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Estudantes muçulmanos têm mesmo de apertar a mão às professoras, decide a Suíça

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Uma resolução em sentido contrário, tomada o mês passado pela direção de uma escola, tinha gerado indignação

Luís M. Faria

Jornalista

Um aperto de mão é só um aperto de mão - às vezes. Quando em abril foi noticiado que o liceu na pequena localidade suíça de Therwil, próximo de Basileia, aceitara isentar dois estudantes muçulmanos de dar o tradicional aperto de mão às professoras no fim das aulas, estoirou uma polémica que ultrapassou as fronteiras do país. Liberdade religiosa, ou mais uma cedência injustificada aos radicais?

Surpreendida pelas reações, a direção da escola resolveu pedir orientação às autoridades regionais. As quais decidiram agora revogar a decisão contestada. Segundo explicaram, "o interesse público no que respeita à igualdade entre homens e mulheres e à integração de estrangeiros sobrepõe-se significativamente à liberdade de consciência dos estudantes. O gesto social do aperto de mão é importante para a empregabilidade dos estudantes nas suas posteriores vidas profissionais".

Os estudantes, com 14 e 15 anos, têm origem síria e são filhos de um imã. A família encontra-se na Suíça desde 2001 e pediu a nacionalidade, um processo que foi suspenso quando começou a polémica. A recusa dos jovens tem a ver com uma regra islâmica que proibe o contacto físico com qualquer mulher que não seja uma familiar próxima. Nem todos os muçulmanos perfilham essa regra, que aliás parece não constar especificamente no Corão. Mas os jovens entenderam cumpri-la, e quando puseram a questão à escola esta adoptou uma solução que pretendia ser um compromisso: os jovens passavam a estar isentos de apertar a mão a todos os professores, fossem mulheres ou homens.

"Teologicamente permitido", ou não?

Os muçulmanos do país - há cerca de 350 mil, uns cinco por cento da população total - bem como as associações que os representam, dividiram-se na discussão. Será mais importante recusar apertar a mão do que o mandamento muçulmano do respeito mútuo?, perguntava a Federação das Organizações Islâmicas na Suíça (FOIS), de tendência moderada. A FOIS considerou "teologicamente permitido" o aperto de mão em causa. Mas o Conselho Central Islâmico da Suíça (CCIS), outra organização, disse que "jurisprudência islâmica clássica e a vasta maioria dos juristas contemporâneos (...) assumem uma clara proibição desta forma de contacto entre os sexos".

Com a polémica ao rubro, a ministra a Justiça do país teve uma atitude clara: "O aperto de mão é parte da nossa cultura. Não podemos aceitar isto em nome da liberdade religiosa". A mesma posição que o presidente da câmara de Therwill agora reiterou, acrescentando que o aperto de mão é uma questão de respeito e os pais devem incutir isso aos filhos em casa.

Ninguém os pode obrigar

Na resolução que acaba de ser anunciada, a autoridade regional esclarece que os professores têm o "direito" de exigir aos estudantes o aperto de mão. A multa por não cumprimento são cinco mil francos suíços (4514 euros). A FOIS lamenta que a escola, em vez de aceitar os seus serviços de mediação, tenha preferido levar a questão a um nível hierárquico superior, político. E o CCIS nota que o caso não tem a ver com nenhuma ameaça aos valores fundamentais da Suíça, mas apenas com "dois estudantes de liceu que disseram o desejo de cumprimentar o seu professores de uma maneira diferente de um aperto de mão".

Pela sua parte, os dois irmãos consideram a "absurda" a regra ora confirmada e dizem que "ninguém os pode obrigar" a apertar a mão às professoras. Numa entrevista ao jornal Sonntagszeitung, garantem que também ninguém em casa os obrigou a tomar a decisão que tomaram. E quando um deles é inquirido sobre o facto de em 2014 ter partilhado vídeos do Estado Islâmico na internet, responde que na altura tinha doze anos e não conhecia o grupo ("Teve a ver com a música. Gostei dela"). O seu irmão reforça: "Somos claramente contra o EI. O Islão proíbe matar civis".