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O que é que Trump tem contra as mulheres?

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POLÉMICA. Donald Trump acompanhado da mulher, Melania, e da filha, Ivanka. No passado, o candidato causou polémica ao afirmar que se não fosse seu pai, namoraria com Ivanka: “Ela tem um óptimo corpo”

SPENCER PLATT / GETTY IMAGES

Trump insiste que é “o melhor candidato para as mulheres”, só que elas não acreditam - 70% das americanas não gostam dele e 47% das republicanas não votariam no multimilionário. A fraca popularidade de Trump junto do eleitorado feminino é um problema real que se arrasta sem solução à vista - pelo menos enquanto ele garantir que “a única coisa a favor de Hillary Clinton é o seu género” ou que “ninguém votaria” em Carly Fiorina: “Já viram aquela cara?”

É cada vez mais uma realidade: depois da desistência de Ted Cruz, que até agora parecia ser o mais sério oponente de Donald Trump, e de John Kasich, o multimilionário Donald Trump parece ter o caminho livre para se tornar o candidato conservador à Casa Branca. No entanto, relembram as sondagens e a imprensa estrangeira, continua a haver enorme problema que Trump terá de resolver de alguma maneira: é que as mulheres não gostam dele.

“Hillary Clinton está a jogar o trunfo de ser mulher como ninguém. Se Hillary fosse um homem, não conseguiria nem 5% dos votos. É a única coisa que joga a seu favor”, disparou Trump no final de abril, numa tirada que correu a internet (a expressão incrédula de Mary Pat, mulher do governador republicano Chris Christie e que assistia ao discurso mesmo atrás de Trump, transformou-se num vídeo viral). Hillary não demorou a responder: “Se lutar pelos direitos das mulheres na saúde, maternidade e igualdade salarial é jogar o trunfo de ser mulher, então eu aceito”.

As últimas sondagens que NBC e “Wall Street Journal” levaram a cabo em março espelham o descontentamento desta metade do eleitorado norte-americano: é que 70% das mulheres não gostam de Trump e 47% das republicanas “não se imaginam a votar nele”. E este pode ser um verdadeiro obstáculo no caminho que separa Trump da Casa Branca, detalha Katie Packer, líder do grupo antiTrump republicano Our Principles Pac, ao “Guardian”: “As mulheres que vão votar nas eleições gerais acham que ele é detestável. Acham que Trump é sexista, que não respeita as mulheres e que só quer saber da aparência delas”.

Esta impressão negativa que Trump tem vindo a conquistar junto do eleitorado feminino não é novidade. Sobre Clinton, Trump já disse que a candidata não tem autoridade para falar dos direitos das mulheres depois de ter perdoado a traição do marido, o antigo presidente Bill Clinton, com a então estagiária Monica Lewinsky. Noutra ocasião, Trump foi mais longe e republicou um tweet de um apoiante seu com a seguinte mensagem: “Se Hillary não consegue satisfazer o marido, como é que vai satisfazer a América?”.

Mesmo dentro da corrida à Casa Branca, Hillary Clinton, que além de ser mulher tem experiência política em cargos como os de primeira-dama e secretária de Estado, não foi a única mulher a tornar-se um alvo dos insultos de Trump. A antiga candidata republicana Carly Fiorina, que desistiu da corrida presidencial em fevereiro, viu a sua aparência física criticada por Trump quando o multimilionário questionou: “Já viram a cara de Carly Fiorina? Quem é que votaria naquilo?”. A mulher de Ted Cruz, Heidi, também não escapou às críticas do empresário, que publicou uma imagem desfavorecida dela ao lado de um ensaio fotográfico que Melania, a sua mulher (que é modelo) fez para a revista GQ, com a legenda “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

Nas últimas semanas, Trump tem dirigido um número de insultos a mulheres anormalmente grande, até para o seu costume (“se esta é a visão que Trump tem das mulheres, é melhor que saia dos anos 1950”, criticava há dias o “Guardian”): é que antes do comentário sobre o trunfo de Hillary vieram as críticas às mulheres que abortam, que “devem ser castigadas” - o comentário foi tão mal recebido que Trump depressa recuou -, e a agressão do responsável pela sua campanha, Corey Lewamdowski, a uma jornalista que tentou colocar uma questão a Trump (e a quem o candidato insistiu em chamar mentirosa mesmo depois de terem aparecido as fotografias do braço de Fields com nódoas negras e a gravação áudio do momento em que a agressão aconteceu).

Mas o histórico de Trump a dizer coisas pouco abonatórias para as mulheres é vasto e não é recente, como o Our Principles Pac fez questão de recordar num vídeo que publicou em março e que mostra mulheres a lerem citações de Trump como “mulheres: tratem-nas mal”. No verão passado, a misoginia de Trump começou a ser discutida nos media quando o candidato se referiu a Megyn Kelly, jornalista da Fox News que o interpelou num dos debates republicanos sobre o que ele faz em relação a mulheres: “Dava para ver que ela tinha sangue a sair dos olhos. Ela tinha sangue a sair... sabe-se lá de onde”.

Pistas mais antigas surgem do livro de 2006 “Trump 101: The way to success”, em que o multimilionário escrevia que “beleza e elegância, seja numa mulher, num edifício ou numa obra de arte, não são qualidades superficiais”, ou no seu concurso de empreendedorismo “The Apprentice”, quando argumentou que “todas as concorrentes” o tentavam seduzir e que as vitórias de concorrentes femininas se deviam em grande parte ao facto de serem “atraentes”.

Um dos desentendimentos mais famosos entre Trump e uma mulher deu-se quando o agora candidato não gostou de comentários de Rosie O'Donell, atriz, comediante e ativista dos direitos LGBT, sobre si: “Rosie é nojenta por dentro e por fora. Ela fala como um camionista. Se eu mandasse no ‘The view’ [programa do qual a atriz fazia parte], despedia-a mal olhasse para aquela cara feia e gorda”. Em 2012, a fundadora do “Huffington Post”, Ariana Huffington, também teve direito a um tweet pouco simpático: “É feia por dentro e por fora. Percebo perfeitamente porque é que o marido a trocou por um homem - foi uma boa decisão”.

As mulheres têm estado atentas e parece que não estão a gostar do que Trump, que no ano passado se autoproclamou “o melhor candidato para as mulheres”, tem para lhes dizer. Os números dizem que neste momento há 24% a 25% de mulheres solteiras nos Estados Unidos, um número que tem disparado nas últimas décadas, e que estas se inclinam tradicionalmente para o Partido Democrata - a juntar aos números de baixa popularidade de Trump entre as mulheres e particularmente entre as republicanas, é fácil concluir que este poderá ser um entrave para o aspirante a presidente.

Liz Mair, fundadora do grupo republicano Make America Awesome, já confirmou ao “Guardian” que se o partido democrata nomear Hillary Clinton, muitas mulheres conservadoras deverão dar à antiga secretária de Estado os seus votos por considerarem que a candidata é um mal menor. E a líder da Our Principles Pac, a republicana Katie Packer, resume o problema: “Não podes ganhar umas eleições quando tens resultados destes junto das mulheres. É devastador e insustentável para o Partido Republicano”.