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Venezuela. “É uma lista muito grande a das pessoas conhecidas que já morreram em assaltos e sequestros”

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INSEGURANÇA. “Não temos bombas a cair, mas há tiroteios e milhares de mortos, não há comida, nem segurança e não se vê futuro”, diz Yenny de Abreu

Carlos Garcia Rawlins/REUTERS

Yenny deixou a Venezuela depois de uma tentativa de assalto no meio do trânsito no centro de Caracas. Maria ainda lá está e teme pelo futuro dos filhos, de nove e cinco anos, numa cidade onde falta tudo: comida, água, eletricidade, medicamentos, sabão para lavar a roupa e champô para o cabelo. As histórias das duas portuguesas nascidas na Venezuela espelham bem o momento que se vive no país. Quem pode parte; quem fica espera por uma mudança

Marta Caires

Jornalista

O coração de Yenny de Abreu está na Venezuela e em tudo o que lá ficou. O namorado, os tios e os primos, os negócios e a casa, a vida que tinha antes daquela espécie de guerra ter tomado conta do país. “Não temos bombas a cair, mas há tiroteios e milhares de mortos, não há comida, nem segurança e não se vê futuro.”

A família mudou-se em dezembro para a Madeira depois de Yenny ter sido atacada por um grupo de homens armados quando estava parada no meio do trânsito no centro de Caracas. “Foi a a gota de água. Ainda hoje não sei como escapei, tentaram partir o vidro do carro com as pistolas, mas alguma coisa os fez desistir. Não tinha chegado a minha vez.”

O incidente acabou por precipitar a mudança. “Os meus pais, que nasceram na Madeira e têm aqui uma casa, falavam disso, o assunto foi muito discutido e chegaram a ponderar virmos só nós — as três filhas —, mas depois a decisão foi de que vínhamos todos. Nós vivíamos num sítio de muitos portugueses, em San Pedro de Los Altos, a uma hora e meia de Caracas, e todas as semanas havia notícias de um vizinho sequestrado ou de um cliente que tinha sido assaltado e morto. O que se pensava era quando seria a nossa vez. Lembro-me que, quando pediam o resgate ao fim de semana, os conhecidos tentavam reunir o dinheiro para evitar que matassem o sequestrado.”

NOVA VIDA Yenny era contabilista na empresa do pai e agora trabalha como esteticista num cabeleireiro no Funchal

NOVA VIDA Yenny era contabilista na empresa do pai e agora trabalha como esteticista num cabeleireiro no Funchal

Consciente de que era apenas uma questão de tempo, a família tratou de deixar os negócios — uma empresa de sementes e químicos para agricultura — a uns primos. “Tínhamos também uma fazenda para a produção de flores, mas faliu porque dependia da importação de sementes da Holanda. A empresa de produtos para agricultura ainda funciona, mas os meus primos dizem que agora está ainda pior. Quando me vim embora já nem sabia o que era comer uma maçã.” A casa de dois andares onde viviam também ficou para trás, está fechada. “Todos os dias me lembro da casa e tenho medo que aconteça alguma coisa.”

Antes de deixar a Venezuela, Yenny teve ainda que percorrer toda a burocracia que implica viajar para fora do país, mesmo quando se tem dinheiro para pagar as passagens. “São poucas as passagens que a companhia venezuelana abre para os voos para Madrid, a única ligação à Europa. Esta é a única que nos permite pagar em bolívares, mesmo assim a preços altos. Tenho umas pessoas de família que vão chegar agora e que pagaram 550 mil bolívares [cerca de 50 mil euros], 20 vezes o ordenado mínimo venezuelano. As outras companhias obrigam ao pagamento em dólares ou euros por transferência internacional ou cartão de crédito internacional.”

As cinco passagens custaram seis mil euros, além da noite num hotel no Panamá já que não havia voos diretos de Caracas para Lisboa, mas o governo não autorizou os dois mil dólares no cartão de crédito, a única forma legal de sair com dinheiro da Venezuela. A Yenny e à família valeu o dinheiro que pai tinha guardado nas contas na Madeira, mas até isso gerou um sobressalto. Duas semanas depois da chegada à Madeira, o colapso do Banif levou o pai às filas no banco para salvar o dinheiro que tinha poupado uma vida inteira. “O meu pai ficou com medo, lembrava-se bem do desespero dos clientes que perderam tudo no Banco Espírito Santo.”

