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Pode uma carta ser suficiente para virar os britânicos contra a UE?

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Dan Kitwood

Missiva secreta divulgada esta terça-feira “prova que o primeiro-ministro já estava a conspirar contra a campanha pelo Brexit” antes de concluir negociações de “estatuto especial” com Bruxelas

David Cameron fez um jogo aparentemente limpo, dentro da limpeza possível quando se trata de negócios políticos. Ao longo de meses o primeiro-ministro britânico esteve em périplo por capitais europeias e encontrou-se várias vezes com o líder do Conselho Europeu Donald Tusk, para conseguir que Bruxelas aceitasse as suas propostas de reformas ao funcionamento da UE.

A premissa era simples: se o bloco dos 28 cedesse às exigências, o líder do Executivo britânico defenderia a permanência nele; caso contrário, avançaria com o referendo prometido há mais de um ano, colocando-se do lado da barricada que defende o fim da aliança comunitária. A boa nova chegou a 19 de fevereiro, quando Cameron anunciou que tinha alcançado um "estatuto especial" para o Reino Unido dentro da UE, convocando o referendo ao Brexit para 23 de junho e iniciando uma forte campanha pela manutenção do país no bloco. Mas de acordo com uma carta privada divulgada esta terça-feira pela campanha Leave, Cameron nunca teve reais intenções de cortar com Bruxelas.

O primeiro-ministro, acusam os que defendem a saída da UE, está "enfiado numa conspiração" há muito para manter a Grã-Bretanha dentro da comunidade europeia e prova disso é a "bomba" que prometiam divulgar há mais de uma semana. Essa bomba foi publicada esta terça-feira através do tablóide "Daily Mail": uma carta enviada a Cameron pelo diretor-executivo da multinacional britânica Serco, onze dias antes de as negociações com Bruxelas estarem concluídas.

Na missiva, o empresário Rupert Soames refere uma conversa de ambos tida nesse mesmo dia, no início de fevereiro, na qual tinham combinado contactar as empresas britânicas com ações em bolsa para as convencer a mencionar os riscos de um cenário Brexit nos seus relatórios anuais.

À data dessa carta e desse encontro, a 8 de fevereiro, a posição oficial de Cameron continuava a ser a de que iria fazer campanha pela saída da União Europeia se a negociação do pacote de reformas não redundasse nos seus objetivos. A 3 de fevereiro, o líder britânico tinha declarado na Câmara dos Comuns: "Não estou a dizer – nem nunca irei defender – que a Grã-Bretanha não pode sobreviver fora da UE. Se não conseguirmos assegurar estas reformas, não deixarei hipótese nenhuma de fora."

Cinco dias depois, onze antes de garantir "estatuto especial" para o país, a sua postura privada era diferente, conforme demonstrado na carta vazada: "Existem dois pontos [discutidos no encontro] que gostava de voltar a debater", escreveu Soames a Cameron. "O primeiro é como que iremos mobilizar as empresas para que tenham em conta os riscos que o Brexit representa. Estou a trabalhar com Peter Chadlington e Stuart Rose [líder da campanha Britain Stronger in Europe] para que contactem as empresas FTSE 500 que vão publicar relatórios anuais em junho e as convençam de que devem incluir o Brexit na lista de riscos-chave. Todas as empresas públicas serão obrigadas a incluir essa análise nos seus relatórios anuais."

O empresário em questão é neto de Winston Churchill e irmão do deputado conservador Nicholas Soames, crente europeísta que esta semana criticou publicamente Boris Johnson, o líder da campanha pelo Brexit dentro do partido no poder, pelo que diz ser uma "ginástica desonesta" para atrair votos a favor da saída da UE.

Referendo sem resultados previsíveis

Numa altura em que falta pouco mais de um mês para a consulta popular, as sondagens continuam a indicar que o país está dividido entre os que apoiam a permanência na União Europeia e os que querem saltar fora, não se conseguindo antever o resultado da votação para já.

Ao longo da campanha, Cameron e a barricada pró-Bruxelas foram sendo acusados de manipulação de dados e de fear-mongering, uma expressão sem equivalente em português que corresponde a espalhar o medo para alcançar objetivos, muitas vezes com pouca ou nenhuma base de apoio aos argumentos utilizados.

É improvável que todos os avisos que têm sido feitos contra o Brexit, por parte de líderes de outros países como Barack Obama e de organizações internacionais como a OCDE, sejam mera especulação com o intuito de amedrontar os britânicos. Mas o facto de Cameron ter mentido à população enquanto negociava com Bruxelas pode levar muitos indecisos a virar-se contra ele nas urnas.

"Sabemos agora que ele esteve a fazer acordos com empresários para exagerar o risco da votação pelo Reino Unido para abandonar a UE. George Osborne acusou a campanha Leave de inventar conspirações e agora vemos que David Cameron estava enfiado numa", acusa a deputada trabalhista Gisela Stuart, que lidera a campanha Brexit dentro do maior partido da oposição, citada pelo "The Independent". "Ele tem de nos dizer urgentemente com quantas empresas fez acordos secretos. Quem são elas e o que lhes foi prometido em troca?"

Para já, Cameron mantém-se em silêncio, com Downing Street a recusar-se a comentar as cartas secretas.

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