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O último embaraço de Hillary Clinton

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STEPHEN LAM/REUTERS

A candidata presidencial democrata é severamente criticada num relatório interno da secretaria de Estado por ter usado um servidor privado em comunicações oficiais

Luís M. Faria

Jornalista

Hillary Clinton pôs em risco a segurança de comunicações governamentais? É bem possível, segundo um relatório elaborado pelos serviços internos da secretaria de Estado, o ministério que ela dirigiu durante o primeiro mandato de Barack Obama. Ao longo de quatro anos, a agora candidata presidencial democrata enviou e recebeu os seus emails através de um servidor privado instalado na sua residência familiar em Chappaqua (Nova Iorque). Ela defende-se alegando que o fez por conveniência, para não ter de usar dois endereços diferentes, um profissional e outro pessoal, com as eventuais confusões resultantes. Lembra igualmente que antecessores dela no cargo, incluindo Colin Powell, fizeram o mesmo, e assegura que nada de confidencial ficou comprometido. Mas esses argumentos não valem tanto como ela pensa.

É verdade que Powell usou um servidor privado, mas na altura dele era mais difícil usar o sistema do Departamento de Estado, portanto havia de facto um elemento de conveniência. Quanto a saber se outros governos tiveram acesso a informações que não deviam, é impossível ter certeza, até porque parte dos emails em causa foi apagada no servidor de Hillary. Ela diz que não faz mal, pois foram enviados para outros mails oficiais, podendo sempre ser recuperados. Mas o inspector-geral da Secretaria de Estado, que elaborou o relatório agora publicado onde Hillary é criticada severamente, diz que isso não é maneira de preservar informação sobre matérias governamentais.

A regra num caso desses seria pedir autorização para usar um servidor privado, diz o inspetor-geral, acrescentando que a autorização seria negada. O que torna pior a polémica é o modo como começou. Quando o embaixador americano na Líbia foi morto em 2012, durante um assalto à representação dos Estados Unidos em Bengasi, os republicanos culparam a então secretária de Estado por não ter tomado as devidas precauções de segurança. O Congresso começou a investigar, e descobriu-se que Hillary tinha um servidor privado que usava para enviar e receber emails relativos a assuntos oficiais.

‘Privatizar’ as comunicações oficiais

Quanto mais se investiga, mais pormenores embaraçosos aparecem. Já esta semana, veio a público uma troca de mensagens entre Hillary e uma assessora na qual fica claro que os seus motivos tinham a ver sobretudo com privacidade. “Vamos arranjar um endereço ou aparelho separado mas não quero que haja nenhum risco de o pessoal ficar acessível”, diz a então secretária de Estado. Ciente de que se encontrava sob ataque dos republicanos há muitos anos, e prevendo que isso se intensificaria quando voltasse a candidatar-se a um cargo político, ela terá querido evitar que as suas comunicações pudessem vir a ser usadas contra ela.

A intenção será compreensível, até porque, como têm notado comentadores, um certo grau de à vontade é essencial para poder tomar decisões ao mais alto nível. Mas daí a ‘privatizar’ o email oficial, vai uma distância. E quando Hillary ainda por cima se mostra inepta a gerir a polémica uma vez rebentada, é difícil evitar as consequências. Aliás, está longe de ser a primeira situação embaraçosa em que a reação característica da ex-secretária de Estado, tentando negar informação e deixando-se levar pelos acontecimentos, agrava um problema em lugar de a conter.

A revista “The Economist” escreve hoje: “Ela devia ter tomado medidas urgentes para confessar a sua falta de cuidado, exprimir remorso e fazer uma grande cena de entregar todos os materiais requeridos pelos investigadores. Em vez disso, a sra. Clinton ofuscou, negou e viu o escândalo crescer. A acusação mais significativa a nascer daqui pode bem ter a ver com as suas capacidades como política. Mas com as recentes sondagens dando a Trump uma estreita vantagem, isso não é de modo nenhum tranquilizador”.


Pior do que um crime…

Segundo a BBC, durante os quatro anos que Hillary Clinton foi secretária de Estado, enviou e recebeu 62320 emails, cerca de metade respeitantes a assuntos oficiais. Os restantes terão a ver com assuntos familiares (funeral da mãe, casamento da filha, etc) e pessoais. A classificação dos emails competia à própria secretária de Estado, como há muito era tradição. Essa é outra linha de defesa de Hillary.

Quanto às garantias de que ninguém de fora entrou no sistema, há indicações em contrário. Por várias vezes hackers tentaram fazê-lo, e há um tal ‘Guccifer’, um romeno entretanto preso no seu país natal e extraditado para os EUA em conexão com outros casos, que diz tê-lo feito, embora não pareça haver provas disso. Por outro lado, esses ataques podem serem realizados sem deixar traços. E mesmo sem eles, já se apurou que pelo menos duas mensagens enviadas por Clinton continham material oriundo de fontes consideradas oficialmente secretas. Mesmo não estando em causa um crime – como parece ser a conclusão para a qual se inclina o FBI, atualmente a investigar o assunto – o potencial de embaraço para Hillary é bastante grande. A sua popularidade caiu devido à história, que reforça a desconfiança há muito sentida em relação a ela por parte substancial da população americana. Há décadas que escândalos de natureza diversa, políticos, financeiros etc., a tornaram uma figura polémica, para os conservadores e não só.

Certo, como disse um comentador, é que há pessoas a quem nada se pega e outras a quem se pega tudo. Donald Trump está na primeira categoria, Hillary Clinton na segunda. O candidato republicano pode ser apanhado a fugir aos impostos, a empregar trabalhadores ilegais em condições indignas (embora vocifere contra os mexicanos que entram ilegalmente nos EUA), a envolver-se em combinações com a Máfia, a usar as leis da expropriação para correr com idosos (construindo parques de estacionamento onde tinha dito que ia pôr habitação), a desrespeitar mulheres - incluindo participantes no concurso Miss Mundo, a quem beijava na boca sem aviso prévio, entre outros abusos - a contradizer-se e a mentir sobre uma variedade de assuntos, a elogiar violência cometida pelos seus fãs, a dizer todo o tipo de despropósitos. Nada parece afetá-lo.

Em contrapartida, Hillary Clinton é apanhada a utilizar um servidor privado para enviar e receber emails quando era secretária de Estado, e isso transforma-se num escândalo de proporções maiores. É verdade que se tratou de uma imprudência. Mas, como diria o lendário diplomata Talleyrand, terá sido pior do que um crime. Terá sido uma asneira.