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“Sem um Plano Marshall para a Síria, daqui a uns anos teremos uma nova versão do Daesh”

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PREMIADO. Mazen Darwish discursando, depois de receber o Prémio Roosevelt Liberdade de Expressão, a 21 de abril de 2016

MICHEL PORRO / GETTY IMAGES

Mazen Darwish não é um homem comum. Isso mesmo diz a sua mulher, Yara Bader, também ela uma jornalista síria. “Até no dia do nosso casamento ele chegou atrasado porque se envolveu num protesto num dos subúrbios de Damasco”, contou a mulher do jornalista e ativista sírio num artigo que escreveu em 2015. Mazen Darwish, fundador do “Centro pelos Media e Liberdade de Expressão” em Damasco, foi detido em 2012 pelo regime sírio e esteve preso durante mais de três anos - tendo sido alvo de torturas. Falou com o Expresso

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Darwish não teve pelo menos uma vida comum para um jornalista. Nos últimos três anos, foi torturado repetidamente e poderia ter sido condenado à morte por um tribunal militar, não fosse a pressão internacional que surgiu com os prémios que recebeu − uma distinção dos Repórteres Sem Fronteiras em 2013, o prémio Escritor Internacional de Coragem do PEN Pinter em 2014 e o prémio Liberdade de Expressão da UNESCO em 2015 − que ajudaram à sua libertação no ano passado.

O seu crime? “Publicitar atos terroristas” através dos artigos jornalísticos que publicava, dando conta dos que eram detidos ou mortos pelo regime de Bashar Al-Assad. Hoje em dia, Mazen e Yara vivem em Berlim como dois dos milhares de refugiados sírios aceites na Alemanha, enquanto veem a guerra no seu país pela televisão. O Expresso teve oportunidade de conversar com Mazen Darwish em Helsínquia, durante as celebrações da UNESCO a propósito do dia mundial da liberdade de expressão.

Ainda antes da sua prisão em 2012, esteve detido durante dois dias em 2008. Diria que a perseguição aos jornalistas e ativistas na Síria já vem de trás?
Sim, claro. Desde 1963 que na Síria temos uma lei para o estado de emergência e sempre foi muito banal mandar prender um jornalista, ou alguém da sociedade civil ou um político da oposição. Faz parte da nossa História.

GUERRA O conflito sírio dura há mais de cinco anos e já levou à morte de mais de 400 mil pessoas. Estima-se que quase um quarto desse valor corresponda a mortes de civis

GUERRA O conflito sírio dura há mais de cinco anos e já levou à morte de mais de 400 mil pessoas. Estima-se que quase um quarto desse valor corresponda a mortes de civis

KHALIL ASHAWI / REUTERS

Esteve preso durante três anos, enfrentou um tribunal militar… O que lhe disseram durante todo esse tempo como justificação para a sua prisão?
Há uma espécie de entendimento para atacar os jornalistas ou qualquer pessoa que revele a verdade sobre o que se passa em qualquer área da Síria. Estão preocupados com a hipótese de haver provas ou documentação [das suas ações] por causa do Tribunal Penal Internacional. Aquilo que me disseram é que eu tinha levado as pessoas a tomar ações [violentas]. Em suma, acho que há três razões para isto: não querem que ninguém conte a verdade; não querem que haja provas do que se passa na Síria; e também querem livrar-se de todas as pessoas respeitadas pelo público na Síria. Na mesma altura em que me prenderam, libertaram centenas de membros da Al-Qaeda! O regime queria prender os moderados e libertar aqueles que levam as pessoas à violência, queria empurrar as pessoas para os extremos. Não queria ver nas ruas aqueles que conseguiam reduzir a violência ou manter a revolução pacífica.

Foi uma estratégia para Assad poder parecer o mal menor?
Sim, foi o uma estratégia desde o início. Eles querem dizer que há apenas duas escolhas: o regime de Assad ou o extremismo. Por isso, particularmente durante o primeiro ano [da guerra], não atacaram os que estavam armados ou os extremistas que andavam completamente à solta dentro da Síria. Mas o mesmo não se passava com o movimento civil: éramos perseguidos, atacados, detidos. Há algo de sistemático na Síria, não chegámos a este nível de repente. Foi um plano estratégico para atingir este momento em que a comunidade internacional e a Síria estão divididas entre duas escolhas: Assad ou Daesh.

Disse não ter dúvidas de que o Daesh será derrotado, mas que receia que a “solução militar seja a única que está a ser tida em conta” e que este é “o mesmo erro que foi cometido com a Al-Qaeda”. O que pensa que devia ser feito para lá da estratégia militar?
Acho que desde o Afeganistão e do Iraque temo-nos focado apenas no resultado. A solução militar é necessária, sem dúvida, mas se não estiver incluída numa espécie de Plano Marshall para a Síria − um plano político e económico −, daqui a uns anos teremos uma nova versão do Daesh. Tal como em 2006, quando atacámos a Al-Qaeda e matámos os líderes como [Abu Musab Al-] Zarqawi, não houve nenhuma solução para as razões que levaram as pessoas aos extremos.

E que razões são essas?
Algumas estão relacionadas com direitos humanos e liberdade de expressão. Outras com a situação económica, algumas também com a religião e com a mentalidade da sociedade. Todos estes campos precisam de ser trabalhados. A solução militar talvez nos dê uma vitória a curto prazo, mas não resolverá os problemas. Para isso precisamos de um investimento nas pessoas que partilham os mesmos valores de direitos humanos das sociedades democráticas. E essas pessoas atualmente estão muito fracas no Médio Oriente − as ditaduras e os movimentos extremistas islâmicos têm o dinheiro, as ferramentas, os governos −, mas penso que são a maioria dos sírios. Precisamos de ter algum tipo de investimento político nessas pessoas.

