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O escudo antimíssil que irrita os russos

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Exercício da NATO realizado esta semana na Polónia: largada de paraquedistas britânicos

Reuters

Instalação do escudo antimíssil americano é visto pelos russos como provocação e pode desencadear a remilitarização do leste da Europa

Nada mais ambivalente do que a relação dos EUA e seus aliados europeus com a Rússia. Quando se tratou de desbloquear o dossiê nuclear iraniano, Moscovo revelou-se um precioso parceiro negocial. Já na Síria é menos do que isso: um aliado tático na luta contra o Daesh, ainda que corra em pista própria, privilegie o apoio ao ditador Assad e revele total indiferença pelos chamados “danos colaterais” nas operações da sua força aérea sobre zonas habitadas. No leste da Europa assume uma forma próxima da velha União Soviética: é visto como uma ameaça expansionista (veja-se a anexação da Crimeia em 2014), um destabilizador do leste da Ucrânia e um fornecedor de gás natural não confiável, pronto a abrir e fechar a torneira ao sabor da sua estratégia geopolítica.

Por último, mas não menos importante, a entrada em fase operacional do escudo antimíssil norte-americano. Este é um conjunto de radares, baterias de mísseis intercetores e centros de comando situados em terra, completado pela cobertura (no Báltico, Atlântico ou Mediterrâneo) de navios com o sistema integrado de armas Aegis (da palavra grega que deu origem a égide, ou seja, escudo).

Esta muralha eletrónica é justificada, não tanto para bloquear uma eventual capacidade ofensiva russa, mas outro tipo de ameaças, conceito algo nebuloso mas que off the record costuma ser relacionado com disparos esporádicos de mísseis por parte de estados-párias (Coreia do Norte?) ou terroristas (Daesh, Al-Qaeda, etc.).

Ofensivo ou defensivo?

Contudo, para os russos, um adversário dotado de um escudo protetor às suas portas é uma ameaça. Moscovo receia que, ao abrigo de eventuais retaliações russas, a NATO se sentisse tentada a atacar primeiro. Os responsáveis da Aliança tentam sossegar o Kremlin dizendo que os foguetes intercetores instalados no leste da Europa não têm ogivas (convencionais ou outras), destinando-se não a missões atacantes (estão demasiado perto da fronteira) mas a destruir em voo os mísseis aos quais sejam apontados apenas à base do impacto.

Mísseis russos no Báltico

Os russos respondem com a instalação de baterias de mísseis Iskander (muito rápidos e capazes de manobras evasivas) no enclave de Kaliningrado (entre a Polónia e a Lituânia), provavelmente apontados às instalações do escudo antimíssil do outro lado da fronteira. E a seguir? Regresso das armas nucleares táticas (usadas no campo de batalha), retiradas da Europa desde a Guerra Fria?

Tudo isto vai estar em foco na Cimeira da NATO em Varsóvia a 8 e 9 de julho. Em entrevista ao diário francês “Le Monde”, o secretário-geral da organização Jens Stoltenberg frisou que no tocante à relação com Moscovo não há incompatibilidade entre dissuasão e diálogo político. De resto, as medidas a apresentar em Varsóvia serão “responsáveis e proporcionais”. A força de reação rápida e o reforço de meios militares a leste são apenas “a resposta a uma Rússia que se tem mostrado mais agressiva, violou as leis internacionais e anexou ilegalmente a Crimeia”.

O comité militar da NATO preconiza a instalação de batalhões multinacionais com força credível na Estónia, Letónia, Lituânia e ainda na Polónia. Seria uma presença militar limitada mas um sinal claro: “Um ataque a um país báltico seria considerado um ataque a todos”. Em paralelo, os efetivos da força de reação rápida triplicaram, subindo para 40 mil homens, “a maior transformação do dispositivo da NATO desde a Guerra Fria”.

Aligeiramento das sanções?

Em paralelo com a cimeira da NATO discutem-se as sanções económicas à Rússia, vigentes desde a anexação da Crimeia e periodicamente prorrogadas. Este assunto estará em cima da mesa na cimeira dos ministros dos Negócios Estrangeiros a realizar na segunda quinzena de junho. Por decorrer antes da cimeira da NATO há defensores de uma linha moderada (Hungria, Itália ou Grécia) que sugerem um sinal de desanuviamento à Rússia (para compensar o endurecimento militar), seja encolhendo de seis para três meses o prazo de reapreciação das sanções seja aligeirando as restrições à entrada na UE de responsáveis russos. Moscovo por seu lado mistura gestos apaziguadores, como a libertação da piloto ucraniana Nadejda Savtchenko (trocada por dois russos presos na Ucrânia), com pressões, como a prorrogação do embargo às importações de produtos alimentares europeus (que prejudicam, por exemplo, a agropecuária e a fruticultura lusas).