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A maior biblioteca digital da língua portuguesa perdeu o ‘pai’

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Doutor em Filosofia Política e cientista social, Renato Lessa lança um alerta antes de deixar a presidência da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil a 31 de maio: “Só 28% a 30% dos brasileiros são dotados de alfabetização plena”, ou seja capazes de escrever o que pensam

Tiago Miranda

A cantora Daniela Mercury, a atriz Bruna Lombardi e a apresentadora Marília Gabriela já disseram que não querem ser ministras da Cultura do Governo de Michel Temer. Para a confusão na área cultural ser ainda maior, Renato Lessa, presidente da Biblioteca Nacional, bate com a porta em público no Facebook e abandona a instituição depois de ter apresentado a gigantesca Biblioteca Digital Luso-Brasileira: “Não quero ficar e eles não querem que eu fique”

Se quisermos encontrar um intelectual brasileiro que goste de vinhos portugueses, pastéis de bacalhau, futebol, livros... e de discutir filosofia política, esse homem tem grande probabilidade de ser Renato Lessa, o ‘pai’ da Biblioteca Digital Luso-Brasileira, um gigantesco acervo com mais de dois milhões de documentos de várias épocas, que foi apresentado no Rio de Janeiro no passado dia 10 de maio, sem a presença da ‘mãe’ do projeto, Maria Inês Cordeiro, diretora da Biblioteca Nacional de Portugal.

Portugal fez-se representar pelo cônsul-geral de Portugal no Rio, Nuno Bello. Maria Inês Cordeiro não esteve presente porque a crise política brasileira acabou por acelerar a apresentação da biblioteca digital sem que nenhuma das partes o assuma. Treze dias mais tarde, Lessa anuncia a rotura total com o governo de Temer na sua página do Facebook: “Depois de pouco mais de três anos, deixo a Biblioteca Nacional. Já havia decidido fazê-lo e dado ciência a minha equipe. O governo interino já anunciou minha sucessora. Ao menos nisso nos entendemos: não quero ficar e eles não querem que eu fique. Melhor assim, um pouco de nitidez não fará falta ao país. Fico com o saudoso João Saldanha: “vida que segue”.

Igual a si próprio, Renato Lessa, cientista social e Doutor em Filosofia Política, cita o título de um livro que imortalizou João Saldanha, um dos mais famosos cronistas desportivos do Brasil nos Mundiais de 1966 e 1970, a época de ouro do futebol do seu país.

Interlúdio desportivo à parte, regressamos aos livros, à cultura, à crise política no Brasil e ao conflito latente do governo de Michel Temer com grande parte do sector intelectual do país: “Com o golpe político que afastou a Presidente Dilma Rousseff, toda a estrutura de seu governo foi substituída. O Presidente interino nomeou novo ministério e, em um primeiro momento extinguiu o Ministério da Cultura, sob o qual se abriga a Biblioteca Nacional. Depois de intensa pressão pública, o Ministério [da Cultura] foi recriado, o que não deixa de ser uma boa notícia. Mas, independentemente do facto da recriação, não mais permanecerei à frente da BN brasileira”, diz Renato Lessa em entrevista por escrito ao Expresso, para explicar o seu post no Facebook.

Reforça a sua tomada de posição, dizendo que ele o governo Temer estão de acordo num ponto: “Não quero ficar e eles não querem que eu permaneça. O governo interino possui insanável défice de legitimidade e conta como operadores estratégicos alguns dos piores tipos da política brasileira”.

Brasil em “recessão cultural”

Os eventuais cortes na área da Cultura que o Governo de Michel Temer possa vir a fazer são motivo de grande preocupação para muitos académicos e agentes culturais do país. “O Brasil tem uma situação de recessão cultural grave, em que só 28 a 30%” dos cerca de 200 milhões de brasileiros são “dotados de alfabetização plena”, sendo capazes de ler e de escrever um texto que traduza tudo o que pensam e querem transmitir. “É urgente continuar a avançar na política de leitura, e o esforço da Biblioteca foi utilizar os acervos digitais”, diz Renato Lessa ao Expresso, falando sobre a instituição que dirige desde abril de 2013 e que abandona no dia 31 de maio.

