Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

E se o maior problema de Hillary Clinton não for Trump?

  • 333

Drew Angerer

Porque é que os eleitores norte-americanos não gostam de uma candidata com um currículo vasto, com provas dadas no mundo da política? Se calhar a culpa é do escândalo dos emails, ou de Bengazi, ou de já contar com uma longa carreira de exposição pública. Se calhar é tudo isto, ou se calhar é só uma questão de... empatia. As taxas de reprovação dos candidatos à Casa Branca nunca foram tão altas – mas os anticorpos criados por Donald Trump podem ser a sorte de Hillary Clinton

"O que é que pode dizer aos eleitores que gostam do seu currículo mas simpatizam mais com Barack Obama?", perguntou a jornalista. Uma Hillary Clinton embaraçada começou por responder: "Bem, isso magoa os meus sentimentos... Mas vou tentar seguir em frente". De seguida, o senador Obama interrompeu o diálogo com uma tirada que em 2016 todos os jornais norte-americanos insistem em citar: "És simpática que chegue, Hillary".

O momento que pareceu embaraçar Hillary Clinton ocorreu em 2008, num debate que antecedeu as primárias do Partido Democrata no New Hampshire – e toda a gente conhece o final desta história –, mas podia acontecer agora: é que o problema de "likability" (em português, traduzível por "empatia") de Hillary continua a persegui-la e pode ser o seu principal problema na corrida à Casa Branca.

"Esta eleição geral será diferente de todas as outras, com dois candidatos [Trump e Clinton] que geram muitos anticorpos até nos próprios partidos", refere Germano Almeida, especialista em política americana e autor dos livros "Por Dentro da Reeleição" e "Histórias da Casa Branca", sobre a administração Obama. "A taxa de reprovação de Hillary anda à volta dos 40%, o que seria preocupante... se a de Donald Trump não fosse de mais de 60%".

Os números não enganam: sondagem após sondagem, Clinton continua a não conseguir seduzir os eleitores – e as razões para essa falta de empatia parecem ser as mesmas que a perseguem desde que se tornou uma figura pública. Em 1980, quando o marido Bill Clinton tentava tornar-se governador do conservador estado do Arkansas, a agora candidata presidencial foi criticada por ser uma mulher focada na carreira e acabou por acrescentar o apelido do marido ao nome de solteira, Hillary Rodham.

Durante os tempos de Bill Clinton à frente da Casa Branca, e embora a "Time" refira que esse papel secundário e tradicional de primeira-dama trouxe a Hillary uma imagem positiva junto dos americanos, o staff do casal presidencial sabia que Hillary não conseguia mostrar-se "maternal, carinhosa ou quente" junto dos eleitores.

Num memorando da administração Clinton tornado público em 2014 e citado pela "Quartz", podem ler-se conselhos muito específicos de atividades que a então primeira-dama deveria fazer para conquistar os eleitores ("fazer compras de Natal, cantar temas natalícios com a filha Chelsea, fazer ovos mexidos para o brunch de domingo"): "Alguns americanos não sabem lidar com mulheres inteligentes, fortes e independentes", explicava o documento.

Na atual campanha a candidata já tentou contornar por várias vezes o problema, aparecendo num sketch descontraído do "Saturday Night Live" a servir bebidas num bar, mostrando-se afável no programa de Ellen Degeneres ou lançando piadas sobre Donald Trump.

"Maquiavélica, com sede de poder"

A somar aos problemas que enfrentou no caso da embaixada norte-americana em Bengazi, os famosos emails de Estado enviados através de um servidor privado e a forma como lidou com a infidelidade do marido, Hillary pode mesmo estar e enfrentar um obstáculo que para os seus oponentes não existe: o de ser uma mulher com ambição. "Os eleitores estão mais confortáveis a votar em homens de quem não gostam, mas que consideram capazes. No caso das mulheres, capacidade e empatia são exigidas em igual medida", diz à "Time" Jennifer Lawless, diretora do Instituto da Universidade Americana para Mulheres e Política.

O colunista do "New York Times" David Brooks assinala, num texto intitulado "Porque é que não gostam de Hillary?", um problema dos tempos modernos: os americanos identificam-na como uma "personagem formal, focada na carreira", em contraste com as qualidades mais valorizadas na era das redes sociais (normalmente refletidas por Obama, que 81% dos americanos diziam em 2012 ser capaz de perceber os problemas das pessoas comuns, contra os 18% de Mitt Romney): "intimidade, confiança, vulnerabilidade". É que apesar de conhecerem Hillary há mais tempo do que praticamente qualquer outro político norte-americano, os eleitores ainda não sabem quem é "a Hillary figura pública e a privada" e tendem a considerá-la "maquiavélica, com sede de poder".

"Não sou uma política nata"

No debate democrata de março de 2011, em Miami, a agora candidata democrata voltava a tentar explicar-se: "Não sou uma política nata, como Obama ou o meu marido". Os eleitores continuam a vê-la como uma mulher viciada no trabalho, orientada para a carreira e com uma longa exposição pública, a identificá-la com o "sistema" e as grandes corporações em 2012 agora, diz Germano Alemida, "ela sabe que para vencer claramente Trump será fundamental segurar o eleitorado de Sanders, evitando a tentação que parte desse eleitorado sentirá de car para o lado mais antipolítico e antissistema de Trump".

Será este um problema para Hillary Clinton na hora de os americanos decidirem quem será o próximo líder dos Estados Unidos? Talvez não. Escreve o "Washington Post": "Hillary tem meses para convencer os eleitores de que é uma pessoa normal que consegue ligar-se a eles, o que não conseguiu fazer em anos de exposição pública, mas não deve ter de o fazer por causa de Donald Trump. Parabéns, republicanos. Colocaram na corrida a única pessoa que eclipsa o problema de empatia de Hillary".

  • Obama apoia Hillary. É oficial

    O anúncio foi feito pelos dois, horas depois de o senador Bernie Sanders se reunir com o presidente e dar a entender (sem o dizer expressamente) que vai ajudar Clinton a impedir Trump de ganhar as eleições