SÍRIA Darwish foi detido a 16 de fevereiro de 2012, juntamente com dois colegas, Hani Zaitani e Hussein Ghreir. Segundo dados do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, cerca de 200 mil pessoas estão atualmente detidas em instalações do Governo de Assad

SÍRIA Darwish foi detido a 16 de fevereiro de 2012, juntamente com dois colegas, Hani Zaitani e Hussein Ghreir. Segundo dados do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, cerca de 200 mil pessoas estão atualmente detidas em instalações do Governo de Assad

KHALIL ASHAWI / REUTERS

No seu discurso a propósito do prémio PEN Pinter, escreveu que o mundo islâmico não condenou suficientemente a fatwa contra Salman Rushdie [que recebeu o prémio PEN na vertente literária desse ano]. Pensa que isso teve impacto no que se passa hoje em dia?
No Médio Oriente, e no mundo islâmico em geral, não temos este tipo de cultura de respeitar a diferença de opiniões. Penso que todos nós cometemos este erro de não lutar o suficiente contra este tipo de pensamentos. Pensamos que é uma moda, que irá passar…

Que é uma coisa à qual não vale a pena dar importância?
Sim. Mas ao mesmo tempo, devido às circunstâncias, este tipo de mentalidade está a crescer. E é muito perigosa. Isto é uma luta a longo prazo, não serve de nada apenas bombardear algumas pessoas e matar alguns líderes. E não podemos dizer “a Síria está longe e não nos afeta”, porque a Síria e o Médio Oriente estão atualmente no cerne dos problemas do mundo. Ninguém estará a salvo deste conflito se não se encontrar a paz e se não se conseguir construir aquela sociedade de forma diferente.

Parece que a Europa só se apercebeu dessa dimensão global quando a crise dos refugiados chegou ao continente. E, no entanto, o recente acordo com a Turquia serviu para enviar refugiados de volta. O que pensa disto?
Este é um bom exemplo de uma situação em que se tenta atingir resultados sem perceber as motivações. Talvez a Turquia consiga diminuir o fluxo de refugiados, mas não resolverá o problema. O mais importante é perceber porque é que as pessoas deixam as suas vidas para trás, o seu país, as suas casas, para atravessar o mar. Estão à procura de segurança, de dignidade e de um futuro bom para os seus filhos, como qualquer outro ser humano. Precisamos de ajudá-las. Em 2009 fiz um discurso no Parlamento Europeu em que disse “há um grande conflito na Síria, mesmo que isso não seja muito claro agora. Se não resolvermos isto, daqui a alguns anos talvez centenas de refugiados cheguem à Europa”. E eles riram-se. Mas nós, sírios, que trabalhávamos e vivíamos dentro da Síria, víamos que o regime estava a levar o país a isto.

Enquanto falamos, Alepo está a ser bombardeada. Vê como possível algum tipo de acordo diplomático neste momento?
Até agora, infelizmente não. Nós não temos negociações de facto. Há algumas conversações, algum brainstorming sobre o futuro, enquanto é dado tempo à guerra para definir quem serão os vencedores e os derrotados. Mais uma vez digo, isto não é solução. A Rússia, em particular, bem como o Irão e os EUA, deviam trabalhar mais nisto. Deviam garantir que todas as partes se sentam à mesa e que há soluções reais, e não apenas conversas para passar o tempo. Infelizmente, a Síria já não é só um problema sírio, é uma guerra internacional que tem muitos intervenientes: a Arábia Saudita, o Irão, a Turquia, todas essas potências regionais.

Estão a fazer uma guerra por procuração?
Estão. E por isso é que a solução não é fácil e é necessária muita pressão sobre estes intervenientes. Infelizmente, os russos acham que a guerra é a solução e por isso apoiam Al-Assad na sua carnificina, enquanto os americanos e os europeus só querem resolver a crise dos refugiados e o Daesh. Como lhe disse, isto não trará uma solução a longo-prazo.

NEGOCIAÇÕES O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu este sábado um maior envolvimento dos países do Médio Oriente no processo de paz sírio. As negociações decorrem há meses, mas ainda não foi sequer possível acordar um cessar-fogo estável

NEGOCIAÇÕES O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu este sábado um maior envolvimento dos países do Médio Oriente no processo de paz sírio. As negociações decorrem há meses, mas ainda não foi sequer possível acordar um cessar-fogo estável

KHALIL ASHAWI / REUTERS

Acha que alguma vez vai regressar à Síria?
[Suspira] Espero que sim… Eu preciso de regressar. Espero que este processo político permita que as pessoas como eu possam regressar e trabalhar dentro da Síria. Mas para ser sincero consigo, começo a achar que isto não vai acontecer em breve. Como lhe disse, estes procedimentos políticos parecem não trazer a paz - precisamos de aplicar mais pressão sobre os russos e os americanos.

Os sírios mereciam mais esforços?
Sim. Os sírios ou quaisquer outros seres humanos, em qualquer parte do mundo. A morte e a tortura não são formas de vida para ninguém. As pessoas merecem paz, desenvolvimento e segurança. Não apenas por causa dos sírios, mas porque o mundo inteiro não estará seguro enquanto não encontrarmos uma solução para o que se passa dentro da Síria.

  • Leia este texto, por favor

    A guerra matou 470 mil pessoas neste país nos últimos cinco anos. Repetimos: 470 mil pessoas. Insistimos: 470 mil pessoas. Persistimos: 470 mil pessoas. Há países com menos população que 470 mil. Leia este texto, por favor. É sobre a Síria (e sim, temos medo que passe à página seguinte porque isto é sobre a Síria e a Síria está lá longe, mas pessoas são pessoas, lá longe ou cá perto)

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