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Elena Ferrante quer os britânicos na UE, por mais feia que esta seja

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Matt Cardy/GETTY

A misteriosa figura da literatura italiana defende no diário “The Guardian” que são exatamente os defeitos da Europa que justificam a permanência do Reino Unido. Só unidos podemos mudar uma “Europa feia”, argumenta

Não se sabe quem é Elena Ferrante, nome que marca há cerca de uma década a literatura contemporânea italiana e cujas obras se vendem como pão quente em todo o mundo. Esta semana ficou-se a saber, porém, mais um dado: quem quer que esteja por detrás do pseudónimo deseja que o Reino Unido não saia da União Europeia.

Numa carta aos britânicos, publicada no passado sábado pelo diário “The Guardian”, Ferrante exorta os eleitores a escolherem a permanência do referendo do próximo dia 23. “Ficarmos juntos já não é uma opção, antes uma obrigação e uma necessidade urgente”, escreve. O seu texto insere-se numa série em que também participaram o filósofo esloveno Slavoj Zizek, o escritor espanhol Javier Marías, o ex-ministro grego Yanis Varoufakis e o autor holandês Cees Noteboom, entre outros.

Ferrante começa por se mostrar compreensiva com os partidários do Brexit: também ela não tem “grande simpatia” pela UE no seu estado atual. Compara-a a uma casa cujos pisos superiores estão “elegantemente mobilados, com salões espaçosos para festas e banquetes”, não faltando “divisões com vistas panorâmicas onde são discutidas e redigidas leis de construção relativas aos que moram nos andares de baixo”. É, admite, “uma união que pouco ou nada uniu”.

Poucos mas felizes não chega

No cenário distópico descrito neste texto, copiosamente partilhado e comentado na Internet, as forças de segurança “concebem sistemas de alarme e portas pesadas para barrar a entrada aos que querem acampar no hall de entrada ou, pelo menos, na cave”. Reconhecendo que é uma Europa feia, dedicada a proteger os interesses dos mais fortes, reforça por esse mesmo motivo a ideia de que temos de ficar juntos se queremos mudá-la.

É que Ferrante – que deu à estampa os famosos romances napolitanos “A amiga genial”, “História do Novo Nome”, “História de Quem Vai e de Quem Fica” e “A história da menina perdida” – está convicta de que, em separado, as partes de que se faz a Europa têm pouco poder. “As grandes crises financeiras não se resolvem macerando nos nossos próprios sucos. As migrações não se controlam com semáforos ou arame farpado. O terrorismo global não é um videojogo”, alerta, para concluir que “o ‘poucos, mas felizes’ já não basta”.

“Não precisamos de muitos pequenos países, mas de um continente”, defende Ferrante. É a favor da união, desde que esta se centre menos em metas e mais em políticas que ponham fim a “incontáveis e intoleráveis desigualdades”. Se nas arcas do tesouro dos Estados-membros há “muitos tipos de veneno”, não faltam joias que devemos distinguir daqueles, num “festim apaixonado de pensamento e ação comum”, diz. E, dado que as raízes fazem de nós plantas, presas à terra, “uma identidade vasta e verdadeira tem de estar aberta a todas as identidades, para absorver o melhor de cada uma delas”. Daí que valha a pena, conclui, acreditar na UE.