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Governo de Temer: branco e sem nenhuma mulher

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ANDRESSA ANHOLETE/AFP/Getty Images

A composição do novo Governo ignora duas maiorias da população do Brasil: mulheres e negros. Michel Temer é o primeiro Presidente do Brasil a não incluir nenhuma ministra mulher desde 1979

Depois da confirmação dos 23 nomes que compõem o Governo de Michel Temer (PMDB) esta quinta-feira, vieram as reações: o gabinete ministerial do ex-vice-presidente de Dilma Roussef é 100% branco e masculino, o que já provocou reações reprovadoras por parte de alguns políticos do país, meios de comunicação e utilizadores das redes sociais . Temer assume as funções de Presidente interino do Brasil pelo menos durante seis meses e no âmbito do processo de destituição de Dilma Roussef, afastada temporariamente pelo Senado para ser politicamente julgada pelos crimes de responsabilidade de que é acusada.

Com o novo Governo, Michel Temer torna-se assim o primeiro Presidente a não incluir nenhuma mulher ministra desde Ernesto Geisel (1974-1979), revertendo uma tendência crescente que teria o seu início com João Figueiredo (1979-1985), que nomeou a primeira ministra da história brasileira, Esther de Figueiredo Ferraz. E ignora duas maiorias da população brasileira, as mulheres (51,5%) e os negros (54%).

“É embaraçoso ver que a maioria das escolhas para o gabinete ministerial de Temer sejam homens velhos e brancos”, declarou ao “The New York Times” o analista político Sérgio Praça, da Fundação Getúlio Vargas. Praça contrastou este Governo com o do primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau, que formou um Governo no qual metade dos 30 ministros são mulheres, refletindo ainda uma diversidade de representação étnica e social.

Apesar de ter constituído um Governo 100% masculino, Michel Temer tentou incluir uma única mulher: a ex-ministra do Supremo Tribunal Federal Ellen Gracie para assumir a Advocacia Geral da União, que recusou o convite.

Mulheres: apenas “belas, recatadas e do lar”?

A ausência de mulheres no Governo do atual Presidente interino do Brasil não foi vista com bons olhos por grande parte da população. A deputada Manuela d'Ávila usou a sua página de Facebook para registar uma crítica à ausência de mulheres à frente dos ministérios, servindo-se da imagem da mulher do atual Presidente, Marcela Temer, descrita recentemente numa reportagem como “bela, recatada e do lar”. “Até agora o Governo do golpista Temer será o primeiro desde Geisel sem nenhuma mulher ministra”, escreveu. “Mulheres apenas quando belas, recatadas e do lar.”

Também organizações da sociedade civil e de luta pelos direitos das mulheres manifestaram a sua desaprovação, igualmente expressa nas redes sociais, onde “machista”, “misógino” e “sem representatividade social” são expressões utilizadas para classificar o novo Governo, que substitui o de Dilma Roussef, onde existiam seis ministras mulheres.

E nem Dilma Roussef se deixou ficar: “É lamentável que após tantos anos não existam neste gabinete ministerial mulheres e negros. Num Governo é importante existir inclusão não só do ponto de vista social, mas também cultural e ao nível dos direitos humanos.”

Fontes próximas do Presidente afirmaram, no entanto, que Temer não impõe quaisquer restrições à participação de mulheres no seu Governo. “Temer está muito atento a esta questão”, disse ao jornal “A Folha de São Paulo” Gaudêncio Torquato, seu amigo e consultor político.

  • Conservador, recatado e presidente. Começaram os seis meses de fama de Temer

    Membro do conservador PMDB, o novo presidente interino do Brasil é acusado pela esquerda de liderar o golpe que levou à suspensão de Dilma Rousseff. Sem a legitimidade das urnas e sem o apoio dos eleitores, que na sua maioria não o querem na presidência, o homem que até agora estava praticamente limitado ao protagonismo da mulher “bela, recatada e do lar” tem 180 dias para ganhar notoriedade. Muitos antecipam que vai entrar para os anais como o político que ditou uma viragem do Brasil à direita depois de uma década de políticas progressistas