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DEVASTADOR. A Síria está feita nisto - desolação

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A guerra matou 470 mil pessoas neste país nos últimos cinco anos. Repetimos: 470 mil pessoas. Insistimos: 470 mil pessoas. Persistimos: 470 mil pessoas. Há países com menos população que 470 mil. Leia este texto, por favor. É sobre a Síria (e sim, temos medo que passe à página seguinte porque isto é sobre a Síria e a Síria está lá longe, mas pessoas são pessoas, lá longe ou cá perto)

Helena Bento

Jornalista

Desde o início da guerra civil na Síria, em 2011, morreram cerca de 470 mil pessoas, segundo dados recentes do Grupo Internacional de Apoio à Síria, constituído por 17 países que apoiam a oposição ao regime de Damasco. Para perceber melhor a dimensão destes números, digamos que nos últimos cinco anos morreram mais pessoas na Síria do que a população total da Islândia e um pouco menos do que a do Luxemburgo.

Tudo começou quando, a 17 de dezembro de 2010, Mohamed Bouazizi, um vendedor ambulante de 26 anos que sustentava a família e sonhava ter um camião, regou-se com gasolina e acendeu um isqueiro. Sem pai desde os três anos, Mohamed vendia fruta e legumes num mercado de rua na cidade de Sidi Bouzied, na Tunísia. Era procurado muitas vezes pela polícia municipal, que lhe exigia dinheiro por não ter uma licença que nem sequer existia. Era ameaçado e humilhado. Aguentou sempre, com uma calma surpreendente, menos naquele dia. Morreu ao fim de duas semanas. Mohamed Bouazizi, disse Barack Obama mais tarde, fora vítima do mesmo “tipo de humilhação a que se assiste todos os dias em muitas partes do mundo” quando “os governos tiranos negam aos seus cidadãos o direito à dignidade”.

O incidente desencadeou manifestações contra o regime ditatorial de Ben Ali por todo o país, tendo o presidente tunisino sido deposto pouco tempo depois. Da Tunísia, os protestos estenderam-se à Líbia, Egito, Síria, Bahrain e Iémen, embora sem o mesmo efeito. Na Síria, as primeiras manifestações em defesa da democracia ocorreram em Dara, no sudoeste, em janeiro de 2011, e alastraram depois a algumas das principais cidades do país. Receando perder o controlo sob a população, o presidente Bashar al-Assad ordenou a supressão da revolução e as ruas transformaram-se num campo de batalha sangrento.

Violência. Violência. Violência

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Em março fez cinco anos desde o início da guerra civil no país e o balanço do número de vítimas é aterrador. Um relatório divulgado recentemente pelo Centro de Investigação de Políticas da Síria revela que desde 2011 morreram 470 mil pessoas na Síria (11,5% do total da população) e 1,9 milhões ficaram feridas. “O país está completamente destruído”, diz Ghayath al-Madhoun, poeta sírio entrevistado pelo Expresso.

Filho de pai palestiniano e mãe síria, Ghayath al-Madhoun nasceu em 1979 num campo de refugiados em Damasco, capital da Síria. Estudou literatura árabe na Universidade de Damasco e começou a trabalhar como jornalista em 1999, colaborando com várias revistas e jornais árabes. Em 2004, publicou o seu primeiro livro, uma coleção de poemas intitulada “Qasaed Sakatat Sahwan”. Em 2008, pediu asilo político na Suécia, e é lá que vive desde então. Autor de vários livros de poesia, Ghayath al-Madhoun é um dos escritores sírios com maior reconhecimento internacional.