Seis meses depois, Yenny, que era a contabilista diplomada na empresa do pai, trabalha como esteticista num cabeleireiro no Funchal, uma irmã é empregada numa loja num centro comercial e irmã mais nova estuda no 10º ano. “O meu pai ainda não decidiu se investe ou não aqui, eu também não sei se vou ficar. A maioria dos portugueses da Venezuela da minha geração encara a Madeira como um ponto de passagem, um sítio seguro para pensar o que fazer depois. Eu tenho amigas espalhadas pelo mundo. No Chile, em Madrid, até na Austrália. O meu dentista, por exemplo, trabalha na Colômbia. E eu ainda não sei o que fazer, mas quando percebi o rumo que levava o país comecei a tirar cursos de maquilhagem, de estética, de manicure. A ideia era ter uma coisa que pudesse fazer em qualquer parte do Mundo e é isso que agora me sustenta.”

A preocupação, no entanto, não acabou. O namorado ainda vive na Venezuela, e estão lá primos com quem fala todos os dias. E todas as notícias são seguidas com atenção como a recente morte de uma portuguesa numa tentativa de sequestro. “Ainda noutro dia fizemos a conta às pessoas conhecidas que já morreram em assaltos e sequestros. É uma lista grande, muito grande.” O coração de Yenny, 28 anos, continua na Venezuela, mas agradece todos os dias viver agora num lugar seguro onde não falta comida nas prateleiras do supermercado. “Nem imagina a sensação de entrar no supermercado e poder comprar de tudo.”

“Há uns dois meses que não sei o que é beber café com leite”

ESCASSEZ. “Falta leite, falta farinha, falta açúcar, não há carne e o que aparece é muito caro, vendido no mercado paralelo”, revela Maria

ESCASSEZ. “Falta leite, falta farinha, falta açúcar, não há carne e o que aparece é muito caro, vendido no mercado paralelo”, revela Maria

Marco Bello/REUTERS

Maria, nome fictício, sabe bem o que é passar horas na fila do supermercado e não ter nada para comprar no fim da espera. “Há uns dois meses que não sei o que é beber café com leite”, lamenta a portuguesa nascida na Venezuela e a viver em Caracas. “Falta leite, falta farinha, falta açúcar, não há carne e o que aparece é muito caro, vendido no mercado paralelo.” O que, no caso de Maria, é ainda mais grave já que tem um negócio de venda de bolos. A falta de farinha e de açúcar tornou tudo muito mais complicado. “Se eu me mudava para a Madeira? Se aparecer uma oportunidade não deixo passar, mas teria de ter um emprego, uma maneira de sustentar os meus dois filhos.”

O futuro dos filhos, um de nove e outro de cinco anos, é o que mais preocupa Maria, de 44 anos, filha de emigrantes madeirenses. “Todos queremos o melhor para os nossos filhos, que tenham qualidade de vida, que tenham uma boa escola, cuidados de saúde, mas agora nem há comida para comprar. Passa-se a vida na fila do supermercado”. Se a falta de comida é o que mais a preocupa, a verdade é que faltam também outros bens como champô para o cabelo ou sabão para lavar a roupa. “Agora trocamos produtos. Quem tem champô troca por sabão.” E quando não há é preciso improvisar o melhor que se souber. Há quem lave a roupa com sabão da loiça.

“Também falta a água. Aqui, na zona de Caracas onde vivo, desligam a água potável de quinta a domingo, às vezes só ligam na segunda-feira de manhã. Não sei que caminho isto leva, mas estamos todos à espera de uma mudança e o que virá depois não será nada bom.” Nas ruas há insegurança, o dinheiro desvaloriza todos os dias e tudo é muito caro, mesmo muito caro. A ideia de deixar a Venezuela também é ponderada por Maria, mas em Caracas tem a família mais chegada, o pai e a irmã. A Madeira, onde vivem tios e primos, seria um bom destino se houvesse trabalho, mas a terra dos pais é uma das regiões portuguesas com maior taxa de desemprego.

“Tenho nacionalidade portuguesas e os meus filhos também. Sei que na Madeira teria boas escolas para os meus filhos, seria capaz de garantir uma boa qualidade de vida, além disso tenho família, tios e primos. Aqui os colégios privados são muito caros, as escolas públicas não prestam. Aqui nem sequer há medicamentos.” E Maria lamenta o estado a que chegou a Venezuela, um país muito bonito, com tantas belezas naturais e tantas riquezas como petróleo, ouro e diamantes. “Este era um país de oportunidades.”

[Texto publicado no Expresso Diário de 27 de maio de 2016]

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