departamento de Contraterrorismo do FBI, prevê que os lobos solitários americanos “vão continuar a atacar”. Esta espécie de heroína americana, que após os ataques de 11 de Setembro de 2001 foi ouvida dezenas de vezes no Congresso e aplaudida pela descoberta de várias pistas que ajudaram a deslindar planos terroristas da Al-Qaeda, algo que a levou à lista das 100 pessoas mais importantes da revista Time em 2002, suspeita que existam “dezenas de milhares de indivíduos americanos que julgam que estão em guerra contra os Estados Unidos”. “E, o pior de tudo, como se percebeu com este ataque em Orlando, é que isto vai continuar porque é fácil comprar armas nos Estados Unidos.”

A ex-responsável do FBI está estupefacta com o caso de Mateen, que por várias vezes estivera no radar da polícia americana. “Ele tinha amigos que foram fazer a Jihad na Síria e um comportamento no mínimo suspeito. Era violento com familiares e amigos, viajou até ao Médio Oriente… Mesmo assim, tinha uma licença de porte de arma passada pelo estado da Florida.”

HOMENAGEM. Torre Eifel acendeu-se assim em homenagem às vítimas de Orlando

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Esta terça-feira de manhã, num ensaio para o “Brookings Institute”, o professor Daniel Byman, director do “Center for Middle East Policy”, diz que “reconhecer a diferença entre ato inspirado pelo Daesh e ato às ordens do Daesh é vital”. E explica porquê: “Os ataques inspirados no Daesh são amadores, tal como provam os ataques deste tipo levados a cabo nos EUA desde 11 de Setembro de 2001. O massacre de Orlando mostra, no entanto, o que um lobo solitário com armamento adequado pode fazer. Mas quando estes indivíduos surgem treinados e a mando da hierarquia do Daesh, como no caso dos ataques em Paris, os resultados são bem mais sangrentos”.

As dúvidas do FBI e as certezas de Trump

Como já é hábito, Donald Trump, presumível candidato republicano às presidenciais de 8 de novembro, reagiu ao ataque em Orlando via Twitter. Poucas palavras, mas muitas certezas: “Agradeço as felicitações daqueles que sabem que tenho razão quando falo de terrorismo radical islâmico. Não quero felicitações. Quero vigilância”.

Segunda-feira, munido de teleponto, o multimilionário nova-iorquino alargou-se no discurso e voltou a garantir que, caso seja eleito, nenhum muçulmano oriundo de países em que o Daesh tenha presença entrará nos EUA. “Pelo menos até se perceber o que se está a passar.”

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Num discurso virado para a política externa, na Saint Anselm College, em New Hampshire, Trump disparou contra Barack Obama e Hillary Clinton, a presumível candidata democrata e rival nas presidências de novembro.
“Precisamos de um novo líder. Precisamos de um novo líder rápido. Eles [Obama e Hillary] colocam o politicamente correto acima de tudo, acima da nossa segurança, acima de tudo. Eu recuso ser politicamente correto. Os dias de ignorância irão acabar e irão acabar brevemente”, afirmou Trump.

Clinton, que segunda-feira de manhã, numa entrevista à CNN, explicou que não tem problema nenhum em usar o termo “islamismo radical”, criticou o tom do discurso do adversário republicano. “A retórica anti-muçulmana e a ameaça de banir a entrada de amigos e familiares de americanos muçulmanos, assim como de milhões de negociantes e turistas muçulmanos, magoa a vasta maioria dos muçulmanos que ama a liberdade e odeia o terror.”

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