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Os barões da erva

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Após a liberalização do uso recreativo da marijuana no Colorado, em 2014, nasceu uma nova estirpe de milionários na América. Estes empreendedores chegam àquele estado, que junta mais de 90% do comércio, sedentos de investir num negócio que duplica de valor a cada ano e que em 2015 gerou mil milhões de dólares (883 milhões de euros)

A cidade de Denver, no Colorado, é conhecida como a Suíça da América profunda, limpa, certinha e ladeada por cumes repletos de neve. O polo universitário local é um dos maiores do interior dos Estados Unidos. A profusão de jovens aumenta a procura de tudo o que esteja relacionado com lazer, um vasto menu que desde 2014 inclui a marijuana para uso recreativo.
Com apenas 24 anos, Hunter Garth não estava em Denver por causa dos estudos e muito menos pela folia. Este veterano da guerra do Afeganistão queria ganhar o seu primeiro milhão na nova indústria e, como tal, teve uma ideia.

Várias vezes ao dia, juntava-se com outros antigos operacionais das forças armadas americanas, deslocando-se até às lojas de venda ou locais de cultivo. Armados com metralhadoras semiautomáticas, espingardas e revólveres, chegavam em carrinhas discretas.

A oportunidade de negócio surgiu porque os comerciantes tinham dificuldade em depositar o dinheiro nos bancos, visto que o Estado central classifica a venda de produtos com marijuana como um crime federal. Apesar dos avanços ao nível estadual, eram obrigados a guardar as fortunas em cofres escondidos num estado com uma área superior à do Reino Unido, mas com metade da população de Portugal.

Após recolherem as mochilas recheadas de notas, partiam divididos em grupos de três por cada veículo. As viagens podiam durar até seis horas, muitas delas feitas em estradas remotas.
Guardando uma distância de segurança do veículo da frente, sempre que viam o mesmo carro duas vezes preparavam um plano de contingência, que passava por alertar equipas de apoio e unidades da polícia, que estavam a par das movimentações destes homens.

“O maior perigo existe nos locais de cultivo, que estão repletos de material que vale muito dinheiro. Chegamos a transportar centenas de milhares de dólares por missão”, conta Hunter Garth ao Expresso, a bordo de uma daquelas carrinhas.

Cada viagem custa entre 50 a 1000 dólares (entre 45 a 883 euros), dependo da distância percorrida. “A quantidade de dinheiro não interessa. Cinco dólares ou cinquenta mil têm o mesmo tratamento. A diferença é a duração, visto que uma operação de três minutos é muito menos complicada do que uma de horas”, diz Hunter.

Hoje, mais de dois anos depois, a Iron Protection Group (IPG) de Hunter Garth tornou-se uma das principais empresas de segurança especializadas no mercado de marijuana, no Colorado. Desde que começou a operar, no início de 2014, valorizou-se em 4 milhões de dólares (3,5 milhões de euros), passando de cinco para 97 empregados, todos eles antigos veteranos de guerra.

Do Afeganistão ao Colorado

Hunter começou a carreira militar em 2009, tinha então 20 anos, numa unidade de infantaria apelidada “The Walking Dead” (os zombies). Especializado em resgate de pilotos de aviões abatidos por fogo inimigo, nunca chegou a entrar em ação. Posteriormente, recebeu treino em liderança e acabou no Afeganistão, na província de Helmand, onde se registariam alguns do combates mais intensos. Parte de uma unidade móvel de assalto, fez 175 missões a pé, durante as quais enfrentou varias vezes os talibãs.

Exausto, abandonou o exército em 2013. “Quando saí, percebi que a vida não oferece muitas oportunidades. Provavelmente, temos uma grande oportunidade na vida”, recorda.

Entretanto, Hunter passou a dormir ao relento, dependendo da boa vontade de alguns amigos, que, de vez em quando, lhe ofereciam o sofá lá de casa. Antigos camaradas passaram pelo mesmo e alguns tornar-se-iam eternos sem-abrigo. Outros, simplesmente, suicidaram-se.

