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Trump e a Máfia: uma ligação antiga

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Spencer Platt / Getty Images

Na construção da famosa Trump Tower, a matéria-prima for fornecida por uma empresa propriedade de mafiosos, a preços inflacionados. O que estava Donald Trump realmente a comprar?

Luís M. Faria

Jornalista

Donald J. Trump tem sido criticado por muitas coisas, e agora que se tornou o candidato republicano às presidenciais dis Estados Unidos – portanto, alguém com boas possibilidades de se tornar o próximo chefe de Estado dos norte-americano – histórias antigas estão a ressurgir.

Uma das mais inquietantes diz respeito aos seus laços com a Máfia, em Nova Iorque. Filho de um construtor de Queens, Trump optou desde o início por virar costas a essa zona desprezada pelas elites e estabelecer-se do outro lado do rio, em Manhattan. Rapidamente fez amizade com o advogado Roy Cohn, uma figura controversa da América moderna. Cohn ganhara fama como assistente do senador Joe McCarthy durante a famosa ‘caça às bruxas’ nos anos 50. Passando a seguir para o sector privado, tornou-se um dos principais ‘facilitadores’ de negócios em Nova Iorque. Foi nessa qualidade que Trump o conheceu.

A história foi agora repescada no site “Politico” por David Cay Johnston, um jornalista que investiga o bilionário há quase três décadas. Johnston nota que não foi ele o único a escrever sobre o assunto. O lendário Wayne Barrett, por exemplo, também o fez no semanário “Village Voice” e num livro. “Nenhum outro candidato à Casa Branca este ano tem algo que se pareça com o cadastro de ligações sociais e de negócios a gangsters, autores de fraudes e outros vigaristas”, diz Johnston. Citando um historiador presidencial, refere o “Teapot Dome”, um gigantesco escândalo de corrupção dos anos 20 do século passado levou um ministro do Interior à cadeia. “Mas mesmo aí há uma diferença chave”, explica o jornalista. “Os associados de Harding [o Presidente da altura] eram homens de negócios corruptos mas no resto legítimos, não gangsters e traficantes de droga”.

Johnston conta que Cohn tinha ligações às duas principais famílias de Nova Iorque, os Genovese e os Gambino. Um chefe da primeira, Anthony Salerno, que viria a morrer na cadeia, ter-se-á encontrado com Trump na residência de Cohn, segundo o testemunho de outra pessoa presente.

Com ou sem encontro (a posição de Trump nesses assuntos é geralmente dizer que foi há muito tempo e não se lembra), o facto é que o agora candidato presidencial utilizava os serviços de uma companhia que pertencia aos Genovese e aos Gambino em dois grandes projetos: os apartamentos Plaza e a famosa Trump Tower, na 5ª Avenida. Essa companhia, a S & A Concrete, fornecia cimento a preços superiores aos do mercado, o que leva a uma conclusão inevitável: Trump não estava a pagar apenas o cimento, mas determinadas formas de proteção ou outras vantagens.

Spencer Platt / Getty Images

A amiga do sindicalista que comprou apartamentos na Trumo Tower

A opção pelo chamado betão a pronto, ou misturado, era um bocado estranha. No princípio dos anos 80, era mais normal optar por betão pré-fabricado, ou então por uma estrutura em aço. O sistema que Trump escolheu tinha a seu favor, essencialmente, permitir poupanças em prevenção anti-incêndio e, sobretudo, acelerar a construção. Mas para isto se concretizar, era essencial que a operação de preparação do cimento fosse rápida, pois ele secava depressa. Qualquer pequeno atraso podia levar à inutilização do próprio barril. Ou seja, o construtor ficava nas mãos dos sindicatos, que naquela área de atividade eram notoriamente difíceis de lidar. Acontece que em Nova Iorque eram dominados pela Máfia. E assim, Trump nunca teve problemas durante a construção.

A ligação de Donald Trump nos Teamsters, talvez o mais poderoso dos sindicatos, era um tal John Cody. O FBI já andava a investigá-lo e suspeitava que ele acabaria por ficar com um ou mais apartamentos na Trump Tower. Na realidade, quem ‘comprou’ três deles (logo por baixo do tríplex onde Trump foi viver, e onde reside até hoje quando está em Nova Iorque) foi uma mulher próxima de Cody. Trump tê-la-á ajudado a arranjar um financiamento de três milhões de dólares (2,67 milhões de euros), embora ela não tivesse rendimentos conhecidos – vivia da generosidade de alguns amigos, segundo explicava.

Ninguém a incomodou até Cody ser preso e condenado a uma pesada pena por tentativa de homicídio, perdendo toda a sua influência nos Teamsters. Nessa altura, Trump processou a amiga dele, pedindo 250 mil dólares (222,7 mil euros)por alterações feitas no apartamento. Mas ela contraprocessou-o, exigindo 20 milhões de dólares (17,8 milhões de euros). Talvez porque nas suas alegações o acusava de receber luvas e sugeria às autoridades que investigassem, Trump não demorou a entrar em acordo com ela. Acabou por lhe pagar meio milhão de dólares (445 mil euros), e quando hoje lhe falam do assunto diz que mal conhecia aquelas pessoas.

Contratar imigrantes ilegais

Outra situação polémica na construção da Trump Tower foi a utilização de duas centenas de trabalhadores ilegais, quase todos polacos, na demolição do edifício que existia previamente no local. Muitos deles não usavam capacetes de segurança nem ferramentas elétricas – o velho martelo tinha de chegar para o trabalho – e ganhavam uns irrisórios quatro a seis dólares (3,5 a 5,3 euros) por hora. Apesar disso, muito estranhamente, nunca houve qualquer problema com os sindicatos. E os próprios trabalhadores polacos só começaram a revoltar-se quando deixaram de ser pagos. Nessa altura, Trump foi aconselhado a despedi-los, pura e simplesmente.

Para um candidato presidencial que tem feito boa parte da sua campanha a acusar imigrantes ilegais de roubarem empregos aos americanos não parece bem. Mas Donald Trump dá a mesma resposta que se lhe ouve noutros assuntos (por exemplo, quando lhe falam dos impostos que tem pago, ou não): exatamente por saber como se pode dar a volta ao sistema, ele é a pessoa ideal para combater os abusos.

Resta ver se o argumento pega com o eleitorado em novembro, e se essas velhas histórias não vão juntar-se a todas as outras igualmente comprometedoras e que, fosse o candidato qualquer outra pessoa, há muito teriam arruinado a sua viabilidade política.