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Nadia Murad: “Nós morríamos a cada hora que passava”

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Nikki Kahn/The Washington Post via Getty Images

Assistiu ao massacre da família e da aldeia Natal mas conseguiu escapar após três meses como escrava sexual nas mão do Daesh

Paulo Anunciação

Paulo Anunciação

em Londres

Correspondente em Londres

Nadia Murad pertence a uma minoria étnica e religiosa — os yazidis — radicada há séculos no norte do Iraque. Nadia, de 23 anos, conseguiu escapar ao Estado Islâmico após três meses de cativeiro e violência brutal. Candidata ao Nobel da Paz de 2016, foi recentemente incluída na lista da revista “Time” das 100 pessoas mais influentes no mundo.

Quando foi o seu primeiro contacto com os jiadistas do Daesh?
Em agosto de 2014, o Daesh atacou os yazidis na região de Sinjar [no norte do Iraque]. Centenas de homens, velhos e crianças foram massacrados. Alguns yazidis conseguiram fugir para as montanhas Sinjar, mas Kocho, a nossa aldeia, fica longe [das montanhas] e não conseguimos. Pedimos socorro por telefone e outros meios. Mesmo até ao último momento tínhamos esperança de que alguém viria salvar-nos. Sabíamos que algo horrível nos iria acontecer.

E o que aconteceu depois?
O Daesh cercou a nossa aldeia durante alguns dias. Depois entraram e prenderam as pessoas todas na escola da aldeia. Tiraram tudo o que tivesse algum valor, como colares e brincos das mulheres e crianças. Deram-nos duas opções: a conversão ao Islão ou a morte. Ninguém quis converter-se. Mais tarde separaram os nossos homens, eram cerca de 700. Levaram-nos para o limiar da aldeia e mataram-nos.

Quantos homens da sua família?
Tenho nove irmãos. Três conseguiram fugir, seis foram mortos pelo Daesh. Já não tinha pai porque morreu há muitos anos. O meu irmão mais velho era como um pai, mas agora também ele morreu. Conseguíamos ver das janelas do segundo andar da escola, mas quando os jiadistas começaram a disparar virei a cara e fugi da janela. Até hoje ninguém tem notícias de nenhum destes 700 homens. Não sabemos o que aconteceu aos corpos deles, se os animais os comeram ou se foram levados.

O que aconteceu à sua mãe?
Depois de matarem os homens da aldeia, levaram os rapazinhos com mais de quatro anos para campos de treino. Depois separaram as mulheres mais velhas — eram umas 80, com 45 anos ou mais — e levaram-nas para outro local. A minha mãe estava neste grupo. Eles não as queriam como concubinas, não estavam interessados nos corpos delas. Algumas pessoas dizem que elas foram assassinadas, outras não. No entanto, no início do ano, quando parte de Sinjar foi libertado, encontraram uma vala comum onde estavam os corpos destas mulheres.

Sobraram apenas as raparigas e as mulheres jovens como você.
Éramos umas 150, incluindo três sobrinhas minhas. Levaram-nos de autocarro para Mossul em vários grupos e distribuíram-nos por centros do Daesh. No caminho humilharam-nos, tocaram nos nossos seios e roçaram as barbas sujas nas nossas caras. Não sabíamos se iam matar-nos ou o que iriam fazer de nós. Nessa noite levaram-nos para o quartel-general deles. Havia muitas jovens, mulheres e crianças, todas yazidis. Talvez umas 400 tinham sido trazidas no dia anterior.

