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“Não há dinheiro”, diz o primeiro-ministro russo a uma pensionista da Crimeia

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Mais de dois anos após a polémica anexação, a situação económica dos habitantes da península, como dos russos em geral, está muito pior

Luís M. Faria

Jornalista

O primeiro-ministro russo Dmitry Medvedev foi de visita à Crimeia mas teve um encontro imprevisto. Logo que saiu do carro e começou a andar por entre a população, uma pensionista abordou-o, queixando-se do diferencial entre a subida de preços e o nível das pensões. "O governo limpa os pés em nós. Os preços são uma loucura", disse-lhe ela. Medvedev respondeu-lhe tranquilamente: "Não há dinheiro. Simplesmente não há dinheiro. Quando tivermos o dinheiro, faremos a indexação".

Quando a Rússia anexou a Crimeia e submeteu a decisão a referendo, o resultado oficial foi 96,77% a favor. Mesmo admitindo que a votação não foi inteiramente democrática (poderá ter sido algo intimidante a presença de tropas russas ou milícias), pouca gente duvida de que boa parte da população queria mesmo pertencer à Russia – até por a etnia russa ser maioritária na península, até então considerada território ucraniano. Também poderá ter contribuído o facto de o Governo russo prometer que os reformados passariam a receber pelo sistema russo, com as reformas indexadas à inflação.

A seguir à anexação, as pensões foram de facto aumentadas para o nível russo. Mas nos últimos dois anos, a crise económica, resultante da baixa de preço do petróleo e das sanções ocidentais, atingiu em cheio a Rússia. Com uma inflação algures entre 7 e 15%, um pensionista a receber o equivalente a 3,65 euros tem dificuldade em sobreviver, atendendo a que isso mal chega para as necessidade básicas de alimentação, muito menos para o resto.

Ainda assim, foi surpreendente Medvedev admitir de forma tão direta que a Rússia tem falta de dinheiro. Numa altura em que, graças ao dossiê Panama Papers, surgem revelações sobre os milhares de milhões de dólares que pessoas próximas do Presidente Putin têm depositados no estrangeiro, as palavras de Medvedev não podiam cair bem. Os social media já reagiram, com o nível de indignação que seria de esperar.