Milionário. Tripp Keber, dono da Dixie Brand,é o rosto mais conhecido dos novos barões de erva

Milionário. Tripp Keber, dono da Dixie Brand,é o rosto mais conhecido dos novos barões de erva

O medo de cair no mesmo buraco, levou-o a migrar da Florida para o Colorado, visto que se interessara pelo negócio da marijuana, que já estava legalizado para uso medicinal desde o ano 2000.

Apercebeu-se também de que grande parte das firmas de segurança que protegiam aquele sector era composta por amadores recrutados nos classificados da Craigslist.

“Era a tal oportunidade. Podia criar algo profissional, visto que já tinha o treino militar. Necessitava apenas de aprender a servir o cliente. Foi o que fiz e, no início de 2014, arranquei com o negócio. Eu e mais cinco camaradas. Foi muito importante percebermos que precisávamos uns dos outros depois da guerra”, afirma Hunter.

Até final deste ano, a Iron Protection Group pode atingir um valor de oito milhões de dólares (sete milhões de euros), um volume tal que a levou a trabalhar com um banco, depois de, no passado, ter sido forçada a encerrar cinco contas.

Hunter compreende porquê. “É natural. Muitas vezes queriam saber a origem do depósito de 100 mil dólares (88 mil euros) em dinheiro vivo. Quando se apercebiam de que era resultado da minha relação com empresas de venda e produção de produtos de marijuana torciam o nariz, visto que o Estado central ainda considera tudo isto um crime e eles têm medo das autoridades”.

Tripp Keber, o barão dos barões

Hunter é um dos vários milionários que enriqueceram de forma súbita graças à liberalização do uso recreativo da marijuana em quatro estados americanos. Embora Washington, Oregon e Alasca também tenham seguido o mesmo caminho, o Colorado é a meca deste negócio (cerca de 90%).

O uso para fins terapêuticos é legal em 21 estados, mas a excessiva regulamentação leva a que as fortunas cresçam mais lentamente. A maioria dos barões da erva do Colorado entrevistados pelo Expresso vende os seus produtos a ambas as clientelas.

Desde 2014, o lucro duplica a cada ano e em 2015 o volume total do negócio no Colorado atingiu os mil milhões de dólares, números que atraem investidores como o rapper Snoop Dogg, a atriz Whoopi Goldberg e a família de Bob Marley.

Tripp Keber é um dos rostos mais conhecidos deste grupo de novos magnatas. Com uma carreira de 30 anos ligada ao mundo dos negócios, passou pelas cidades de Nova Iorque, Washington e São Francisco, investindo nos ramos turístico, imobiliário, financeiro e tecnológico.

Habituado a trabalhar desde os 17 anos, Tripp foi obrigado a fazer uma pausa a 11 de setembro de 2001. Na altura, nove dos seus maiores amigos morreram durante os atentados levados a cabo pela Al-Qaeda. “A maioria deles vivia no meu apartamento em Manhattan. Era como se fossem meus irmãos”, relembra o empresário.

Hoje, sentado num cadeirão de cabedal castanho, no seu escritório na baixa de Denver, confessa que a perda o obrigou a abrandar. “Andava triste e acabei por sofrer de stresse pós-traumático. Neste caso, a marijuana ajudou-me muito, até porque temia voltar a abusar do álcool. Decidi vir para aqui por causa da vida pacata. Peguei no meu dinheiro e investi em bares e restaurantes”.
Até que prestou atenção à rentabilidade do negócio da marijuana e à tendência de liberalização do mercado. Em 2010 foi a jogo.

O cabelo sempre bem penteado com gel, fato cinzento sem gravata e meias coloridas, Trip conduz-nos pela fábrica da sua empresa, a Dixie Brands, que inclui cinco marcas de produtos fabricados com marijuana, das gomas aos chocolates, dos charros aos refrigerantes, dos elixires aos produtos de higiene. No início, a produção rondava os 500 artigos por dia. Hoje, saem 1000 a cada hora que passa.

O interior é dividido por paredes de vidro que permitem desde a entrada observar os 30 empregados a circularem pelo laboratório, escritório e sala de poda e tratamento. Até o armazém, apelidado de Taj Mahal por guardar o grosso do espólio de plantas e produtos, é transparente. Apenas as casas de banho têm separações opacas.

