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Sobreviventes da miséria alheia

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Getty

Serra de Guerrero. México. Milhares de famílias de uma região profundamente deprimida vivem da produção de papoilas vendidas nos Estados Unidos... e depois transformadas em heroína

Ganham a vida a plantar papoilas mas garantem que são, apenas e só, agricultores. Narcotraficantes? Nem pensar. Porém, é a partir das suas plantas que é fabricada cerca de 40% da heroína consumida nos EUA. Esta é a triste história de milhares mexicanos da Serra de Guerrero que, digam o que disserem, sobrevivem da miséria alheia.

Reconhecem que cultivar papoilas é ilegal e que vendem o produto do seu trabalho a organizações criminosas, que a partir dessas plantas produzem uma das drogas mais destrutivas da atualidade. Mas aos jornalistas do “El Mundo” respondem: antes isto que roubar. E adiantam que tal como se produz heroína também se pode fabricar morfina. Para fins medicinais. Em bom rigor, a segunda é produzida a partir da primeira.

“Chamam-nos ‘papoileiros’. Não gostamos. Mas sabemos que estamos a violar a lei e que é melhor cultivar papoilas do que roubar”, conta Juan Sánchez, morador em Petlacala, povoação do estado de Guerrero.

Dizem-se esquecidos pelo Governo. E explicam a produção de papoilas com a tradição. Alguns fazem-no há mais de 60 anos. Herdaram os campos de pais e avós. Esses mesmos campos de difícil acesso, que os helicópteros do Exército mexicano pulverizam com herbicidas para destruir as plantações. E deixá-los sem nada.

“Fomos esquecidos. Eles não fazem nada aqui na serra. Nada. Trabalhamos nisto porque não temos mais nada para fazer, e o Governo só vem cá para nos lixar”, afirma Noé Reyes, lamentando as incursões dos militares. Mas, afinal, quanto levam para casa com esta atividade que os ocupa durante metade do ano?

Por cada quilo de cápsulas, os produtores nunca recebem menos de 3000 pesos (cerca de 146 euros). Já um peão contratado por estes produtores para trabalhar nos campos e no que mais houver para fazer (oito a 10 horas por dia), leva para casa no final do mês 6000 pesos (cerca de 290 euros).

Claro que, como seria de esperar, os lucros de leão deste negócio vão parar aos bolsos dos narcotraficantes. Contam os jornalistas do “El Mundo” que um quilo de heroína no México custa mais de 630.000 pesos (cerca de 30.700 euros). Mas quando a droga chega aos Estados Unidos vale, pelo menos, o dobro. Estimativas do Governo norte-americano apontam mesmo para 2,3 milhões de pesos por cada quilo de heroína de grande qualidade.