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A pedalar pela rota dos refugiados contra o esquecimento

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Jaime Figueiredo

Um alemão rumou a Atenas. De bicicleta, ao longo de 45 dias e mais de dois mil quilómetros, Christian Küsters fez o caminho inverso dos milhares de refugiados que atravessam a Europa para chegarem aos países do norte. Viu fronteiras fechadas e pessoas desesperadas, mas também entreajuda, espirito de comunidade e muita esperança nos olhares. Aquelas que eram para ser umas férias de fim de curso acabaram por tornar-se um projeto solidário. O objetivo? Manter fresco na memória dos europeus que continuam a chegar diariamente centenas de pessoas que fogem da guerra e precisam de ajuda

De cabelo penteado para o lado, jeans e blusão vestido, Saifur e Arman (nomes fictícios) sorriem para a fotografia. Por trás do sorriso dos dois irmãos afegãos esconde-se uma vida marcada pela guerra, a morte, o medo e a fuga. Ambos têm, no máximo, 20 e poucos anos. Chegaram à Europa como tantos outras centenas de refugiados à procura de uma vida melhor. Esta foi apenas uma das histórias que Christian Küsters encontrou na rota dos refugiados. O alemão de 27 anos pedalou ao longo de 2300 quilómetros e 45 dias para recolher donativos e relembrar o Velho Continente que eles precisam da nossa ajuda.

A 1 de abril, Chris fez-se à estrada. Sabia que à sua frente tinha uma aventura que se tornou “maior do que alguma vez” pensou. Supostamente, aquele seria o primeiro dia de umas longas férias, mas afinal não foi. Partiu de Munique, na Alemanha. O destino traçado era Atenas, na Grécia. Ao fim ao cabo, realizou o trajeto inverso ao que a maioria dos refugiados faz quando entra na Europa e segue para norte, quase todos com o objetivo de chegar ao país de onde Chris partiu.

Só quase mil quilómetros após o começo da jornada é que o recém-formado em Política e Relações Internacionais conseguiu falar com os primeiros refugiados, consequência das fronteiras encerradas e vedações construídas. Até aí, Chris viu umas quantas pessoas a caminhar à beira da estrada, mas em Belgrado, na Sérvia, levou o primeiro “murro no estômago”. Foi no Bristol Park, por estes dias mais conhecido como Afeghan Park, que o alemão encontrou Saifur e Arman.

- Sabem que todas as fronteiras para a Hungria estão fechadas?
- Sim, claro que sabemos isso.
- E mesmo assim vão tentar atravessar?

Com um sorriso nos lábios responderam apenas: Não, isso é ilegal nem sequer vamos tentar...

“Claro que vão tentar, que mais vão fazer ao aproximar-se da fronteira?”, questiona Chris.

Arman e Saifur no Bristol Park, em Belgrado
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Arman e Saifur no Bristol Park, em Belgrado

Foto DR

O Bristol Park passou por estes dias a ser mais conhecido por Afghan Park
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O Bristol Park passou por estes dias a ser mais conhecido por Afghan Park

Foto DR

Ninguém quer ficar em Belgrado. A cidade sérvia é apenas local de passagem, o caminho faz-se para norte
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Ninguém quer ficar em Belgrado. A cidade sérvia é apenas local de passagem, o caminho faz-se para norte

Foto DR

Todos os dias chegam à cidade cerca de 100 novos refugiados. Diariamente deixam a cidade também cerca de uma centena, dizem as ONGs no terreno
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Todos os dias chegam à cidade cerca de 100 novos refugiados. Diariamente deixam a cidade também cerca de uma centena, dizem as ONGs no terreno

Foto DR

“Apesar da miséria, diria que há uma certa rotina em Belgrado”, comenta Chris
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“Apesar da miséria, diria que há uma certa rotina em Belgrado”, comenta Chris

Foto DR

Muitos dos refugiados instalam-se no parque, onde acabam por ficar a dormir ao relento.
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Muitos dos refugiados instalam-se no parque, onde acabam por ficar a dormir ao relento.