“Por uma questão de segurança, não posso dizer quanto material tenho, nem o valor depositado no Taj Mahal, mas quanto ao resto não há mistério de propósito. Quando as pessoas entram, polícias inclusive, quero que observem tudo sem dificuldade e que tenham uma perceção imediata de que o negócio é transparente”, explica Tripp.

O espaço também acolhe eventos, nomeadamente recolha de fundos para partidos e sessões de esclarecimento. A ligação de Tripp à política começou nos anos 80, quando trabalhou na Administração Reagan.

Na altura tinha ideias mais conservadoras, mas hoje considera-se um independente. “Voto com o meu bolso e não por ideologia. Sou muito pragmático. Quem protege o meu negócio tem o meu voto”.

Tamanha honestidade não lhe granjeia amigos. Ele próprio reconhece que muitos o chamam-no mercenário da marijuana. Mas, goste-se ou não, o império do empresário foi avaliado há cerca de um ano em 40 milhões de dólares (35 milhões de euros). “Não quero ser demasiado otimista, mas, no final deste ano, a Dixie Brands pode chegar aos 200 milhões (176 milhões de euros)”.

Avó adoentada gera negócio de milhões

Com a liberalização do uso recreativo da marijuana, aumentou o consumo dos produtos comestíveis, que no ano passado representaram 42% das vendas da Dixie Brands. “Os fumáveis serão uma minoria no futuro”, garante Tripp.

Este empresário apresenta Bob Eschino ao Expresso, dono da Incredibles, marca especializada naquele tipo de “petiscos”, que revela que tudo começou por causa de uma avó doente.

Na altura, o irmão Rick, dono de uma pastelaria, experimentou fazer uns biscoitos com infusão de óleo de haxixe para a idosa, que não só se sentiu muito melhor como acabou por abandonar toda a medicação. Dados os resultados, Bob propôs que ambos abrissem um negócio de produção de comestíveis para fins terapêuticos.

Mas a burocracia era pesada. Arrancaram com o processo em 2010 e logo à partida perceberam que tinham de ter uma cozinha licenciada, separada de toda a linha de produção.

Não desanimaram e procuraram por toda a parte, mas “ninguém nos deixava alugar um espaço por causa do estigma associado ao negócio”, recorda Eschino. “Além disso, as empresas de equipamento e os bancos também não queriam ter nada que ver connosco. O ridículo era tal que para licenciar o negócio éramos obrigados a preencher um formulário com 27 páginas, que incluíam perguntas sobre a origem das nossas tatuagens e se tínhamos cicatrizes e porquê. Chegaram a investigar familiares e amigos”.

A Incredibles abriria portas em 2011. Embora nos primeiros dois anos a produção fosse orientada para o mercado medicinal, a empresa cresceu exponencialmente a partir do início de 2014 e hoje já vale 10 milhões de dólares (8,8 milhões de euros).

Num pequeno passeio por uma das cinco lojas em Denver, o dono da Incredibles aponta para o produto mais popular, o chocolate negro com infusão de haxixe, eleito pelos críticos da especialidade como o melhor do Colorado. Por mês, saem 120 mil tabletes para o mercado, em resultado da extração de óleo de mais de 450 quilos de plantas.

Bob aconselha os novatos a começarem por um quadrado com 5 miligramas (mg) de tetra-hidrocanabinol, ou THC, a substância psicotrópica da canábis. “Quanto mais THC, maior é a pedrada, mas a verdade é que tudo depende do peso, altura e idade da pessoa, assim como da sua experiência com a marijuana”, explica.

Na Incredibles, bem como na maioria das lojas, a potência das tabletes varia, mas em média têm 100 mg de THC e estão divididas em dez quadrados, cada um com uma dose de 10 mg, quantidade considerada segura.

