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Israel põe ONG em tribunal para calar denúncias de violações

HAZEM BADER

Breaking the Silence, organização não-governamental fundada por ex-soldados para denunciar crimes cometidos contra palestinianos que vivem sob ocupação israelita, pode vir a ser obrigada a identificar elementos que testemunharam sob anonimato

Uma das maiores organizações não-governamentais israelitas que se dedicam a denunciar as práticas cruéis da ocupação dos territórios palestinianos pelo Estado hebraico vai começar a ser julgada na próxima semana, num processo que ameaça encerrá-la e que é tido como um teste crucial à liberdade de expressão e crítica a Israel.

O processo foi iniciado pelo Governo de Benjamin Netanyahu para obrigar a Breaking the Silence a divulgar os nomes de alguns ex-soldados que já prestaram testemunhos, anónimos, sobre as violações cometidas enquanto membros do exército de Israel (IDF) a mando das chefias militares.

Fundada em 2004 por Yehuda Shaul, a organização surgiu da necessidade de dezenas de ex-membros das IDF denunciarem o que fizeram e o que viram ser feito aos palestinianos durante a sua recruta. Em Israel, o serviço militar é obrigatório, três anos para os rapazes e dois para as raparigas assim que completam 18 anos de vida. Os poucos que se recusam a cumpri-lo são levados a tribunal e colocados em prisão administrativa. (Sobre esta recusa, vale a pena ler a carta de um jovem israelita de 19 anos publicada há seis dias no "The Independent".)

No caso apresentado contra a Breaking the Silence em tribunal, que começa a ser julgado na próxima semana, o Executivo de Netanyahu exige em particular que os líderes da ONG identifiquem os soldados que prestaram testemunhos anónimos sobre a última ofensiva militar de Israel contra Gaza no verão de 2014. O grupo diz que, independentemente da decisão do tribunal, esta pressão tem o potencial de dissuadir outros ex-membros do IDF a relatarem as suas experiências.

O processo surge depois de vários meses de ataques de políticos e cidadãos nacionalistas e anti-Palestina à Breaking the Silence, incluindo até tentativas de infiltração por indivíduos que fingiram ser simpatizantes do trabalho da organização e acusações públicas de "traição" proferidas pelo ministro da Defesa Moshe Ya'alon.

Para os membros da Breaking the Silence e a sua equipa de defesa, o caso mediático ameaça não só a existência do grupo como a liberdade de expressão e o ativismo por Direitos Humanos em Israel, sendo uma acha na fogueira da crescente intolerância hebraica. "É o dia do julgamento para a Breaking the Silence e a sua capacidade de continuar a trabalhar", diz Michael Sfard, um dos advogados dos ex-soldados. "Mas penso que também é um momento crucial para a sociedade civil israelita."

  • Antigo soldado israelita. "De repente, querer matar um palestiniano passa a ser uma coisa banal"

    Avihai Stollar é uma voz dissonante na aparente unanimidade da sociedade israelita quando o tema é a ocupação dos territórios palestinianos. Foi combatente durante a segunda intifada, serviu na Cisjordânia, e chegou a 1.º Sargento. Em 2004, depois de três anos nas Forças de Defesa, não quis que a violência continuasse a fazer parte da sua rotina. E quatro anos depois juntou-se à organização Breaking the Silence, onde lidera o projeto de recolha de testemunhos de soldados.