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Internacional

Médicos e hospitais estão a tornar-se “alvos normais” da guerra

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BERTRAND GUAY

Alto cargo dos Médicos Sem Fronteiras acusa Estados e membros com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU de serem coniventes com este tipo de crimes de guerra em vários teatros de conflito

Atacar hospitais e trabalhadores humanitários no terreno está a tornar-se "o novo normal", declarou esta quarta-feira um alto cargo da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), acusando os membros com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas de serem coniventes com a matança de médicos e enfermos.

Citado pelo "The Guardian", Michiel Hofman, conselheiro da organização não-governamental, disse que, ao invés de serem grupos rebeldes a violar a lei internacional é cada vez mais comum serem exércitos de Governos reconhecidos a atacar hospitais e zonas de conflito sob gestão de organizações como os MSF. De acordo com o especialista, quatro membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU estão neste momento envolvidos em guerras onde os médicos estão a ser alvo de ataques, uma situação que não acontecia desde a Guerra da Coreia (1950-53).

Na Síria, refere Hofman, estamos a assistir a uma "guerra suja", atualmente no sexto ano consecutivo, em que tanto as forças do Governo de Bashar al-Assad como os movimentos rebeldes armados têm atacado hospitais, ainda que sejam os Estados a deter mais capacidades militarizadas para levar a cabo este tipo de ataques.

“Quando falamos de bombardeamentos de hospitais, bombardear implica forças aéreas. Os grupos rebeldes não têm forças aéreas, portanto isto é exclusivo dos Estados que, por definição, têm muito mais poder de ataque e são eles que na verdade assinaram estas convenções" internacionais que proíbem ataques a hospitais.

Na segunda-feira à noite, um hospital da província de Idlib, um dos bastiões da oposição a Assad, ficou às escuras e sem capacidades de resposta após uma série de ataques aéreos na área que vitimaram pelo menos 24 civis.

O ataque seguiu-se a um outro no mês passado levado a cabo pelas forças do regime sírio contra um hospital de Alepo gerido pelos MSF e pelo Comité Internacional da Cruz Vermelha, que destruiu completamente as instalações e que provocou 27 mortos, entre eles pelo menos três crianças e o último médico pediatra que restava na cidade do leste da Síria, onde a situação é cada vez mais catastrófica. Três dias depois desse ataque, uma maternidade da mesma cidade ficou parcialmente destruída num ataque levado a cabo por rebeldes na área ocidental de Alepo, que está sob controlo do Governo de Assad.

O mesmo cenário de "normalização" de ataques a hospitais e centros médicos está a ser registado no Afeganistão e na guerra no Iémen, onde uma coligação de países árabes liderada pela Arábia Saudita está a lutar contra a minoria huthi xiita e as forças leais ao Presidente deposto.

A 3 de maio, o Conselho de Segurança da ONU aprovou com unanimidade uma resolução que exige o fim deste tipo de ataques contra médicos e hospitais em zonas de guerra, mas segundo Hofman os países que deram luz verde a esse documento, incluindo o Reino Unido, são coniventes com a matança de médicos, enfermeiros e outros funcionários de hospitais e de organizações humanitárias.

"Nunca é um bom sinal, as resoluções que são aprovadas com unanimidade são normalmente aquelas que mais são ignoradas", diz Hofman. Os membros do Conselho de Segurança da ONU "são rsponsáveis porque integram coligações que são parte de campanhas de bombardeamentos. A Rússia não bombardeou o hospital de Alepo, mas integra uma coligação com o Governo sírio que está a fazer isso, por exemplo."

A Rússia, diz o funcionário humanitário, é um dos quatro membros com assento permanente no Conselho de Segurança que dão apoio logístico e militar a países e coligações que têm bombardeado hospitais. Os Estados Unidos apoiam a coligação saudita que está a levar a cabo uma campanha de ataques aéreos contra o Iémen e o Reino Unido e França já venderam centenas de milhões de euros em armas à Arábia Saudita desde o início dessa campanha.