E o que se passou depois?
Na noite seguinte um grupo de militantes do Daesh veio à casa. As mulheres começaram a gritar desesperadas. Algumas desmaiaram. Cada guerrilheiro escolheu uma rapariga. Algumas eram bem mais novas do que eu, tinham entre dez e 12 anos. As raparigas tentaram resistir, mas foram obrigadas a ir com os homens. As mais novas agarravam-se às mais velhas a chorar. O homem que me escolheu era enorme, um monstro. Estava petrificada de medo. Levou-me para o andar de baixo. Eu não parava de chorar. Disse-lhe que era demasiado jovem para ele, mas pegou em mim. Deu-me pontapés e espancou-me. Quando outro militante passava por ali eu agarrei-me a ele e pedi-lhe que me levasse. Não queria ir com o gordo. O outro homem disse ao gordo: “Eu já tinha escolhido esta mulher ontem. Vou levá-la!” O homem magro chamava-se Hadji Salman e levou-me para a casa dele. Era um dos comandantes, tinha seis guarda-costas fortemente armados que andavam sempre vestidos de negro e tinham um olhar malvado. Ele violou-me, foi muito doloroso. Nessa altura dei-me conta de que teria sofrido sempre, não importa qual fosse o homem. Humilhou-me todos os dias, forçou-me a usar roupa que não tapava o meu corpo. Torturou-me. Nenhum dos homens mostrou ter qualquer piedade. Muitas vezes vendiam-nos depois de um dia ou mesmo uma hora.

O que quer dizer com “vendiam-nos”?
Logo no início levaram-nos ao tribunal islâmico de Mossul. Fomos todas vestidas de negro, com a cabeça coberta. O cadi, o juiz muçulmano, leu o Corão e obrigou-nos a repetir as palavras. Fomos forçadas a dizer que nos tínhamos convertido ao Islão. O juiz disse a Salman que eu já era “halal”. Deram-me um nome islâmico e um número. Depois tiraram fotos de cada uma de nós e penduraram-nas nas paredes acompanhadas dos números dos “proprietários”. Os jiadistas iam ao tribunal e podiam olhar para as fotos. Se gostassem de alguma podiam ligar para o número e depois alugar, comprar ou mesmo receber a rapariga como presente.

Nunca encontrou um jiadista que tivesse pena da vossa situação?
O objetivo deles era eliminar todos os yazidis porque para eles nós somos hereges. Não havia homens bons entre eles. Tenho muito orgulho em ser yazidi. E sempre mantive a minha fé em Deus. Deus estava no meu pensamento em cada minuto, mesmo quando estava a ser violada.

Como conseguiu fugir?
Não era fácil fugir. Quando tentei pela primeira vez ainda estava com o primeiro homem que me violou. Disse para mim: tenho de fugir daqui, embora não pensasse ter muitas hipóteses. Tentei sair por uma janela, mas fui apanhada por um dos guardas. Fecharam-me num quarto. Segundo as regras deles, uma mulher prisioneira torna-se um despojo de guerra se for apanhada a tentar fugir. É posta numa cela e violada por todos os homens do complexo. O guarda mandou-me tirar a roupa e chamou os outros guardas. Depois passaram a noite a cometer o crime deles, até eu perder os sentidos. O meu corpo ainda tem as marcas e as cicatrizes do tratamento brutal que sofri. Depois disso não consegui sequer pensar [em fugir].

Mas fugiu.
O último homem com quem fiquei em Mossul vivia sozinho. Um dia disse-me que me tinha vendido. Ordenou-me que me lavasse e que me preparasse. Depois saiu de casa para ir ao mercado comprar roupa e maquilhagem para mim. Apesar de pensar ser impossível, consegui sair. Bati à porta de uma casa, vivia lá uma família muçulmana sem ligações ao Daesh. Pedi-lhes ajuda. Disse-lhes que o meu irmão que vivia num campo de refugiados no Curdistão lhes daria tudo o que quisessem se me ajudassem. Ajudaram-me. Esconderam-me num quarto durante 17 dias. Finalmente deram-me roupa e um véu que tapava por completo a minha cara, exceto os olhos. Também me deram um bilhete de identidade islâmico e levaram-me à fronteira perto de Kirkuk. O meu irmão estava à espera do outro lado.

Quantas mulheres yazidis ainda estão prisioneiras do Daesh?
Umas 3400. Muitas morreram no cativeiro por causa da tortura ou porque simplesmente já não suportavam viver aquela vida.

Você nunca pensou nisso, em acabar com a vida?
Muitas raparigas suicidaram-se. Eu nunca pensei nisso, antes ou depois de ser capturada. Acho que cada pessoa deve aceitar o que Deus lhe reservou. Na verdade, estar nas mãos do Daesh era quase como já ter morrido. A maior parte das pessoas morre uma vez na vida, mas nós morríamos a cada hora que passava.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 14 maio 2016