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Invasão do Iraque: relatório Chilcot vai ser “absolutamente brutal” com Tony Blair

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Ian Gavan

Conclusões do inquérito à participação do Reino Unido na invasão do Iraque em 2003 vão ser divulgadas duas semanas depois do referendo ao Brexit, marcado para 23 de junho

O há muito aguardado Relatório Chilcot, fruto de uma investigação de sete anos ordenada pelo ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown à participação do Reino Unido na invasão do Iraque, vai ser publicado duas semanas a seguir ao referendo sobre a permanência do país na União Europeia, marcado para 23 de junho, e vai trazer à luz do dia um veredito "absolutamente brutal" contra Tony Blair e outros membros do seu governo.

O antigo primeiro-ministro britânico (1997-2007) "não vai ser poupado" pelo apoio e assistência militar que deu ao então Presidente norte-americano George W. Bush, um ano antes da invasão formal do Iraque em 2003, revela uma fonte familiarizada com o processo ao "The Sunday Times".

De acordo com essa fonte, envolvida na investigação ordenada por Brown em 2009 para analisar as ações do governo britânico até à famigerada invasão do Iraque, o Relatório Chilcot e as suas 2,6 milhões de palavras vão "danificar as reputações" de uma série de altos-cargos, com o criticismo mais duro guardado para Jack Straw, à data chefe da diplomacia do Reino Unido. "Será absolutamente brutal para Straw. O período que precedeu a guerra é crucial. [O relatório] vai danificar as reputações de uma série de pessoas, de Richard Dearlove [chefe do MI6 entre 1999 e 2004] bem como de Tony Blair e outros", garante a fonte sob anonimato, alertado para uma "segunda parte" do relatório que "irá revelar que fizemos uma borrada no pós-invasão".

Blair, Bush e outros líderes de Estados-membros europeus à data – incluindo o antigo primeiro-ministro português Durão Barroso (2002-2004), que assumiu a presidência da Comissão Europeia um ano depois da invasão do Iraque – são acusados de saberem que não havia quaisquer armas de destruição em massa escondidas naquele país do Médio Oriente pelo regime de Saddam Hussein e de, mesmo assim, usarem esse e outros argumentos no pós-atentados de 11 de setembro de 2001 para justificar a invasão.

“[O Reino Unido enviou] pessoas sem experiência" para o Iraque, revela a mesma fonte próxima da comissão Chilcot. "Houve pessoas colocadas em cargos onde não poderiam ser bem-sucedidas. Não fazíamos grande ideia do que estávamos a fazer. Após a invasão, descobrimos que tudo era mais difícil do que antecipávamos. Tudo o que os britânicos diziam sobre serem muito melhores a lidar com resoluções pós-conflito do que os americanos descolou-se muito mal."

Entre os visados pelo inquérito está Dearlove, que segundo a mesma fonte é acusado no relatório de ter falhado em impedir que o governo Blair "mascarasse" a invasão com a existência comprovadamente falsa de armas de destruição em massa no Iraque. Por causa de um processo conhecido como Maxwellisation, nenhuma das conclusões do inquérito será novidade para Blair, que sob esse mecanismo legal é autorizado a responder às alegações antes de o relatório ser tornado público.

No ano passado, em entrevista à CNN, o ex-líder trabalhista fez uma espécie de pedido de desculpas, dizendo: "Posso dizer que peço desculpa pelas informações que a agência secreta recebeu estarem erradas. Também peço desculpa por alguns erros no planeamento e certamente pelo nosso erro em perceber o que ia acontecer [no Iraque] assim que removessemos o regime [de Saddam Hussein]", que foi morto por enforcamento em 2006 sob a sentença de um "tribunal especial iraquiano" sem jurisdiação e com o aval das forças ocidentais.