Quem entra pode sempre requerer ajuda de um especialista que fornece informação sobre os produtos e guia o cliente durante a prova. “Apesar da cautela, a verdade é que há pessoas que podem comer uma tablete inteira e nada lhes acontece. Outras, simplesmente, ficam paranoicas. Já tivemos pessoas que se sentiram muito mal porque não foram cautelosas, mas passadas algumas horas ficaram melhor. Até porque nunca ninguém morreu de overdose de erva”, diz Bob.

O charro eletrónico

Apesar de a tendência apontar para o consumo crescente de comestíveis, o charro permanece como o produto mais associado ao consumo de erva. No Colorado ainda é o que mais se vende, embora exista uma nova versão capaz de acabar com alguns dos efeitos negativos.

O “pai” do charro eletrónico é Ralph Morgan, dono da Openvape, que tal como Tripp fixou-se em Denver para desfrutar de uma vida mais pacata.

Chegado em 2003, seis anos depois começou a pesquisar sobre o negócio da marijuana. Sabendo que o seu produto é conhecido como o charro eletrónico, um epíteto que não lhe agrada, o empresário aponta as diferenças. “Com estes aparelhos a dose é precisa, ao contrário do charro tradicional em que não sabemos a quantidade certa de THC. O nosso produto não desperdiça — num charro normal há desperdício de 80% — e é mais seguro e saudável, visto que não há queima, fumando-se apenas o vapor de óleo de haxixe”.

Cada charro eletrónico é composto por uma bateria de lítio recarregável e um cartucho que varia em função da potência, de 1mg a 1000mg de THC. Todos os meses, a Openvape produz 250 mil aparelhos, cujo preço oscila entre os 25 e os 100 dólares (22 e 88 euros).

O apetite pelo produto é tal que Ralph jura a pés juntos que ainda não teve tempo para calcular o valor da empresa. “Falam de 20 milhões (17,6 milhões de euros), mas honestamente não sei”, confessa.

O problema do Fisco e da banca

Brian Ruden, proprietário da Starbuds, também não pensa em números. Assim que obteve os primeiros lucros, comprou um Ferrari vermelho e diverte-se com o que faz, não perdendo uma oportunidade para estar no casino com os amigos.

Advogado até 2009, altura em que mergulhou no negócio da erva para efeitos terapêuticos, começou por tratar de doentes com dor crónica, algo que lhe permitia ter seis plantas por cada um dos seus 16 pacientes.

O negócio floresceu a partir de 2010, de tal forma que os pais, que tinham criticado a mudança de carreira, migraram da Florida para o Colorado para o ajudar. “Eles não acreditavam que podia ser legal, muito menos que desse dinheiro, mas quando viram os resultados mudaram de ideias. Os meus pais nunca se importaram com o lado moral, mas sim com o lado legal”, diz Brian.

Enquanto advogado, especializou-se em mediação, negociando acordos de pagamento de impostos em atraso entre o Estado e pessoas ou entidades devedoras. A familiaridade com o Fisco leva-o a recordar a quantidade de dinheiro transferida por este novo negócio para os cofres do Colorado, cerca de 100 milhões de dólares (88 milhões de euros) no primeiro ano de legalização.

Milionário. Hunter Garth, dono da Iron Protection Group, em missão no Afeganistão. Hoje protege o negócio de marijuana no Colorado

Milionário. Hunter Garth, dono da Iron Protection Group, em missão no Afeganistão. Hoje protege o negócio de marijuana no Colorado

“A nível estadual e federal ainda agora se começou a contar as notas. As perspetivas são enormes, visto que os americanos gastam por ano no mercado ilegal cerca de 40 mil milhões de dólares (35 mil milhões de euros), o que representa 20% do gasto em álcool e tabaco. Imagine-se quando todo o negócio sair da clandestinidade”, considera Brian, que explica ainda a diferença entre o imposto aplicado à marijuana para uso medicinal (8%) e recreativo (36%).

Outro aspeto da burocracia deste novo negócio é o secretismo à volta da banca, que recusa ser associada a este tipo de negócio visto que ele ainda é considerado crime federal. Apesar desta espécie de nojo, todos os sete barões da erva entrevistados pelo Expresso (nem todos quiseram ser citados neste trabalho) confessaram que possuem conta.