Foto DR

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Foto DR

Em Belgrado vê-se perto de duas centenas de refugiados pelas ruas, o parque e a estação de comboios. Mas são mais, há pelo menos 500 refugiados na cidade, grande parte entrou ilegalmente na Europa
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Em Belgrado vê-se perto de duas centenas de refugiados pelas ruas, o parque e a estação de comboios. Mas são mais, há pelo menos 500 refugiados na cidade, grande parte entrou ilegalmente na Europa

Foto DR

Os dois irmãos estavam à espera que o resto do grupo que os acompanha chegasse. Belgrado era apenas um ponto de paragem. O caminho era para norte. “Disseram-me que querem ir para a Áustria. É lá que estão os únicos familiares vivos: a avó, uma tia e um primo. Saíram do Afeganistão depois da família ter morrido numa explosão”, conta Chris.

A meio de janeiro, Saifur e Arman deixaram a cidade que os viu nascer e crescer, perto da fronteira do Afeganistão com o Paquistão. Ambos estavam a terminar os estudos mas tiveram que parar porque o caminho era demasiado perigoso. O risco de levarem com uma bomba e de morrerem era enorme.

“Tentei perceber qual eram os objetivos deles, o que queriam fazer no futuro, mas a única coisa que insistentemente me dizia era que queriam ir para a Áustria. Tenho quase a certeza que não sabem o que os espera, talvez nem nunca tenham conhecido estes familiares. Não existem expectativas do que poderão fazer depois”, relembra Chris.

Os dois irmãos meterem-se no autocarro e seguiram caminho.

O apoio chegou de todo o lado... até da antiga patroa

Nunca tinha viajado sozinho, muito menos de bicicleta. Nunca tinha escrito nada para ser publicado. Pouco ou nada percebia de fotografia. Em duas semanas, Chris teve de aprender tudo isto e de se preparar para a longa jornada. O tempo foi tão curto que não houve momento para criar expectativas.

Chris na chegada ao campo em Gevgelija, na Macedónia

Chris na chegada ao campo em Gevgelija, na Macedónia

Foto DR

“Tinha o tempo e o dinheiro que tinha poupado para as férias. Uma vez que tinha trabalhado para a Comissão Europeia, a questão dos refugiados era-me próxima. Especialmente após o acordo com a Turquia, percebi que deixaria de haver fotografias de refugiados nas fronteiras, o tema desapareceria das páginas dos jornais e, aos poucos, o problema seria esquecido. Mas o problema não foi resolvido. Continua a existir gente a chegar todos os dias”, justifica Chris.

Foi precisamente para as pessoas não se esquecessem que o problema é real, que o jovem se lembrou de criar o blog “Chris bikes”. Daí até decidir que ira tentar recolher donativos foi um pequeno passo.

“Já que vou escrever sobre a experiência, porque não tentar angaria doações para projetos alemães que ajudam os refugiados?”, questionou-se. E assim fez. Depois de alguma pesquisa acabou por se associar à Cruz Vermelha da Alemanha.

Rota traçada, bicicleta pronta e objetivo definido, ficava a faltar apenas alguém que o ajudasse. Entre a amigos e familiares, Chris espalhou a mensagem sobre os planos. Acabou mesmo por conseguir ter como principal patrocinador uma antiga patroa. “Estagiei com ela em 2014 e mantive sempre o contacto. Gostou da ideia e decidiu apoiar”.

“Nesse momento, percebei que isto era maior do que alguma vez pensei. E que tinha de levar a sério”, confessa.

Idomeni: “Uma rotina caótica”

A chuva é um tormento. Uma noite de aguaceiros é sinal de “uma manhã de porcaria” no dia seguinte. Os campos e a relva transformaram-se num lago de lama, as tendas ficarão encharcadas, os pertences alagados. Muitas pessoas dormiram ao relento. O campo de Idomeni, na Grécia foi um dos locais mais marcantes na viagem de Chris. Até à passada quinta-feira, era o albergue de milhares ( as autoridades contaram mais de oito mil) de refugiados. Agora já só restam as tendas das organizações humanitárias.

Idomeni transforma-se após um dia ou noite de chuva. A lama é um dos piores inimigos dentro do campo de refugiados, conta Chris
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Idomeni transforma-se após um dia ou noite de chuva. A lama é um dos piores inimigos dentro do campo de refugiados, conta Chris

Christian Küsters

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Christian Küsters

“Queremos ir para a Alemanha. Queremos salvar os nossos filhos”
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“Queremos ir para a Alemanha. Queremos salvar os nossos filhos”

Christian Küsters

Qualquer espaço livre serve para (sobre)viver
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Qualquer espaço livre serve para (sobre)viver

Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

As crianças das várias famílias juntam-se para brincar. Chris descreve que existe uma sensação de comunidade e preocupação com o próximo, mas apenas dentro do campo
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As crianças das várias famílias juntam-se para brincar. Chris descreve que existe uma sensação de comunidade e preocupação com o próximo, mas apenas dentro do campo

Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

Os voluntários construíram um centro cultural, onde ao longo de todos os dias decorrem atividades
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Os voluntários construíram um centro cultural, onde ao longo de todos os dias decorrem atividades

Christian Küsters

O horário do Centro Cultural do campo de refugiados
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O horário do Centro Cultural do campo de refugiados

Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

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Christian Küsters

Tenho tantos sentimentos, que não sei se cabem em palavras”
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Tenho tantos sentimentos, que não sei se cabem em palavras”

Christian Küsters

Mas antes disso Chris ainda assistiu ao amanhecer do campo após uma noite de chuva. Viu as crianças a brincarem de pés descalços na lama, com mãos enterradas na terra, que também era restos de lixo e fezes. “A chuva torna tudo muito mais difícil”, recorda o alemão.

Por duas noites e três dias viveu ali, junto com aqueles que fogem da guerra e dos que tentam ajudar. Entre voluntários e refugiados, Chris percebeu que, apesar das condições existe uma rotina de caos, onde as pessoas tentam fazer daquele local o mais parecido com uma casa.

“Por um lado, é caótico porque as infraestruturas são poucas: as casa de banho e os duches são como nos festivais, há grandes tendas e camiões das ONG a distribuir comida . Por outro, a rotina vê-se pelo facto de haver muitas pessoas que já ali vivem há meses, que tentam levar a vida da forma mais normal possível dadas as condições”, descreve.

Tal como no normal quotidiano, de manhã os refugiados tomam duche, vão à casa de banho e fazem a higiene diária. A diferença? Têm de ficar na fila à espera pela vez e partilham o chuveiro com milhares de pessoas que não conhecem de lado nenhuma. Por volta do meio-dia, começam os primeiros preparativos para o almoço. A diferença? É preciso acender uma fogueira para cozinhar o pouco que há.

“As pessoas tentaram acomodar-se à ideia de que já lá estão há meses e que provavelmente é ali que ficarão durante mais uns largos tempos”, diz Chris.“Ouve-se miúdos a gritar todo o dia. Uma coisa estranha: as crianças em geral parecem felizes ali. Estão bem alimentadas e passam o dia todo a brincar. Se só olharmos para elas parece que estão a viver uma aventura”, acrescenta.

Idomeni é uma pequena vila junto a fronteira da Grécia com a Macedónia. Ali, as linhas de comboio ligavam os dois países. Os comboios deixaram de passar há meses, porque os refugiados foram chegando e ali ficaram. As vedações erguidas delimitaram o espaço, impedindo a passagem para norte. Mas de sul, continuam a chegar refugiados quase todos os dias.

Na última semana, as autoridades gregas levaram a cabo a operação de encerramento do campo. Contaram 8424 pessoas. Cerca de metade foram transferidas para o centro de acolhimento na região, outras tantas deixaram Idomeni pelos próprios meios, instalando-se noutros centros ou hotéis.

“Foi intenso. Nunca vi um lugar como aquele. É ridículo que aquilo aconteça num país da União Europeia”, comenta Chris.

“As pessoas são mais fortes do que parecem”

Alemanha, Suécia e Áustria são o grande objetivo da maioria dos refugiados. Falam também de França e Suíça, mas sabem que a esses dois é bem mais difícil de chegar. Claro, procuram países membros da União Europeia que lhes proporcionem melhores condições de vida, mas são muitos os que têm familiares ou amigos à espera. Esse é o primeiro critério para a escolha do destino.

Em seguida, tomam em consideração a probabilidade de serem reconhecidos e aceites como refugiados. “Têm enormes expectativas em relação ao que significa viver na União Europeia”, refere Chris.

As vedações e fronteiras encerradas quase se tornaram uma constante

As vedações e fronteiras encerradas quase se tornaram uma constante

DR

“O governo alemão vai aceitar-nos?” Esta foi, provavelmente, a questão que mais vezes ouviu. A forma como o abordavam nunca colocava em causa se a mudança das políticas aconteceria ou não. A questão era o quando.

“Todos sabem que as fronteiras estão fechadas e que é realmente difícil chegar aos países que querem. Sabem que implica dinheiro ou atravessar as fronteiras ilegalmente, mas ao mesmo tempo, parece que desligam esse pensamento. O foco é chegar lá e bloqueiam as dificuldades que vão ter de atravessar”, recorda Chris.

