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Imprensa chinesa em silêncio nos 50 anos da Revolução Cultural

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EM FRENTE? Na China, no período do Grande Salto em Frente (1958-1961), políticas agrícolas e catástrofes provocaram entre 15 e 36 milhões de mortos. Os casos de canibalismo terão sido muitos

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Pequim proibiu referências nos media ao 50.º aniversário da declaração de guerra de Mao Tsé Tung à “ditadura da burguesia”

Um dos eventos mais importantes e devastadores da história moderna da China está ausente da imprensa do país esta segunda-feira, no dia em que se marcam os 50 anos da famigerada Revolução Cultural ditada pelo regime de Mao Tsé Tung contra a "ditadura da burguesia".

A 16 de maio de 1966, há precisamente cinco décadas, o partido comunista chinês deu início à Grande Revolução Cultural do Proletariado, uma série de ações concertadas contra alegados golpistas que inaugurou um período de revoltas, luta de classes, derramamento de sangue e estagnação económica que só terminaria dez anos depois, com a morte de Mao Tsé Tung em setembro de 1976.

O evento com meio século está a ser totalmente ignorado pelos media chineses. Numa publicação no site Weibo, o blogger "Media Lao Wang" demonstrou o blackout nos media estatais ao publicar as primeiras páginas desta segunda-feira dos cinco maiores jornais da China continental — em nenhum há a mais pequena referência ao 50.º aniversário da mobilização em massa pela mão de Mao, sob estritas ordens do governo chinês e só alguns media de Hong Kong, onde existe mais liberdade de imprensa, é que contêm referências à efeméride.

"Os investigadores não podem aceitar dar qualquer entrevista relacionada com a Revolução Cultural”, denunciou ao jornal canadiano "The Globe and Mail" um estudioso deste período, em que Mao mobilizou as massas contra fações menos radicais dentro do partido comunista, que começavam a rebelar-se contra o status quo depois do falhanço das políticas económicas conhecidas como o Grande Salto Adiante, às quais se seguiu um período de fome extrema que vitimou milhões de pessoas.

Ao "The Guardian", Wang Youqin, autor de uma investigação de três décadas sobre as milhares de pessoas que perderam a vida às mãos da Guarda Vermelha nesses dez anos, acrescentou: "Eles [regime] julgam que se o lado negro da Revolução Cultural for exposto, as pessoas vão duvidar do sisrema político."

O que foi a Revolução Cultural?

A campanha foi lançada neste dia há 50 anos por Mao Tsé Tung para "limpar" o Partido Comunista e a sociedade chinesa de moderados que eram tidos como "rivais" da revolução chinesa; ao longo dos dez anos seguintes ditou a destruição quase total do tecido social da China.

A 16 de maio de 1966, Mao emitiu um documento formal onde era dada autorização aos jovens para que atacassem e destruíssem os quatro tipos de "inimigos da cultura chinesa": costumes, hábitos, cultura e pensamento. Ao longo de uma década foi instalada o que especialistas classificam de "tirania da juventude", durante a qual jovens dos mais variados estratos e setores, muitos deles adolescentes, destruíram escolas e templos, rebelaram-se contra os pais e forçaram o exílio de professores e intelectuais tidos como ameaças à China de Mao. Milhares de pessoas foram espancadas até à morte ou cometeram suicídio.

O negro e caótico período acabou oficialmente com a morte de Mao Tsé Tung em 1976. Milhões de pessoas foram denunciadas às autoridades e punidas pela sua oposição aos ideais do regime, não existindo até hoje uma estimativa concreta de quantas pessoas perderam a vida durante esses dez anos.