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Internacional

Turquia ameaça Alemanha por causa de voto sobre genocídio arménio

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David McNew

Presidente turco diz que se o parlamento germânico aprovar condenação simbólica, classificando os crimes cometidos pelo Império Otomano contra os arménios e outras minorias cristãs entre 1915 e 1916 como “genocídio”, relações bilaterais ficarão ameaçadas. Primeiro-ministro garante que acordo de refugiados não estará em causa, mas muitos dentro da UE temem repercussões nesse âmbito

O acordo de repatriação de refugiados alcançado em março pela Turquia e pela União Europeia numa tentativa de encerrar a rota dos Balcãs e de controlar o fluxo de requerentes de asilo em território europeu está sob ameaça, perante um voto simbólico do parlamento alemão previsto para esta quinta-feira.

Hoje, os deputados alemães vão votar uma resolução sobre o genocídio arménio, um documento de cinco páginas coassinado por membros dos Cristãos Democratas, Democratas Sociais e pelo partido Os Verdes, onde é pedida a “comemoração do genocídio dos arménios e de outras minorias cristãs [pelo império Otomano] entre 1915 e 1916”.

Ao longo de décadas, os sucessivos governos turcos têm rejeitado as acusações internacionais sobre aquele que é considerado o primeiro genocídio do século XX, que se traduziu no massacre e expulsão de um total de 1,5 milhões de arménios e de membros de outras minorias cristãs pelos otomados durante a I Guerra Mundial.

Para o atual primeiro-ministro turco, a votação no Bundestag é “um real teste à amizade” entre a Turquia e a Alemanha. “Algumas nações que consideramos amigas, quando estão a experienciar problemas com políticas internas tentam desviar as atenções disso”, disse Binali Yıldırım num encontro do Partido para o Desenvolvimento e a Justiça (AKP) esta quinta-feira de manhã. “Esta resolução [do parlamento alemão] é exemplo disso.”

Ontem, Yıldırım tinha ido mais longe na condenação à votação alemã, considerando-a “ridícula” e referindo, como os seus antecessores, que a matança de arménios nunca oficialmente reconhecida como genocídio correspondeu meramente a um crime que é “normal” em circunstâncias de guerra.

O chefe do Executivo turco — que recentemente substituiu Ahmet Davutoglu após o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, o afastar do cargo por divergência de opiniões — repetiu nesse discurso as ameaças feitas por Erdogan, dizendo que, se o parlamento alemão decidir classificar o evento do início do século passado como um genocídio, tal vai pôr em causa as relações bilaterais com a Alemanha.

“Os 3,5 milhões de turcos a viver na Alemanha são o maior ativo dos nossos laços bilaterais. Espero que o parlamento alemão e os legisladores não ignorem as vozes desses 3,5 milhões de eleitores”, declarou Yıldırım na quarta-feira. Nesse discurso, o líder turco referiu que, mesmo que a resolução seja aprovada, tal não vai influenciar o acordo da UE com a Turquia, uma garantia que muitos dentro do bloco europeu não levam a sério. “Somos leais aos acordos que fizemos. A UE deve manter a sua palavra da mesma forma. Não somos um Estado tribal, somos a República da Turquia, um país com profundas tradições”, sublinhou.

No dia anterior, Erdogan tinha avisado os deputados alemães de que, “se a Alemanha for enganada por isto [classificar a matança de arménios como um genocídio], então as relações bilaterais diplomáticas, económicas, comerciais, políticas e militares serão danificadas”.