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Quem é o próximo ministro a cair no Brasil?

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O círculo próximo de Temer quer afastar Dilma para travar a Lava Jato. O ex-ministro Romero Jucá (esq) e o presidente do Senado, Renan Calheiros

ADRIANO MACHADO/REUTERS

A possibilidade da revelação de novas escutas leva os assessores de Michel Temer a aconselhá-lo a substituir os ministros envolvidos na Lava Jato. O titular do Planeamento já se demitiu, o ministro do Turismo poderá ser o próximo

Uma traição entre aliados marca a segunda semana do governo interino de Michel Temer, com a divulgação de escutas que sugerem que a liderança do PMDB continua a tentar travar as investigações da Lava Jato. A revelação de conversas do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com Romero Jucá, Renan Calheiros e com José Sarney, afastam muitas das dúvidas quanto às verdadeiras intenções do processo de destituição de Dilma Rousseff.

Os principais jornais brasileiros dão conta do mal estar que se vive no governo de Michel Temer, onde seis dos seus ministros estão envolvidos nas investigações dos desvios de fundos da Petrobrás. "Comparado com Machado, as minhas são Disney", disse o ex-senador Delcídio do Amaral, cujas denúncias no âmbito da Lava Jato envolvem mais de 30 políticos. Alguns jornais adiantam ainda que Sérgio Machado entregou à Justiça escutas que fez com outros responsáveis políticos, entre os quais poderá estar o próprio Michel Temer.

O “ Folha de São Paulo” adiantou na sua edição de ontem que os assessores próximos do presidente interino recomendam uma “vacina” que consiste, no prazo de um mês, afastar os membros do executivo citados na Lava Jato ou que respondam em ações em tribunal. Na primeira linha de “dispensáveis”, que negam as acusações, surgem os titulares do Turismo, Henrique Alves, e dos Transportes, Maurício Quintela.

O primeiro enfrenta dois pedidos de inquérito relacionados com a Lava Jato, que ainda não foram confirmados pelo Supremo Tribunal. O segundo é suspeito de integrar a “máfia da merenda”, um esquema de desvio das verbas destinadas aos lanches escolares em Alagoas. Na calha para sair, poderá estar também o ministro da Secretaria do Governo, Geddel Vieira de Lima, citado em várias denúncias.

Afastar Dilma para "estancar a sangria"

Romero Jucá, ministro do Planeamento e homem de mão de Temer foi o primeiro a cair. Numa conversa gravada pelo próprio Sérgio Machado, Jucá sugere o afastamento de Dilma Rousseff para travar a Lava Jato, em que ambos são investigados. A destituição de Roussef permitiria “um pacto” entre partidos para "estancar a sangria” provocada pela investigação. A escuta foi divulgada pelo “Folha de São Paulo” esta segunda-feira e faz parte de um acordo de “delação premiada” feita por Sérgio Machado. A conversa ocorreu em março – já corria o processo de destituição de Dilma - e faz parte de um conjunto entregue por Machado na Procuradoria Geral da República. A validade das escutas foi entretanto confirmada pelo Supremo Tribunal Federal.

Jucá foi um dos artífices da destituição de Dilma, em parceria com Eduardo Cunha, o presidente da Câmara dos Deputados suspenso pelo Supremo Tribunal Federal há quase um mês. Foi ele quem substituiu Michel Temer na presidência do PMDB e forçou a rutura da coligação do governo de Dilma Rousseff.

Yanomami rezam para afastar Jucá

O seu percurso político de mais de 30 anos é de tal forma peculiar que a BBC Brasil publicou no dia seguinte à demissão (terça-feira) uma reportagem que dava conta que os índios Yanomami tinham invocado os deuses para forçarem a demissão de Jucá. A antipatia da maior tribo indígena brasileira remonta aos anos 80, quando Romero Jucá presidiu à Funai (Fundação Nacional do Índio). Para trás ficaram uns contratos de mineração atribuídos à empresa da filha de Jucá – também já como senador - redução de áreas de reserva e uns obscuros contratos com madeireiros. Ainda antes de ser réu na Lava Jato e na Zelotes – operação que investiga tráfico de influências no Parlamento e falsos perdões fiscais, entre outros - Jucá foi ministro da Previdência de Lula da Silva, cargo de que se demitiu três meses depois de um escândalo com empresas fantasma.

Sarney e Calheiros nas escutas

Menos de 48 horas depois, a “Folha de São Paulo” revelava uma conversa de Sérgio Machado com o presidente do Senado, Renan Calheiros, a segunda figura do Estado brasileiro a seguir a Temer. Investigado em nove processos da Lava Jato, entre outras ações judiciais por suborno, corrupção e lavagem de dinheiro, Calheiros disse a Machado que apoia a mudança da lei da chamada “delação premiada” - um estatuto de arrependido que permite a redução de pena via denúncia.

Segundo a “Folha”, Renan Calheiros fala também em negociar uma transição com membros do Supremo Tribunal Federal, mas a gravação não permite esclarecer quais os verdadeiro contornos das sua pretensões. Renan dá ainda conta dos receios de Aécio Neves em relação à Lava Jato, o presidente do PSDB e candidato derrotado por Dilma nas últimas eleições.