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Não há provas que liguem atirador de Orlando ao Daesh nem a outros grupos

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Omar Mateen, autor dos disparos na discoteca em Orlando, tinha 29 anos, nasceu em Nova Iorque e vivia na Florida

REUTERS

De acordo com o diretor do FBI, o suspeito do pior massacre com armas de fogo da história dos EUA jurou fidelidade a vários grupos jiadistas “rivais” e aos irmãos Tsarnaev, que levaram a cabo o atentado contra a maratona de Boston em abril de 2013

O cidadão norte-americano suspeito de matar 49 pessoas a tiro e de ferir outras 51 antes de ter sido abatido pela polícia em Orlando, no estado da Florida, jurou fidelidade a várias organizações jiadistas, algumas delas "rivais" entre si, mas não há nada para já que o ligue diretamente a qualquer desses grupos.

A informação foi avançada na madrugada desta terça-feira pelo diretor do FBI James Comey, dois dias depois de o suspeito, identificado como Omar Mateen, ter levado a cabo o ataque homofóbico na discoteca gay Pulse, em Orlando.

De acordo com Comey, no passado Mateen, de 29 anos, jurou lealdade não só ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) como expressou solidariedade com os irmãos Tsarnaev, que executaram um atentado bombista na maratona de Boston em abril de 2013 em nome da Frente al-Nusra, um dos grupos jiadistas rivais do Daesh.

"Eles estão a tentar pintar o retrato de uma pessoa confusa, que se sentia um alvo por causa da sua religião", referiu na segunda-feira a correspondente da Al-Jazeera em Orlando.

Durante o ataque de domingo à noite, o atirador telefonou três vezes para o 911 [número de emergência correspondente ao nosso 112] para expressar as suas ligações ao Daesh. Já depois de o suspeito ter sido abatido pela polícia, o grupo jiadista reivindicou o ataque no site da sua agência de notícias, a Amaq.

Segundo Comey, o homem tinha "fortes sinais de radicalização" e, nos últimos anos, declarou apoiar tanto a Al-Qaeda como o Hezbollah. Matten foi investigado pelo FBI durante dez meses entre maio de 2013 e março de 2014 após as suas declarações de apoio aos Tsarnaev.

A informação recolhida no âmbito dessa investigação mostra que Mateen jurou fidelidade aos vários grupos terroristas por estar zangado com os colegas, que acusava de o mal-tratarem e de o discriminarem por ser muçulmano.

Daesh: ligações reais ou aproveitamento?

No rescaldo do ataque de domingo, o Daesh publicou um comunicado no site da Amaq onde declarava que "o ataque armado que teve como alvo uma discoteca gay na cidade de Orlando no estado americano da Florida que deixou mais de 100 pessoas mortas ou feridas foi levado a cabo por um militante do Estado Islâmico".

Horas depois, as autoridades norte-americanas identificavam Mateen como o suspeito atirador, um americano filho de imigrantes afegãos que vivia na Florida e que fontes do FBI assumiram de imediato poder ter "uma inclinação" para apoiar o Daesh. Ainda assim, essas fontes dizem que qualquer eventual ligação real do suspeito ao grupo jiadista só poderá ser comprovada durante a investigação ao massacre.

De acordo com três fontes familiarizadas com a investigação ao massacre, citadas pela Reuters, não há para já qualquer prova que demonstre uma ligação direta de Mateen ao Daesh ou a qualquer outro grupo de militância jiadista.

"Até agora, o que sabemos neste momento é que o seu primeiro contacto direto foi o juramento de bayat [lealdade] feito durante o massacre", disse uma das fontes da investigação de contra-terrorismo, em referência às chamadas de Mateen para o 911.

Outra das fontes que falou sob anonimato à agência disse que não é de estranhar que o Daesh reivindique o ataque dado que está a sofrer sérias derrotas, perdendo homens e território, no Iraque e na Síria. "O facto de um website do Daesh ter aplaudido [o massacre] não quer dizer nada", disse a fonte da secreta norte-americana. "Eles estão a perder no seu território e não é surpreendente que estejam à procura de uma espécie de vitória retorcida."

As fontes parecem sustentar a versão avançada pelo próprio diretor do FBI de que Mateen foi, de alguma forma, inspirado por militantes jiadistas mas sem qualquer ligação comprovada ao Daesh ou a outro grupo. Informações preliminares cujo conteúdo não foi para já revelado por essas fontes indicam que o atirador foi motivado por uma mistura de "ódio" e religião.

Adam Schiff, democrata da Câmara dos Representantes pelo estado da Califórnia que integra o comité de serviços secretos, lembrou num comunicado citado pela Reuters que o massacre aconteceu durante o mês sagrado do Ramadão, que começou a 5 de junho.

Dias antes do início oficial do Ramadão, o Daesh emitiu uma mensagem áudio nos seus canais web pedindo a apoiantes e simpatizantes que aproveitassem o mês sagrado para levar a cabo ataques nos EUA e na Europa.

"Ramadão, o mês das conquistas e da jihad. Preparem-se, estejam prontos para fazer deste um mês de calamidade em todo o lado para os não-crentes, em particular os combatentes e apoiantes do califado na Europa e na América", ouve-se na mensagem atribuída a Abu Muhammad al-Adnani, cuja autenticidade não foi até agora comprovada. "A mais pequena ação que executem no vosso país-natal é melhor e mais duradoura para nós do que se estivessem aqui connosco."

No rescaldo da matança de domingo, o Presidente Barack Obama falou "num ataque terrorista e num ataque de ódio", voltando a sublinhar a facilidade com que qualquer norte-americano, inclusivamente suspeitos de atividades terroristas como Mateen, consegue comprar uma arma de fogo nos EUA, neste caso uma carabina AR-15.

Donald Trump, o candidato do Partido Republicano às presidenciais de novembro, declarou ao seu jeito populista e demagogo que o ataque poderia ter sido evitado de houvesse mais gente armada na Pulse na fatífica noite, deixando nas entrelinhas do seu primeiro discurso pós-massacre a acusação de que o próprio Presidente poderá ter estado envolvido no ataque.

Também em reação ao ataque homofóbico, Hillary Clinton, a provável candidata às presidenciais pelo Partido Democrata, afastou-se de Obama, falando numa matança motivada pelo "radicalismo islâmico".

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