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“Socialistas europeus estão mais à direita do que o Papa”

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NÃO! Protesto em Nantes contra a reforma da lei laboral, um dos muitos que se têm registado em França

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Em entrevista ao Expresso, o deputado do PS francês Pascal Cherki, um dos líderes dos “frondeurs” (revoltados contra o Presidente, François Hollande, e o primeiro-ministro, Manuel Valls), diz que muitos PS europeus são dirigidos por ‘sociais-liberais mais à direita do que o Papa e que “é preciso apoiar António Costa”. Uma entrevista feita a pretexto da reforma da lei do trabalho em França, que está a pôr a França a ferro e fogo

Manuel Alegre disse que François Hollande e os socialistas europeus capitularam. Está de acordo com ele?
Não diria exatamente assim, mas compreendo que ele o diga e o pense. Sim, há uma parte de capitulação no comportamento de certos dirigentes dos sociais-democratas na Europa.

É um dos líderes dos “frondeurs” do PS e é amigo de António Costa, o PM português. A linha de Costa, em Portugal, que governa com o apoio de uma maioria parlamentar de esquerda, agrada-lhe mais do que a de Hollande, em França?
Em primeiro lugar penso que António Costa definiu uma boa estratégia. Depois das eleições, o PS não tinha a maioria, poderia ter escolhido um governo da chamada grande coligação, como foi o caso na Alemanha ou na Áustria, com os resultados “magníficos” que se conhecem. Fez outra escolha, a de juntar a esquerda. Não quis formar um governo incluindo todos os partidos de esquerda, acho que nem ele nem esses partidos o desejavam. Escolheu construir uma base de apoio sólida baseada na confiança e em elementos do programa eleitoral. Acho interessante porque a base desse acordo assenta numa saída progressiva da austeridade. Mas é preciso ter consciência que os portugueses não o conseguirão fazer sozinhos. Foi o mesmo problema que foi colocado aos gregos. Portugal só sairá completamente da austeridade quando houver um poderoso movimento político na Europa que o apoie, quando a relação de forças for mais favorável para mudar as orientações da UE.

“FRONDEUR” Pascal Cherki, de pé, durante uma sessão no Parlamento

“FRONDEUR” Pascal Cherki, de pé, durante uma sessão no Parlamento

JACQUES DEMARTHON/GETTY

Portanto, agrada-lhe mais a linha de Costa do que a de Hollande e este deve apoiá-lo.
Claro, é preciso apoiar António Costa. E mais: penso que, nas condições objetivas em que se encontra Portugal, Costa fez as boas escolhas para o seu povo.

MAIS UMA Manifestação em Paris contra a proposta de reforma da lei laboral, no passado dia 19

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Em França, neste momento, há fortes tensões políticas e sociais, há bloqueios de refinarias, greves, manifestações e incidentes constantes, o movimento “noite de pé”… Tudo isto contra a nova lei do trabalho. Também é contra esta lei do Governo do seu partido. Quais são os principais pontos que os “frondeurs” contestam?
Fui desde o início contra o método que foi escolhido para aprovar esta lei, designadamente o método da negociação com as organizações sindicais, que foi catastrófico…

… e que vai ser aprovada por decreto por falta de maioria na Assembleia, porque os “frondeurs” recusaram votar a favor.
Sim. Quanto aos pontos principais que contestamos, um deles, o principal, é o da inversão da hierarquia das normas. Quer dizer o quê? Que a lei vai permitir que, em muitos aspetos, os acordos feitos ao nível das empresas se sobreponham aos feitos por ramo de atividade ou mesmo aos princípios que a lei define. Estamos completamente contra este ponto, porque ele vai permitir a organização da concorrência ao nível dos ramos de atividade, quer dizer vai favorecer o ‘dumping’. Não podemos criticar o ‘dumping’ social no interior da Europa e no Mundo e, ao mesmo tempo, nós próprios, favorecê-lo no nosso país. Neste aspeto nem são apenas os sindicatos que estão contra, mas também muitos pequenos patrões. É um ponto que favorece as grandes empresas por exemplo sobre os preços, os horários de trabalho ou o custo das horas extraordinárias. O que nós queremos é que continue a haver a chamada hierarquia das normas. Além deste ponto, fazemos críticas fortes sobre o alargamento das condições para os despedimentos económicos – é um ponto onde o Governo já começou a ceder. Há também a noção do “acordo ofensivo” – em grosso, até agora podia-se contornar o contrato de trabalho para preservar a empresa e a produção, mas agora quer permitir-se que se peçam esforços aos assalariados quando a empresa vai mal mas, quando ela vai melhor, não os recompensar pelos esforços feitos.