Grande parte dos refugiados já está há dois ou três meses barrados em alguma fronteira. Apesar das adversidades, sente-se “o otimismo e a esperança no ar”: muitos estão física e psicologicamente preparados para a qualquer momento retomarem a viagem.

“É incrível perceber que as pessoas são mais fortes do que parecem. Estão em condições horríveis, mas vemo-las a tentar pôr a vida em ordem e a procurar tirar o melhor da situação”.

“Voluntários são uma bênção e uma maldição”

De toda a Europa chegaram nos últimos meses donativos, roupas, comida, medicamentos... Com o tempo quente a aproximar-se, surgem também novas necessidades, nomeadamente, calçado e vestuário mais fresco.

Para Chris há algo de que os refugiados precisam muito mais: informação organizada. Algo que nem sempre chega em quantidade ou qualidade a estas pessoas desesperadas. E e aí que os voluntários e as organizações humanitárias desempenham um papel importante.

Um contentor com doações em Polykastro, na Grécia

Um contentor com doações em Polykastro, na Grécia

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“Há tanto a acontecer que é difícil para os refugiados distinguirem o verdadeiro do falso. A função do voluntário, pelo que vi e ouvi, é muito ambígua. Por um lado, são essenciais para a continuidade das organizações, são pessoas muito idealistas e dispostas a fazer todo o trabalho. No entanto, pode ser perigoso e problemático quando se passa a informação errada”, defende o alemão.

Embora não coloque em causa as boas intenções dos voluntários, basta uma informação dada sob pressão para um rumor circular no campo. Se alguém conta que existe forma de atravessar a fronteira, gera-se um tumulto. “As coisas ficam muito, muito loucas rapidamente”, conta Chris. Uma informação pode incentivar alguém a recorrer a traficantes ou fazer ilegalmente a passagem de um país para o outro.

“É muito difícil dizer não a alguém naquela situação... Vemos o desespero no olhar. Como lhes vamos dizer que provavelmente não vão conseguir pedir asilo na Alemanha? Naquele momento é muito mais simples dizer sim, sim, sim. Este papel de fornecedores de informação é um papel no qual muitos dos voluntários não refletem. Tenta ajudar e pensam que o estão a fazer, mas estão a dar informação que não é absolutamente segura”.

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Ao mesmo tempo, existe ainda o choque de culturas. Se os refugiados são na maioria de crença muçulmana, os voluntários são sobretudo jovens europeus. Algo tão simples como usar uns calções de ganga no campo pode fazer confusão a muita gente.

As organizações não governamentais não têm meios financeiros nem tempo para dar formação a quem se disponibiliza para ajudar. Segundo Chris, grande parte dos voluntários deixa-se levar pelo que considera ser correto e pelo instinto, o que por vezes “não é necessariamente bom”. “Quando se trabalha com crianças ou com pessoas traumatizadas é preciso um acompanhamento especializado”, defende.

“O acordo da União Europeia não está a funcionar e as pessoas vão voltar a caminhar”

No passado dia 20 de março, entrou em vigor o acordo entre a União Europeia e a Turquia. O principal ponto acordado é que os turcos recebam de volta cada refugiado sírio que tenha entrado ilegalmente no território da União Europeia, desde que europeus recebam outro vindo da Turquia. Este entendimento, e não só, gerou no seio de cada um dos 28 Estados-membros.

“O acordo não está a funcionar. As pessoas estão paradas porque estados-membros fecharam as fronteiras. Em vez de uma resposta coordenada à chegada dos refugiados, temos presidentes e primeiros-ministros com ideias totalmente diferentes do que se deve fazer”, afirma Chris, que no final de 2015 fez um estágio na Comissão Europeia.

Se as políticas não funcionam, se as fronteiras estão fechadas, o que vai afinal acontecer a todas estas pessoas? “Vão voltar a caminhar”, diz Chris sem hesitar. Vão regressar às estradas e aos percursos de horas a fio ao sabor do calor ou da chuva. Se tiverem de atravessar fronteiras ilegalmente, vão fazê-lo. Os primeiros devem ser os homens jovens, que estão mais saudáveis. Depois, as famílias.

“Não podemos parar pessoas que estão a fugir da guerra e das perseguições. Não podemos parar pessoas que já não têm nada nem ninguém. Não podemos parar quem procura uma vida melhor. Os refugiados estão cá e vão continuar a vir”, conclui Chris.