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Escolas cristãs estão a ensinar às raparigas britânicas que devem obedecer aos homens

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Sandy Huffaker

Investigação exclusiva do jornal “The Independent” revela que há mais de mil crianças no Reino Unido a aprender em escolas fundamentalistas cristãs onde o criacionismo substitui factos científicos e onde os homossexuais são definidos como “contra-natura”

Escolas fundamentalistas cristãs estão a ensinar às crianças britânicas que o criacionismo é um facto, que os homossexuais "não são naturais" e que as raparigas e mulheres devem submeter-se aos homens. Assim garantem vários ex-alunos e delatores que quebraram o silêncio sobre estes estabelecimentos de ensino que estão a aumentar no Reino Unido.

De acordo com a investigação exclusiva do "The Independent", neste momento já há várias escolas cristãs registadas como independentes ou privadas "espalhadas" pelo território britânico, onde as crianças aprendem sentadas em secretárias isoladas das restantes por "separadores", num reflexo do secretismo mais geral em torno destas instituições. "Crê-se que mais de mil crianças estejam a ser educadas em dezenas destas escolas, embora pouco se saiba sobre elas", refere o jornal.

"Ninguém fora das escolas sabe o que se passa lá dentro, é por isso que eles têm conseguido manter isto durante tanto tempo", revela uma ex-aluna que, mais de uma década depois de ter terminado os estudos, diz estar horrorizada com a educação que recebeu.

Chamadas escolas de Educação Cristã Acelerada (ACE), estas instituições têm por base o modelo de escolas cristãs batistas do sul dos Estados Unidos da América e, de acordo com o "The Independent", cada uma integra entre 20 e 60 alunos com entre quatro e 18 anos de idade. Também segundo a investigação do jornal, várias preocupações sérias já foram compiladas relativamente a estes estabelecimentos de ensino, incluindo alegações de que as crianças não recebem quaisquer qualificações formais educativas para lá de "certificados cristãos".

Vários antigos alunos dizem que uma das principais estratégias das ACE é basear todos os ensinamentos na ideia de autosalvação individualista, em que cada criança tem de aceitar a palavra de deus para um dia vir a entrar no céu, sendo responsável por se ensinar a si própria para se aproximar de deus.

Com base nas dezenas de testemunhos recolhidos pelo "The Independent", sabe-se que cada criança passa a primeira metade do dia escolar sozinha a ler os manuais, em silêncio, dentro de cabines viradas para a parede, para evitar qualquer contacto ou interação com os restantes colegas. Na segunda metade de cada dia de aulas, as crianças "aprendem" em grupos.

Pouco se sabe também sobre os manuais utilizados, embora algumas queixas já tenham sido apresentadas junto das autoridades educativas por causa de material inapropriado ou factulamente errado. O "The Independent" conseguiu consultar alguns desses livros, onde os conteúdos mais preocupantes são a representação dos homossexuais como "não-naturais", o ensinamento da subjugação da mulher ao homem e a apresentação do criacionismo — a crença de que todo o universo foi criado por deus há menos de dez mil anos — como um facto.

Num dos manuais, a palavra 'homossexual' é descrita como um adjetivo que classifica aqueles que "têm sentimentos sexuais não-naturais em relação a outros do mesmo sexo", com a ressalva de que a "atividade homossexual é uma das piores corrupções humanas do plano de deus".

Num outro livro consultado pelo jornal, o papel das mulheres e das raparigas na sociedade como "atribuído por deus" é descrito desta forma: "Deus deu ao marido e à mulher certas áreas de responsabilidade em casa. O marido é o líder da casa, amando a sua mulher como Cristo amou a igreja... A mulher deve obedecer, respeitar e submeter-se à liderança do seu marido, servindo-o como sua ajudante... Deve estar disponível a todo o momento, dia e noite."

Numa secção intitulado "Testemunho de uma dona-de-casa" num dos manuais pode ler-se: "Deus deseja para mim que submeta ao meu marido, que eduque as minhas crianças, que garanta que a minha casa está bem atestada, que reze sem cessar, que ensine as outras mulheres a amarem os seus maridos e filhos e que seja discreta, pura e uma protetora da minha casa."

Num dos manuais de biologia de um ex-aluno que é, segundo ele, "muito usado no currículo durante as aulas em escolas ACE", a teoria da evolução é apresentada como "absurda" e contraposta com o "facto" do criacionismo. "Apesar de as características do homem ser únicas, os evolucionistas insistem que o homem descendeu dos macacos. Até de um ponto de vista estritamente científico, a teoria da evolução é absurda. A partir de uma coisa tão pequena como um dente, os evolucionistas fabricaram grupos inteiros de fósseis transitivos que fazem a ponte entre os homens e os macacos! Os evolucionistas, que se recusam a acreditar na verdade simples da criação divina de deus, vão continuar a lutar e a procurar em vão por respostas à questão da origem do homem a menos que busquem [respostas] na palavra de deus, na bíblia."