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“Na Frelimo e na Renamo há quem procure o conflito”

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Sandile Ndlovu / GETTY IMAGES

Entrevista a Andrea Ricciardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Andrea Ricciardi esteve em Lisboa com a paz em Moçambique na agenda. Fundador da Comunidade de Santo Egídio, conhece como poucos, e desde 1974, o país cuja paz ajudou a construir, pondo fim a 16 anos de guerra civil. Ricciardi liderou a comunidade na mediação entre Frelimo e Renamo, donde resultou o acordo de paz de 1992. Um quarto de século depois, quando a paz naquele país da África austral volta a estar ameaçada, Ricciardi refaz o ciclo da diplomacia sublinhando que a situação é muito diferente. Moçambique já não é “o país mais pobre do mundo com um milhão de mortos” para chorar. Mas “há almas na Frelimo e na Renamo que procuram o conflito e não o encontro”. Define-se como leigo, político ocasional, que aceitou chefiar a cooperação internacional no Governo “de emergência” de Mario Monti.

A comunidade de Santo Egídio teve um papel fundamental no processo de paz em Moçambique, em 1992. Estaremos a voltar à violência dos anos 90?
Não! Quando começámos o processo em Santo Egídio, eu e D. Matteo Zuppi [prelado italiano que passaria a arcebispo de Bolonha em 2015], como mediadores com o Governo italiano, sendo arcebispo da Beira, D. Jaime Gonçalves, Moçambique era o país mais pobre de África, havia fome, a guerra fizera um milhão de mortos e não havia trabalho. Mudou muito. Os acordos de paz correram bem e não houve as vinganças que se receava por causa dos numerosos assassínios e deportações. Havia ódio. Hoje é preciso voltar a arrancar com o diálogo e questionar o papel da democracia no país.

Numa entrevista à “Deutsche Welle”, em 2012, insistia ser importante que a Renamo evoluísse como partido político...
Está a fazê-lo e isso é importante para a construção da democracia, que não se faz por decreto. A democracia é uma cultura que é preciso construir e fazer crescer mas hoje vivemos num período em que nos interrogamos sobre a sua evolução. As eleições nas Filipinas mostram como às vezes se prefere o bonapartismo à democracia.

Até agora, Afonso Dhlakama abandonou o jogo político e mantém a estratégia militar...
Ele também não tinha entrado no jogo político. Estas negociações não são uma escola política de democracia, ao envolverem um governo comunista autoritário e um partido que só conhecia as armas. A situação em Moçambique é grave, mas não sejamos pessimistas. Há uma nova classe de jovens que quer trabalhar e viver de forma diferente. Hoje existe uma sociedade civil e a situação religiosa está muito mudada, há um grande número de seitas.

O panorama religioso em África está a mudar e em Moçambique também. Qual o papel da religião?
Há o problema neoprotestante... Penso que a Igreja Católica subavaliou um novo desafio: há um mercado global e o cristianismo da prosperidade está enraizado nesse mercado. Tudo se tornou mercado e a religião também. Em Kampala, Uganda, estive na grande igreja do Milagre onde toda a gente pedia trabalho, escola para os filhos, cura, carro, casa maior... É o novo cristianismo da prosperidade. Há dois problemas sociais sérios em África, os velhos e a educação das crianças. Os primeiros eram respeitados mas hoje chamam-lhes feiticeiros. As segundas ainda não dispõem de um sistema escolar que as sirva e aí estamos a fazer um trabalho continuado em toda a África.

António Pedro Ferreira

Qual a relação do Estado moçambicano com a Igreja?
Dantes era um bloco, hoje está tudo mais dividido e não é só em Moçambique. A relação das seitas com o poder político é muito diferente da que têm a Igreja Católica ou Anglicana, que geriram várias transições para a democracia. Tal como Jaime Gonçalves em Moçambique e Desmond Tutu com o apartheid. Fala-se muito de islão em África, porém existe este terceiro protagonista que é a nebulosa neoprotestante.

Obedece a uma lógica de entretenimento?
Há que perceber porque têm as pessoas esta atração quando as grandes paróquias já não funcionam. Ainda há quem se batize nas igrejas católicas, mas pergunto-me se terá havido reflexão sobre as novas religiões da globalização.

Que pensa disso?
A globalização mudou a economia, a política e está a mudar a religião. O fundamentalismo e radicalismo muçulmano não é, como alguns defendem, o ódio típico dos muçulmanos. Não! É também uma transformação da globalização. As “brigadas internacionais” que partem da Bélgica e dos subúrbios parisienses não frequentam comunidades radicalizadas ou fundamentalistas. Islamizaram-se através da internet e estão em ligação direta com Raqqa. Significa que são pessoas já radicalizadas pela pobreza e pela marginalização e que encontram no islão do Daesh e no terrorismo uma ideologia à sua medida. A globalização não alterou as fronteiras, mas mudou-nos em profundidade.

Fundamentalismo refere-se em primeiro lugar ao islão, mas há criacionismo e evangelismo de tom semelhante.
O fundamentalismo não é exclusivo dos muçulmanos. O fundamentalismo budista expulsou os rohingya de Myanmar. O hindu virou-se contra os cristãos na Índia. O islão tem também o totalitarismo do califado. Preocupa-me muito a perspetiva de Trump como presidente dos EUA, porque encaixa no bonapartismo e na democracia autoritária, como nas Filipinas, na Turquia ou na Hungria.

Que pensamento comum ainda subjaz à Europa?
Há a visão de Leste, em desintoxicação do pós-comunismo, e a Ocidental que é outra história. A crise de refugiados pôs o dedo na ferida ao revelar os sentimentos subjacentes. Reencontrámos um etnocristianismo a Leste. Ao dizermos que somos países cristãos dizemos o mesmo que Salazar em Portugal e Franco em Espanha diziam e usamos o cristianismo e a identidade étnica para construir muros. E o discurso dos muros é cego.