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Primeiro-ministro britânico acusado de “mentir descaradamente” na campanha para o referendo

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CARLOS BARRIA//REUTERS

A contestação a David Cameron dentro do seu próprio partido está a subir de tom, com deputados conservadores a pretenderem afastá-lo através de uma moção de censura

Deputados eurocéticos do Partido Conservador britânico acusaram no domingo o primeiro-ministro David Cameron de ter “mentido” e de ter feito declarações “ultrajantes” na sua campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia. A menos de um mês do referendo de 23 de junho, os parlamentares consideram que essa atitude é suficientemente grave para retirarem o seu apoio ao governante.

“O partido está significativamente fraturado, dividido ao meio, e eu não sei que pessoa conseguiria voltar a uni-lo para avançar com um Governo eficaz. Penso, sinceramente, que é provável que precisemos de ter eleições gerais antes do Natal, para obter um novo mandato do povo”, afirmou o deputado Andrew Bridgen, falando à BBC. Brigden considera que Cameron tem feito declarações “ultrajantes” e acrescenta que pelo menos 50 deputados conservadores partilham essa opinião. Se for verdade, o número de contestatários é suficiente para viabilizar a apresentação de uma moção de censura a Cameron.

No Reino Unido os deputados são eleitos em círculos uninominais, isto é, o mandato que obtêm (embora se apresentem com as cores partidárias) é muito mais pessoal do que na generalidade das democracias europeias. Isto permite-lhes, não raro, votarem contra as orientações do seu líder, e coloca em risco governos, mesmo os que gozam de maioria absoluta, como o atual.

Ser pró-Brexit nem sempre é ser anti-Cameron

A moção de censura pode, de facto, vir a caminho. A deputada Nadine Dorries, também conservadora, referiu à ITV que apresentou ao partido uma proposta nesse sentido. “[Cameron] mentiu descaradamente, penso que isso atingiu os deputados conservadores no coração, deixando-os zangados. Dizer que a Turquia não vai aderir à União Europeia num período tão amplo como os próximos 30 anos é uma mentira”, afirmou.

Hoje outro deputado conservador, o veterano eurocético Bill Cash, disse ao jornal “The Daily Telegraph” que a “propaganda monumentalmente enganosa” de Cameron está também a levá-lo a considerar a apresentar uma moção de censura. O que não é consensual é que o número de deputados conservadores a favor da moção seja suficiente, mesmo entre os eurocéticos. “Não penso que haja 50 colegas contra o primeiro-ministro”, disse o deputado e ministro da Justiça Chris Grayling, que tem feito campanha pela saída da União Europeia.

Observadores consideram que, caso vença o referendo, Cameron não deverá perder a liderança, mas, apesar disso, se a moção avançar poderá vir a enfraquecer a sua autoridade. Em caso de vitória dos eurocéticos na consulta popular, não é segredo para ninguém que o antigo presidente da Câmara de Londres e líder não oficial da campanha pelo Brexit, Boris Johnson, ambiciona ocupar-lhe o cargo.