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Barack Obama: “Podemos contar aos nossos filhos uma história diferente”

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CARLOS BARRIA/REUTERS

Em visita a Hiroxima, o Presidente norte-americano depositou uma coroa de flores num dos memoriais do Parque Memorial da Paz e abraçou e apertou as mãos a alguns dos sobreviventes da bomba atómica que estiveram presentes na cerimónia

Helena Bento

Jornalista

“Há 71 anos, numa manhã cheia de luz e sem nuvens, a morte caiu do céu e o mundo mudou. Um raio de luz e uma parede de fogo destruíram uma cidade, revelando que a humanidade possui os meios para se destruir a si própria.” Foi com estas palavras que Barack Obama se dirigiu às centenas de pessoas, entre líderes políticos, convidados e sobreviventes da tragédia, que se dirigiram esta sexta-feira ao Parque Memorial da Paz, em Hiroxima, para assistir ao discurso daquele que foi o primeiro Presidente dos EUA a visitar o local.

Obama honrou “a memória de todas as vítimas da Segunda Guerra Mundial” e lembrou os erros do passado, que poderão continuar a ser os erros do presente se a atitude dos governos e das pessoas não mudar. “Países como os Estados Unidos continuam na posse de milhares de armas nucleares”. E falou sobre o “progresso tecnológico”, que “sem um progresso equivalente por parte das instituições humanas poderá levar à ruína”. “Porque viemos a este lugar?”, perguntou Obama, respondendo logo de seguida: “Viemos aqui para nos forçarmos a imaginar o momento em que aquela bomba caiu. Para sentirmos o medo que sentiram aquelas crianças, confusas com o que estavam a ver. Um dia, as vozes dos hibakusha [sobreviventes da detonação das bombas nucleares sobre Hiroxima e Nagasaki] não estarão aqui para testemunhar, mas a memória do que aconteceu no dia 6 de agosto de 1945 não pode apagar-se”.

O Presidente norte-americano depositou ainda uma coroa de flores brancas junto cenotáfio onde estão inscritos os nomes de todas as vítimas, e abraçou e apertou as mãos a alguns dos sobreviventes da bomba atómica que estiveram presentes na cerimónia. Sunao Tsuboi, 91 anos, agarrou a mão de Obama e só a largou depois de ter conseguido falar com ele. “Segurei-lhe na mão. Nem foi preciso chamar o tradutor; consegui perceber o que o Presidente me queria dizer só através da sua expressão”. E Shigeaki Mori, um historiador de 79 anos, abraçou-o. “O Presidente deu a entender que me ia abraçar e então abraçámo-nos”. Foi um momento delicado. O historiador, que tinha apenas oito anos quando os Estados Unidos lançaram a bomba atómica sobre a cidade japonesa, a 6 de agosto de 1945, estava muito emocionado, escreve a AFP, tendo até chorado, segundo Justin McCurry, repórter do “Guardian”.

A tragédia de Hiroxima e Nagasaki

Mais de 140 mil pessoas morreram durante o ataque nuclear norte-americano a Hiroxima. Três dias depois dessa primeira bomba atómica, foi lançada outra sobre a cidade de Nagasaki, matando mais de 70 mil pessoas. Que Obama não tenha, em nome do país, pedido desculpa ao Japão durante a cerimónia desta sexta-feira, não foi uma surpresa. Ele já tinha dito que não o faria. “É importante reconhecer que durante uma guerra, os dirigentes têm de tomar todo o tipo de decisões. Cabe aos historiadores fazer perguntas e analisá-las", dissera numa entrevista à televisão japonesa NHK.

Mesmo sabendo que Barack Obama não iria pedir perdão, a maioria dos japoneses aguardava com grande expectativa a sua chegada à cidade japonesa. Uma sondagem realizada pela televisão NHK, e divulgada em meados de maio, revelava que 70% dos japoneses estavam contentes com a sua visita e apenas 2% não queriam que ela acontecesse. Já durante a cerimónia, o octagénario Toshiyuki Kawamoto, citado pela AFP, disse que o Presidente “era bem-vindo” e que esperava que “esta visita histórica a Hiroxima pudesse representar um passo importante no sentido de serem abolidas, no futuro, as armas nucleares do mundo”. Megu Shimomura, de 14 anos, convidada a assistir à cerimónia, afirmou que estava “muito entusiasmada por poder participar neste encontro histórico”. “Obama vive num mundo muito diferente do meu, mas eu sinto a sua humanidade”, disse, citada também pela agência AFP.

Menos satisfeito com a visita mostrou-se o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, defendendo que o Japão não devia esquecer “o sofrimento grave que causou aos países vizinhos durante a guerra”. “Esperamos que o Japão assuma, perante o seu povo e perante a comunidade internacional, as suas responsabilidades, e que encare a História como um espelho de modo a não repetir a tragédia da guerra”, afirmou Kong Xuanyou, através do seu porta-voz. O jornal estatal “China Daily” foi ainda mais longe e num editorial publicado na véspera da visita acusou o Japão de ter sido o responsável pelos bombardeamentos de Hiroxima e Nagasaki e de tentar agora passar por vítima em vez de assumir a culpa.

Obama: “Podemos contar aos nossos filhos uma história diferente”

Barack Obama lembrou as pessoas que morreram e os erros que foram cometidos, depositou flores e abraçou e falou com algumas vítimas. Viajou até ao passado, mantendo sempre um pé no presente, mas fez ainda mais do que isso. Pesando bem as palavras, Obama tentou chegar ao coração de todos aqueles que o ouviam: “Talvez tenhamos de reinventar a forma como nos ligamos uns aos outros. Não estamos limitados por um código genético que nos leva a repetir os erros do passado. Podemos aprender. Podemos escolher. Podemos contar aos nossos filhos uma história diferente”.