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Refugiados. A realidade de Idomeni contada por uma fotógrafa portuguesa

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Elisabete Maisão

No dia em que a Grécia começou a realojar mais de 8400 refugiados concentrados no campo de Idomeni, na Grécia, o Expresso falou com uma fotógrafa portuguesa que dá conta da situação no local.

Manuel Cavazza

Dentro de uma tenda no campo de refugiados de Idomeni está uma fotógrafa portuguesa que se esconde da polícia. "Vejo muitas pessoas que estão a sair com tudo aquilo que têm às costas, desde crianças a objetos pessoais".

Tudo começou por volta das 5h30, quando Elisabete Maisão ouviu a polícia grega a dar ordens. Nessa altura, percebeu que estavam a destruir partes do campo, que deverá ser desmontado até ao dia 31 deste mês. "Penso que, entre hoje, amanhã e depois, consigam fazer isso. Na verdade, muitas tendas já estão vazias, porque as pessoas estão sair pelo seu próprio pé".

Esta segunda-feira, houve alguns momentos de tensão, as pessoas estão perdidas a tentar contactar as famílias. "Vi muitas pessoas agarradas ao telemóvel para falarem com as suas famílias".

"Há refugiados que dizem que voltam para a Síria porque preferem morrer", conta Elisabete. Ao mesmo tempo, há outros que ainda têm esperança e tentam ir até à Macedónia. Há também muita gente resignada, "estão a sair porque são aconselhadas a tal". A opção para muitos é ir para campos militares, "se não forem para aí os refugiados tornam-se pessoas perdidas no mundo".

A fotógrafa portuguesa não acredita que a fronteira com a Macedónia abra no futuro próximo. Segundo Elisabete, é quando os refugiados tentam passar a fronteira que a polícia se torna mais agressiva.

Além da polícia fardada dentro e à entrada do campo de refugiados de Idomeni, há muitos que estão à paisana. "Hoje, mal saímos da tenda, fomos apanhados e disseram-nos que tínhamos de abandonar o campo por não estarmos numa organização não-governamental que constasse na lista que eles têm". Eu disse que me tinha esquecido de uma coisa e consegui voltar, "entrámos para uma tenda ainda tentámos trocar de roupa".

Elisabete Maisão

Apesar do clima não ser de tensão, os jornalistas, fotógrafos e voluntários independentes (os que não fazem parte das ONG que estão na lista da polícia) estão a ser presos. Quem for apanhado é preso por 24 horas, "eu tenho o número de dois advogados tatuado no braço, não vá o diabo tecê-las".

Por isso, a fotógrafa escondeu-se numa tenda com outras três pessoas, "guardámos tudo o que tínhamos connosco e almoçámos. Eu vejo muita gente a entrar e sair. Reparei que a tenda que estava à nossa frente já não existe. Eu e uma amiga minha voluntária estamos disfarçadas de árabe, com umas roupas que nos deram. E já percebi que há mais gente como nós".

Apesar disto tudo, Elisabete diz que a situação está pacífica. Por outras palavras, não houve conflitos ou bombas de gás, "As pessoas sabem que têm de sair e que têm de ir para os campos militares. Mas qualquer coisa pode acontecer, sobretudo com as pessoas não quiserem sair. Aí sim, a polícia pode usar a violência. Até agora ainda não ouvi ou vi nada. Até agora não houve qualquer momento tenso, mas pode acontecer".

Elisabete Maisão

Muitos refugiados querem ir para Tessalónica ou para a Macedónia. Quem entrou na Grécia antes do dia 20 de março ainda pode pedir asilo na Grécia. O acordo da Turquia faz com que quem entrou depois seja obrigado a voltar a este país e tratar da documentação necessária para ser futuramente integrado num Estado-membro.

"Eu não sei o que vai acontecer. Não sei se é melhor abandonar o campo, mas eu estou numa de ficar até ao limite. Mas se todos se forem embora também fico numa situação vulnerável".

Elisabete conta que o facto de a violência poder estalar a qualquer momento motiva-a a ficar em Idomeni: "Quero estar aqui para ajudar e fotografar, nem que seja a última foto que tire aqui".