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Guterres quer liderar uma ONU que “fale mais alto e mais claro”

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Manuel Elias / ONU / Lusa

Candidato à liderança das Nações Unidas diz que em matérias relacionadas com a paz, segurança e os Direitos Humanos “é preciso falar mais alto e mais claro, para ter maior capacidade de mobilizar a comunidade internacional”

O candidato português a secretário-geral das Nações Unidas considera que a instituição tem "uma estrutura demasiado fragmentada", que tem de ser "renovada" para que possa falar "mais alto e mais claro" na resolução dos conflitos mundiais.

"Em algumas matérias, a ONU fez ouvir a sua voz, como no caso das alterações climáticas, mas noutras, sobretudo relacionadas com a paz e segurança e em certos aspetos com os Direitos Humanos, creio que é preciso falar mais alto e mais claro, para ter maior capacidade de mobilizar a comunidade internacional", diz António Guterres em entrevista à agência noticiosa espanhola Efe, esta terça-feira.

O antigo primeiro-ministro português, que ocupou o cargo de alto comissário da ONU para os Refugiados (ACNUR) durante uma década (2005 a 2015), declara na entrevista que a comunidade internacional perdeu "capacidade em matéria de prevenção e resolução" dos conflitos. "Vemos que os conflitos se multiplicam e, ao mesmo tempo, os velhos conflitos não terminam. E cada vez há uma maior interligação entre eles", alerta.

Sobre o conflito na Síria, Guterres considera que as Nações Unidas devem fazer mais para que todas as partes envolvidas encontrem uma solução. "Olhando para a Síria, vê-se claramente que aqueles que ali combatem não poderiam continuar a fazê-lo se deixassem de ter o apoio financeiro, em armas e a nível político, que algumas das potências globais ou regionais lhes dão", aponta.

Questionado sobre o terrorismo islamita, ligado a vários dos conflitos em curso no mundo, António Guterres reconhece que o uso da força é "muitas vezes absolutamente indispensável", sublinhando que os Estados "têm o dever moral e o direito legal" de a utilizar. Ainda assim, sublinha que para lutar contra este fenómeno os meios militares não bastam, sendo necessário ir até às "raízes que facilitam o recrutamento de gente desesperada por parte de organizações terroristas".

"Hoje existe um indiscutível progresso económico e tecnológico, mas as desigualdades aumentaram, sobretudo no interior de cada país, onde existem áreas de população que se sentem discriminadas (...). E isso leva a situações de revolta, de combate à sociedade, que explicam muitos movimentos radicais e terroristas", realça.

Sobre a organização interna da ONU, o político português mostra-se favorável a uma reforma do Conselho de Segurança, para que o órgão mais importante para o funcionamento das Nações Unidas se torne "mais eficaz e operacional". No entanto, escusa-se a avançar que tipo de estrutura defende para este órgão, e também não aborda o polémico poder de veto das cinco grandes potências: China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia.

Na entrevista à EFE, Guterres não esquece também a crise dos refugiados, considerando que é o reflexo da debilidade do projeto europeu. "Quando os projetos se debilitam, a consequência inevitável é que perdem peso e capacidade de intervenção na cena internacional", salienta, considerando "terrível" que a Europa não tenha sido capaz de encontrar uma solução comum.

António Guterres considera, por outro lado, que as "transições políticas" de Portugal, Espanha e da América Latina constituem um exemplo "e um impulso decisivo para a democracia no Mundo". "É importante que a ONU saiba dar valor a esta contribuição que a Iberoamérica deu ao mundo moderno", conclui.

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