Perguntamos-lhe se considera que os Estados Unidos deviam estar a fazer mais pela Síria - para pôr fim ao conflito, para evitar mais mortes. O ataque recente do regime sírio a um hospital em Alepo, que resultou na morte de 65 pessoas, relançou o debate sobre o papel dos EUA na Síria, que desde o início optaram por manter-se à margem do conflito, sem intervir mais do que o estritamente necessário e apenas em situações pontuais. Ghayath al-Madhoun defende que foi precisamente essa ausência, esse caminhar para as margens ao mesmo tempo que a Rússia avançava como guardiã do conflito, que fez escalar a violência na Síria. “Os Estados Unidos bloquearam a dada altura a venda de armas ao Exército Livre da Síria [FSA, na sigla em inglês] e isso deu liberdade a Assad para começar a bombardear o país. Se o FSA tivesse rockets e helicópteros, Assad nunca teria conseguido fazer o que fez.” Além disso, Barack Obama nunca foi a favor da imposição de uma zona de exclusão aérea sobre parte do território sírio - como fez a NATO, de forma semelhante na Líbia, para abrir caminho ao derrube de Muammar Khadafi – e isso também contribuiu para o aumento da violência, diz o escritor sírio. “Assad foi salvo pelos Estados Unidos. Nós não precisamos que ninguém nos ajude. O que precisamos é que o Ocidente pare de ajudar Assad. É simples.”

Dar armas? Ameaçar?

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Dara Abdallah, escritor e jornalista sírio de 29 anos, tem uma opinião diferente. Dar armas a grupos locais, ainda que moderados, só iria piorar a situação, resultando em “mais sangue, mais mortos e mais refugiados”. Embora defenda uma solução política para a Síria, Dara Abdallah, que estudou medicina durante cinco anos na Universidade de Damasco, tem muitas dúvidas em relação à sua implementação efetiva. Regime e oposição continuam a não concordar num ponto tão fundamental quanto o que diz respeito ao futuro de Bashar al-Assad e à sua presença num eventual governo de transição no país. “A situação no terreno é demasiado complicada para se conseguir chegar a uma solução política”, diz o escritor sírio. Para ele é muito claro que só os Estados Unidos podem pôr fim ao conflito, já que dispõem de mecanismos que lhes permitem chegar a acordo com a Rússia, fiel aliada do regime sírio, participando ao seu lado na guerra desde finais de setembro de 2015. “Se quiserem, os EUA conseguem chegar a acordo com a Rússia.”

Em último caso, devem poder intervir no conflito recorrendo a meios militares. “Da última vez que Barack Obama ameaçou Assad com uma intervenção armada no país caso o presidente sírio continuasse a atacar a população com armas químicas, Assad cedeu. Ele tem medo da força militar dos EUA”. Questionado sobre as consequências que tal intervenção teria num território tão fraturado e ocupado por centenas de grupos rivais quanto o da Síria, Dara Abdallah reconhece que os resultados são imprevisíveis e que nada garante que a situação viesse a melhorar. Mas não agir de todo é que não é solução. “Estamos a falar da vida de milhões de pessoas. Nenhuma questão política pode ser mais importante do que isso. O Exército Livre da Síria não é assim tão radical; podia eventualmente juntar-se a grupos diplomáticos que existem no país e a organizações não-governamentais para tentar construir uma nova Síria. Talvez corresse bem, talvez não… Não sabemos. Mas tudo menos Assad.”

Dara Abdallah interrompeu os estudos na Síria depois de ter sido detido pela terceira vez por ter assinado artigos sobre o regime em jornais e revistas árabes. Esteve preso 42 dias. Quando foi autorizado a deixar a prisão, decidiu fazer as malas e abandonar o país. Dara vive atualmente em Berlim e frequenta o curso de Estudos Culturais e Filosofia. Não chegou a concluir o curso de medicina nem tenciona fazê-lo, “muito menos agora”.

Tal como Ghayath al-Madhoun, Dara Abdallah culpa os EUA pelo que está a acontecer na Síria. “Barack Obama nunca usou nenhum poder – e refiro-me a poderes políticos, não militares - contra Bashar al-Assad. Os EUA abriram espaço para que a Rússia fizesse o que fez. O plano de Obama é precisamente não fazer nada no Médio Oriente, virando-se antes para o leste de Ásia. O objetivo dele é proteger os EUA da China. Obama não está assim tão interessado quanto isso na situação da Síria.”