Não têm cartões de crédito, nem quaisquer privilégios, embora depositem centenas de milhares de dólares, guardando um livro de cheques que lhes permite minimizar as transações em dinheiro vivo e a insegurança.

Todos revelaram pormenores do seu negócio, descrevendo com minúcia aspetos relacionados com a produção e rentabilidade. A única exceção foi quando perguntámos qual o nome do banco com quem trabalham. “Não posso revelar. Isso seria como perguntar ao meu melhor amigo o que é que a sua mulher vestirá hoje à noite. Poderia ser interessante saber, mas não pergunto”, parodia Tripp.

O Expresso apurou que cada novo cliente é trazido pela mão de um antigo. A relação da banca com os barões da erva faz-se, assim, em circuito fechado.

O tal nojo dos bancos relaciona-se com o facto de o Estado central considerar, ainda, o negócio ilegal. Por isso, qualquer instituição que receba dinheiro ou ceda crédito pode em teoria ser acusada de lavagem de dinheiro. Há, no entanto, uma ironia no meio disto tudo. Se por um lado o Estado veta o negócio, por outro, através da Direção-Geral de Impostos, envia todos os anos, desde que comércio foi legalizado, informação aos empresários sobre como é que devem preencher a sua declaração de impostos. “Estão de mãos estendidas para receber os impostos da erva, mas consideram lavagem de dinheiro a circulação de capital entre nós e a banca. Faz sentido?”, pergunta Tripp.

Em Washington, outro dos quatro estados que legalizaram o uso recreativo da marijuana, a relação dos empresários com os bancos, todos eles de pequena dimensão, é um segredo de polichinelo. O Salal Credit Union, por exemplo, na cidade de Seattle, tem servido o sector da canábis desde a segunda metade de 2014. “Depois de termos discutido este assunto, decidimos que não havia problema”, diz Sheryl Kirchmeier, porta-voz do banco. “Em parte é uma questão de segurança pública”.

Shane Sauders, representante do Maps, outro dos bancos de nicho, explica porquê: “A ideia de alguém sair à noite depois de fechar a porta da sua loja com milhares de dólares na mochila parece-nos, no mínimo, arriscada”. Segundo documentos do Departamento de Tesouro americano, a que o Expresso teve acesso, existirão perto de 300 bancos com contas de negócios relacionados com a produção e comércio de erva, empresas conhecidas pelo jargão do sector como “Marijuana Related Businesses (MRB)”.

Gangues também querem lucrar

A resistência da banca ao negócio gera insegurança junto dos empresários que temem ter tanto dinheiro vivo em caixa. Em entrevista ao Expresso, o líder da Associação de Chefes da Polícia do Colorado, Marco Vasquez, refere que tal é um problema e que o Estado central deve resolvê-lo rapidamente. “Descobrimos algo muito preocupante. Não existem apenas empreendedores a migrar para o Colorado, há também, segundo dados confirmados pelo próprio Departamento de Justiça americano, gangues de Nova Iorque e Miami a migrar para cá. O objetivo deles não é o negócio da erva, mas o roubo e o assalto às empresas. Eles sabem que estas lojas e estufas estão repletas de dinheiro e isso é uma tentação muito grande”.

No regresso de mais uma missão, desta vez até ao sul do Colorado, onde a pobreza e a taxa de criminalidade são mais elevadas do que no resto do território, Hunter ouve as declarações de Vasquez e concorda em parte. “Washington tem de acordar ou corre-se o risco de um dia destes alguém ser brutalmente assassinado. Por outro lado, tenho algum ceticismo sobre as declarações das autoridades locais, porque muitas vezes estão contaminadas por um conservadorismo excessivo”. Sobre este ponto, diga-se que um terço das cidades e condados do Colorado não autoriza a venda de erva, optando por cumprir a lei federal em vez da estadual.

“Concordo com o meu irmão Hunter”, acrescenta Tripp. “O essencial é que no ano passado mil milhões de dólares, que alegadamente deveriam ter sido negociados por traficantes, foram negociados legalmente. Um décimo dessa verba foi para os cofres do Estado que agora pode investir em infraestruturas, como escolas e hospitais”.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 14 maio 2016