A Biblioteca Digital Luso-Brasileira (BDLB) não se limita a reunir os acervos digitais das duas casas-mãe, o que já seria relevante. “O objetivo é alargar” a nova plataforma “a mais espaços que falem português”, disse ao Expresso Maria Inês Cordeiro, que não assistiu ao nascimento desta gigantesca biblioteca digital apesar de ser a sua ‘mãe’.

Portugal colaborou no projeto em termos técnicos, “mas sem investimentos que significassem dinheiro”, disse Maria Inês Cordeiro, lamentando a anunciada mudança na presidência da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil.

A biblioteca digital começou a ser pensada em finais de 2013, quando Portugal ainda estava a viver as restrições orçamentais decorrentes do programa de ajustamento: “O Brasil colocou [para já] 10 milhões de páginas e nós 2,5 milhões”, diz a diretora da BNP, Maria Inês Cordeiro: “Não vamos repetir as digitalizações do património impresso que já foram feitas” pela instituição congénere brasileira, assim “como eles não irão repetir as nossas”. O projeto é integrado para melhorar a gestão de custos e recursos humanos, estando já disponíveis “mais de 60 mil títulos, que correspondem a cerca de 13 milhões de imagens de materiais bibliográficos em domínio público, de todas as épocas e géneros”, como se lê no site.

O legado digital

“O acervo da Biblioteca Luso-Brasileira conta também com obras de 30 instituições de Portugal e mais 20 do Brasil, incluindo o Real Gabinete de Leitura, fundado por imigrantes portugueses no Rio, em 1837”, escreve a agência Brasil: “Esta é a primeira vez que bibliotecas de países de língua portuguesa se juntam para disponibilizar seus acervos conjuntamente”.

A partir de agora, qualquer leitor, estudante ou investigador brasileiro poderá conhecer o acervo da Biblioteca Nacional de Portugal, incluindo originais da Torre do Tombo, “que guarda arquivos históricos das navegações e da chegada dos portugueses ao Brasil, sem precisar cruzar o Oceano Atlântico”, refere a agência Brasil. O recíproco também é verdadeiro, podendo os portugueses consultar boa parte do património impresso do Brasil, incluindo jornais e revistas.

De acordo com a coordenadora do projeto, Angela Bettencourt, a “expectativa é atrair cerca de 100 mil acessos por mês; é a primeira iniciativa a reunir coleções de língua portuguesa, preservando o material – porque, no momento que se digitaliza, evita-se o manuseio do original”, o que contribui para a sua conservação. Mais importante ainda, “democratiza-se o acesso” aos livros e material impresso.

A 1 de junho, Renato Lessa regressará à aulas na Universidade Federal Fluminense, à investigação no centro de pesquisa francês com que colabora, e continuará a cooperar com o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, ao qual está ligado há quase duas décadas.

Deixa a Fundação Bilbioteca Nacional com a satisfação de ter assistido ao parto da Biblioteca Digital Luso-Brasileira, um projeto importante para a cultura do mundo lusófono: “Comuniquei ao novo ministro da Cultura que deixarei o cargo no próximo dia 31 de maio. Não há mandatos fixos. O cargo de Presidente da BN é de nomeação por parte da Presidência da República, sendo demissível ad nutum”.

Por ironia da História foi Marta Suplicy — quando era ministra da Cultura de Dilma — quem convidou Renato Lessa para dirigir a Biblioteca Nacional do Brasil em 2013. Três anos depois, com a abertura do processo de destituição da Presidente, é a hoje senadora do PMDB Marta Suplicy que contactou algumas das mulheres que recusaram ser ministras da Cultura de Michel Temer, de acordo com o jornal “Folha de São Paulo” . É assim a dança de cadeiras no Brasil quando muda o Presidente.