As percentagens

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Bashar al-Assad, que sucedeu ao seu pai, Hafez al-Assad, no governo da Síria em 2000, tem sido acusado de múltiplas atrocidades no país. Uso de armas químicas (gás sarin, por exemplo), emboscadas, perseguições, detenções ilegais, prisões arbitrárias, violência, tortura, morte. De acordo com o mais recente balanço da Rede Síria para os Direitos Humanos (SNHR, na sigla em inglês), o regime foi responsável por 94,66% das mortes registadas entre março de 2011 e março de 2016, enquanto 1,52% foram causadas por grupos da oposição armada e 1,13% pelo autoproclamado Estado Islâmico. Os registos do total de mortes apresentado por determinadas categorias dão a ver um cenário semelhante. No período de tempo assinalado, o regime sírio foi responsável por 90,84% do total de mulheres mortas no país. Por 94,65% do total de crianças mortas. Por 90,80% do total de médicos e enfermeiros mortos. Por 99,43% do total de prisioneiros mortos por tortura. E por 89,37% dos ativistas e jornalistas (“media activists”) mortos.

Ghayath al-Madhoun lamenta que, perante estes números, os meios de comunicação no Ocidente continuem apenas interessados no autoproclamado Estado Islâmico. “Assad foi responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas. Foram violadas mulheres e em várias prisões foram torturados detidos, que ficaram sem pele e sem olhos. Milhões de sírios perderam as suas casas e dormem agora nas ruas, e outros milhões foram obrigados a abandonar o país. Porque é que toda a gente fala no Estado Islâmico e ninguém fala em Bashar al-Assad?”

Situação em Alepo, maior cidade do país, é alarmante

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De todas as cidades sírias em que há conflitos armados, Alepo é a que preocupa mais neste momento as organizações não-governamentais e de apoio humanitário à população. Nos últimos dias de abril foi bombardeado um hospital, al-Quds, tido como fundamental na prestação de cuidados às vítimas da destruição na cidade. Morreram 65 pessoas, segundo informações do município de Alepo, citado pela revista “Foreign Policy”. O ataque foi cometido pelo exército de Bashar al-Assad e os EUA e a ONU não têm dúvidas de que se tratou de um ato deliberado.

De acordo com a organização não-governamental Defesa Civil Síria, entre 24 de abril e 1 de maio foram registados na cidade 260 ataques aéreos e 110 bombardeamentos; foram lançados 18 misséis e 68 bombas-barril, embora este número não possa ser confirmado. Na mesma semana em que o hospital al-Quds foi bombardeado, foram atacados outros dois centros médicos (al-Marja Medical Center e al-Qasr Medical Center). No total, morreram 189 civis, incluindo 40 crianças, e outros 394 sofreram ferimentos, dos quais 96 eram crianças.

Os números do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, organização com sede em Londres e informadores no terreno, são semelhantes – 279 civis mortos em Alepo entre 22 de abril e 3 de maio, 155 dos quais em áreas controladas pela oposição síria e 124 em áreas controlas pelo regime.

Das 65 vítimas do ataque ao hospital Al-Quds, três eram médicos. São muitos os perigos que enfrentam atualmente as equipas médicas que estão em Alepo e noutras zonas de conflito no país, refere Waela Leji, médico sírio, em entrevista ao Expresso. Além dos ataques deliberados a hospitais e outras instalações médicas, o regime sírio tem ordenado a detenção e tortura de médicos e enfermeiros, que “têm trabalhado em condições muito arriscadas”. Waela Leji, que além de trabalhar como médico em Londres colabora em regime de voluntariado com a Rede Síria para os Direitos Humanos, acusa ainda o Governo sírio de colocar entraves à entrada de ajuda humanitária em Alepo. “Já há poucos médicos e enfermeiros no país”, diz. “Muitos morreram e outros foram embora com medo de morrer.”

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