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O homem que teve uma quase-vitória que não deve ser esquecida nem minimizada

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ELEIÇÕES. Norbert Hofer, de 45 anos, foge à figura-tipo dos demagogos nacionalistas que pululam na Europa: escreveu-se que tem um “olhar doce e discurso suave”, ele que diz que anda armado por causa dos imigrantes

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O candidato de extrema-direita às presidenciais da Áustria quase venceu a segunda e última volta das eleições - só esta segunda-feira é que se soube que perdeu. Durante o fim de semana, multiplicaram-se os escritos e as afirmações de preocupação com a possibilidade de um Estado-membro da UE ser liderado por um nacionalista extremista. Quem é Norbert Hofer, o político que disse que andar armado com uma Glock é uma “consequência natural” da imigração e de quem se diz que teve uma quase-vitória que não deve ser esquecida nem minimizada?

Quando Marine Le Pen decidiu afastar o seu pai da Frente Nacional (FN), a grande intenção da líder da extrema-direita francesa era atenuar a imagem dura do partido e atrair mais eleitores à causa nacionalista e anti-imigração, fugindo a retóricas antissemitas e racistas como a de Jean-Marie Le Pen. Um ano depois, os frutos da estratégia têm-se revelado parcos: em dezembro, a FN não alcançou uma única vitória na segunda volta das eleições regionais, tidas como termómetro das presidenciais de 2017 — e apesar de algumas sondagens continuarem a antecipar que Marine vai ficar bem colocada na primeira volta, podendo vir a disputar o segundo e último turno do plebiscito, as perspetivas não são ideais.

Ou não eram até esta semana, quando se elevou a real possibilidade de a Áustria se tornar no primeiro Estado-membro da União Europeia a eleger um presidente de extrema-direita.

Norbert Hofer, de 45 anos, foge à figura-tipo dos demagogos nacionalistas que pululam na Europa. Há um mês, em vésperas de o líder do Partido da Liberdade (FPÖ) sair vencedor da primeira volta das presidenciais austríacas, um jornal alemão descreveu-o como um homem “de olhar doce e discurso suave”. A bengala que é sua companheira desde um acidente a praticar asa-delta em 2003 reforça a imagem de galã confiável, atenuando o facto de transportar sempre consigo uma Glock de 9mm.

Comparado com Jörg Haider, o anterior líder do FPÖ, de semblante duro, famoso pela retórica xenófoba, que não tinha pudores em assumir simpatias com movimentos neonazis e que morreu num acidente de carro em 2008, Hofer é um cordeiro. No jogo das analogias, será mais um lobo com peles de cordeiro, mas isso pouco importa para cerca de metade dos austríacos, o correspondente aos quase 50% de votos que alcançou na segunda e última volta, alimentados pelo crescente descontentamento com o fraco desempenho económico, problemas de segurança e a chegada de mais de 90 mil refugiados ao país em 2015, o correspondente a 1% da população do país. Falando em peles, foi ele o responsável por fazer uma mudança de visual ao FPÖ, aprovando um novo manifesto do partido que o afastou da xenofobia assumida e o levou de volta às suas raízes “identitárias”.

BENGALA. Uma das imagens de marca de Norbert Hofer

BENGALA. Uma das imagens de marca de Norbert Hofer

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Hofer pode ser muita coisa mas não é um Le Pen nem um Donald Trump. E foi graças a ele — e ao facto de se apresentar como “centrista” e de se refugiar em declarações como a Áustria ser “abençoada” por não ter um Aurora Dourada como a Grécia — que o FPÖ tem hoje o mais alto nível de popularidade desde a sua fundação em 1956. Depois de o candidato ter ficado empatado com Alexander Van der Bellen, o candidato apoiado pel’Os Verdes, na segunda volta das presidenciais no domingo, o resultado final dependia dos 750 mil votos por correspondência que foram contabilizados esta segunda-feira. Muitos acreditavam que Hofer ia sair vencedor. Pelas 16h em Lisboa, soube-se que Van der Bellen é o próximo presidente da Áustria.

Confrontados com a possibilidade do cenário oposto, vários jornais europeus tinham lançado a pergunta: até que ponto devemos estar preocupados com um Hofer presidente? Para os líderes da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu, como para metade dos austríacos, muito. Mas como com qualquer lobo com peles de cordeiro, é difícil apurar se a população do país, e por conseguinte toda a UE, estão a lidar com um fascista potencialmente violento ou com um populista pouco ameaçador.

Veja-se o facto de andar armado: publicamente, diz que transportar uma Glock é uma “consequência natural” da imigração, defendendo que esta gera um tal nível de “incerteza” que “não é de estranhar” que a posse de armas esteja em crescendo no país. Para imprimir suavidade (até) nisto, publica recorrentemente nas redes sociais fotografias com a mulher e os quatro filhos, com entre 24 e 13 anos, a praticarem em carreiras de tiro.

ELEIÇÕES À esquerda o vencedor, à direita o vencido: Alexander Van der Hoffen bateu por margem estreita Norbert Hofer, de 45 ano

ELEIÇÕES À esquerda o vencedor, à direita o vencido: Alexander Van der Hoffen bateu por margem estreita Norbert Hofer, de 45 ano

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Não sendo abertamente xenófobo, há quem já o tenha avistado a usar uma flor azul na lapela, a mesma que foi símbolo clandestino dos nazis na era pan-germânica, representando a ideia de uma “Grande Alemanha” que ganhou força no século XIX e que, em última instância, inspirou a estratégia de invasões e anexações levada a cabo por Adolf Hitler.

Tal como em Portugal, o papel de presidente na Áustria é em larga medida simbólico, mas ao longo da campanha Hofer foi deixando claro que, se fosse eleito, iria fazer uso dos seus limitados poderes ao máximo. Poderes não tão limitados quando se considera que, como em Portugal, o presidente austríaco pode dissolver o parlamento e o Governo e convocar novas eleições.

Quando venceu a primeira volta das eleições há um mês, os seus apoiantes na Europa, incluindo Marine Le Pen, defenderam que é um mero “patritota” que reconhece as preocupações dos cidadãos comuns ignorados pelas elites políticas na UE. E é por isso que a sua quase-vitória não deve ser esquecida nem minimizada. Se tivesse sido eleito, o “aluno-modelo” das extremas-direitas europeias poderia ter galvanizado os movimentos nacionalistas e anti-sistema que estão a capitalizar o descontentamento generalizado. Mas mesmo tendo perdido por pouco, os movimentos de extrema-direita europeus continuam a ambicionar vitórias: Le Pen pode chegar onde quer em abril de 2017, Geert Wilders e o seu Partido da Liberdade tentam reforçar a atual liderança nas sondagens para as legislativas de março na Holanda e a Alternativa para a Alemanha (AfD) procura roubar ainda mais espaço a Angela Merkel e a outros políticos e partidos moderados. A Europa teve razões para estar preocupada com um Hofer presidente da Áustria? A resposta estava à vista de todos. Mesmo com a sua derrota, ela está aí — é sintoma de uma doença maior a que devemos dar toda a atenção.