Alguns dos principais sindicatos pedem a retirada pura e simples da lei. Os “frondeurs” pedem o quê?
No princípio também defendi a retirada da lei, porque considerava que ela tinha sido mal escrita e mal negociada. O Governo não o fez - e perdeu a batalha da opinião. Agora tem estado a ceder, sob pressão. Defendo a evolução, através da negociação, é o meu lado social-democrata. Mesmo a central sindical CGT está a negociar, por exemplo no ramo dos transportes, sobre as horas extraordinárias. Vamos propor emendas porque o texto vai continuar em debate no Senado e na Assembleia

E MAIS OUTRA Na contestação à lei do trabalho nem um carro da polícia escapou à ira dos manifestantes

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O Governo já não tem maioria na Assembleia. A um ano das presidenciais e das legislativas, os socialistas já perderam?
Existe um paradoxo. O Governo tem uma maioria absoluta de esquerda na Assembleia.

Não no caso desta lei.
Pois, mas foi o Governo que escolheu não ter maioria, porque a política que leva a cabo não corresponde à vontade da maior parte dos deputados que compõem essa maioria. O problema não é apenas com os “frondeurs” – na questão da lei do trabalho, 85 deputados de esquerda disseram que não votariam favoravelmente. Portanto, o mal é profundo.

O PS já perdeu as presidenciais e as legislativas?
Segundo as sondagens, perdemos – e pesadamente. Primeiro devido à política do Governo e também devido à divisão da esquerda. Acho que a derrota não é irremediável mas concordo: se as coisas continuarem assim, com esta mesma política e esta crispação…

Portanto, o Governo, na sua opinião, deve mudar de linha política?
Não lhe podemos pedir para fazer num ano uma viragem a 180 graus. Mas terá de fazer algumas inflexões fortes…

Mas acredita numa reviravolta com Hollande, Manuel Valls e Emmanuel Macron (respetivamente PM e ministro da Economia) a imporem uma linha social-democrata, e mesmo liberal?
Por agora não. É uma linha que se define como social-democrata mas que eu considero “social-liberal”. Uma linha que falhou na Europa, vejam-se os resultados dos socialistas na Áustria e as tendências na Alemanha.

As perspetivas não são nada boas para o PS, em França.
Se não se reunir a esquerda, sim. Um dos grandes pontos a definir é a política europeia.

Não é esse um dos grandes problemas de Hollande? Prometeu muito sobre a Europa e depois de chegar ao Eliseu fez o contrário do que prometeu.
A maior falta cometida por Hollande foi não ter-se servido da legitimidade da sua eleição nas presidenciais para lançar o debate sobre a austeridade na UE. Na altura, se tivesse lutado por um compromisso teria tido apoio, até da parte da direita e mesmo o Governo português da época o teria apoiado.

François Hollande está no fundo das sondagens. Acha que ele pode ainda ser o candidato da esquerda às presidenciais?
Só o poderá ser se for designado por primárias.

Mas Valls e ele próprio são contra as primárias. Mesmo assim, sem primárias, se ele for candidato, os “frondeurs” estarão ao lado dele?
Continuamos a lutar por primárias de toda a esquerda e apoiaremos o que as ganhar. Sem primárias, a esquerda perderá tudo e duramente.

É francês, do PSF e está inscrito na secção de Paris do PS português, é sócio do Benfica e acho que gosta muito de Portugal, onde vai frequentemente. Qual é a razão?
Descobri Lisboa por acaso há dez anos. Foi amor à primeira vista. Depois o meu amigo Hermano Sanches Ruivo, eleito na Câmara de Paris, mostrou-me Portugal como só os portugueses conhecem. Foi um amor que progrediu. Adoro e, depois, também como vice-presidente do grupo de amizade parlamentar França-Portugal, aprofundei as minhas ligações ao país, li Eduardo Lourenço e acho que, como ele diz, os portugueses são abertos para o mundo, tal como os franceses, aliás. Os portugueses e os franceses são, entre os povos europeus, os mais abertos para o universal.

É sócio do Benfica e gosta do Paris SG. Em caso de jogo Benfica-PSG na liga dos campeões é por quem?
Que o melhor ganhe. Gostaria que ganhasse o PSG apenas porque o Benfica já foi campeão europeu e o PSG nunca.

Voltando à política: Hollande, Valls, Macron… Eles ainda são socialistas?
Deve fazer-lhes essa pergunta a eles.

Hollande e Valls dizem ser sociais-democratas, Macron lançou um movimento, segundo ele, ‘nem de esquerda, nem de direita’.
Os dois primeiros são sociais-democratas e encarnam o que é a social-democracia, hoje, na Europa. A social-democracia está em crise na Europa porque não compreendeu que o paradigma mudou e não compreendeu a mudança. Eu digo muitas vezes que os dirigentes sociais-democratas estão hoje mais à direita do que o Papa. Hoje em França ainda estamos no passado da social-democracia arcaica do tempo de Blair e de Schroeder. É por isso que isto tudo vai acabar na abertura de uma ampla estrada para a extrema-direita.

A extrema-direita, Marine le Pen, pode ganhar em França já em 2017?
Pode não ser já, mas é uma questão de poucos anos.