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Péter Gárdos: “A sociedade húngara é antissemita e racista”

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É realizador e fez do próprio filme um livro. Conta como os pais sobreviventes do holocausto, se encontraram na Suécia do pós-guerra. Nem sabia que era judeu — facto que hoje, diz, a Hungria lhe recorda diariamente

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

Texto

Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

Fotos

Fotojornalista

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Fez primeiro o guião do filme, mas vicissitudes várias levaram-no a escrever o primeiro romance. “Carta à mulher do meu futuro” (Alfaguara) — ou “Fever at Down”, na edição inglesa — baseia-se no maço de cartas que a mãe lhe entregou quando o pai morreu. Péter Gárdos leu-as numa noite, demorou 17 anos a digeri-las. Eram o vestígio mais palpável de uma história que até à adolescência lhe fora silenciada: a dos pais, libertados de Bergen-Belsen em 1945, e internados em hospitais da Suécia, onde se conheceram por correspondência, vindo a casar-se em Estocolmo um ano depois. Péter viria a nascer em 1948, em Budapeste, pois era ali, na cidade natal de ambos, que os pais queriam viver. O que torna crua e pertinente a pergunta que o realizador húngaro se coloca agora: será que a Hungria os queria a eles? Falou connosco em Lisboa, onde o seu filme foi exibido no âmbito do Festival Judaica.

Além de uma história pessoal, o livro é um retrato da vida dos sobreviventes no pós-guerra. Foi essa a sua intenção?
Eu queria escrever uma história de amor e homenagear de alguma forma os meus pais — em especial a minha mãe, que ainda é viva. Tinha decidido não me centrar no Holocausto, pois é preciso muito talento para mostrar o que aconteceu. Acontece que, decorrendo no pós-guerra, a tragédia do Holocausto não podia deixar de aparecer. Não é contornável.

No livro questiona quem eram estas pessoas, qual o seu estatuto. Eram migrantes, refugiados?
Não se sabia o que eram. Mas essa deve ser uma das poucas referências diretas ao Holocausto que encontrei nas cartas dos meus pais. Eles queriam esquecer. Claro que isso é impossível e que ambos carregaram com esse passado a vida toda. Por outro lado, li recentemente uma investigação realizada nos Estados Unidos sobre os filhos e os netos dos sobreviventes, onde se falava da forma como são afetados por esta experiência, ainda que não a tenham vivido.

O Péter está nesse grupo. Como viveu o passado dos seus pais?
Eu não sabia sequer que provinha de uma família judia e contam-se pelos dedos de uma mão a quantidade de vezes que a palavra ‘judeu’ foi pronunciada em casa. Aos dez anos, eu e uns colegas agredimos um rapaz à saída da escola, e o meu pai viu. Ao questionar-me sobre por que razão o tinha feito, eu disse-lhe com orgulho: “Porque é judeu.” Pela primeira vez, deu-me um estalo na cara. Perguntei-lhe a razão e ele respondeu: “Porque tu também és judeu.” Foi assim que eu soube que éramos judeus. Mais tarde, aos 15 anos, contaram-me que eram sobreviventes do Holocausto e que se encontraram na Suécia. Mais nada.

Quer dizer que, como em muitas famílias judias, o silêncio rodeou o tema dos campos de concentração.
Sim, mas há que contextualizar. Nessa altura, a Hungria vivia sob o regime de János Kadár [comunista húngaro no poder entre 1956 e 1988], que impedia a população, e em especial os judeus, de falar abertamente sobre o que acontecera na II Guerra. O pacto era: se quiserem viver aqui, ficam calados. Se aceitarem a nossa ideologia, não questionamos a vossa origem. O meu pai aceitou o acordo. Era jornalista, não falava línguas e, malgrado a insistência da minha mãe — em especial a partir de 1956 —, não queria sair do país. Pensava que não falar sobre o judaísmo significaria não voltar a ser segregado. Em 1989, com a mudança de regime, percebeu-se que isso era uma ilusão.

Porquê?
Porque a sociedade húngara é e sempre foi antissemita. A única diferença é que antes de 1989 não podia falar disso. Vou contar-lhe uma história: nesse ano fui assistir a um jogo de futebol, estava sentado no meu lugar a torcer pela minha equipa e alguém gritou: “Cala-te, judeu!” Ao meu lado havia um polícia, alertei-o de que estava a ser alvo de antissemitismo e pedi-lhe para identificar o outro senhor. O polícia disse que não tinha ouvido nada. Hoje em dia também é assim.

É possível hoje ser-se judeu na Hungria sem sentir discriminação?
Não, não é possível. A sociedade húngara é fortemente antissemita e racista. Não gosta de judeus, ciganos ou homossexuais. Porém, é preciso remontar às raízes deste comportamento. A Hungria foi dividida várias vezes e ocupada durante centenas de anos. E foi fácil arranjar uma explicação exterior para a tragédia do país. Uma grande parte da comunidade judaica entrou na Hungria no século XIX — muitos vieram da Rússia. Como não tinham muitas hipóteses, começaram a trabalhar no comércio, e em pouco tempo conseguiram uma posição confortável. Isto foi o suficiente para criar um ambiente de inveja e de ódio. Claro que havia um campo propício: no século XVIII, Maria Teresa obrigou os judeus a usarem uma fita amarela nos braços. E Hitler só nasceria 200 anos depois!

O seu pai tinha a função de queimar cadáveres no campo de concentração. A sua mãe chegou a esquecer o próprio nome. Como se relaciona com estes dados?
Fico chocado e profundamente triste ao pensar que os meus pais passaram por tudo isso. E demorei 17 anos a poder escrever sobre isto. Mas fui educado — como todos na minha geração — para ser contido e não fazer barulho. Por isso, fiz questão de transmitir o contrário à minha filha e aos meus netos: se alguém te agredir por seres judeu tens de reagir. Isto é uma grande mudança.

Choca-o ter de ensinar os seus netos a reagir a uma agressão?
Sim, choca-me, mas acontece. E têm de estar preparados para isso.

O que é que eles aprendem na escola sobre o papel da Hungria na II Guerra Mundial?
O que os húngaros aprendem nas escolas públicas é que só um pequeno grupo — uma parte da polícia e uma fação antissemita — colaborou com os alemães e que foram estes que fizeram o trabalho sujo. Que o resto da sociedade é inocente. Há um ano, foi inaugurada em Budapeste uma estátua para assinalar que a Hungria foi vítima da Alemanha. Quer dizer, não só ensinamos a história mal, como estamos a reescrevê-la.

Os seus pais eram refugiados de guerra. O que pensa sobre a atual crise dos refugiados e sobre o papel da Hungria nesta questão?
Tenho vergonha. A Hungria só se preocupou com erigir barreiras e não quis fazer parte de qualquer solução que a Europa pudesse encontrar. E o pior é que a sociedade húngara apoia este comportamento. É uma questão social que, infelizmente, também tem a ver com o antissemitismo: é o mesmo tipo de intolerância. Ninguém está interessado em falar sobre a realidade, nem sequer a imprensa. Para mim, que nasci em 1948 e atravessei toda a época comunista, é como se estivesse a acontecer o impensável.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 7 maio 2016