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Novas regras anticorrupção “vão afastar produtores de riqueza de Londres”

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AFP

Agente do sector imobiliário de luxo diz que muitos dos seus clientes vão vender as mansões que detêm na capital londrina por já não poderem manter as suas identidades secretas através de empresas e contas bancárias offshore

Investidores internacionais milionários que detêm propriedades em Londres irão muito provavelmente vender algumas ou todas as suas mansões e penthouses após o governo conservador de David Cameron introduzir novas regras anticorrupção na sequência do Panama Papers que têm como objetivo reduzir o sigilo offshore.

De acordo com Trevor Abrahamson, agente do setor imobiliário de luxo ao "The Guardian", oligarcas, multimilionários da tecnologia e magnatas de media de todo o mundo que têm investido em casas de luxo em Londres nos últimos anos vão abandonar os planos de comprarem mais casas na capital britânica, porque já não poderão manter a sua identidade secreta ao recorrerem a empresas offshore nesses negócios.

Sob as novas regras anunciadas por Cameron na quinta-feira, num artigo de opinião publicado no mesmo jornal para antecipar uma cimeira anti-corrupção que vai ter lugar em Londres, passa a ser obrigatório que qualquer empresa estrangeira que adquira propriedades no Reino Unido se junte a um registo público sobre reais detentores de empresas — o que, aponta o dono da Glentree Estates, deverá levar muitos investidores a desistirem do setor imobiliário londrino.

Segundo Abrahamson, que já vendeu propriedades de luxo a milionários da Rússia, da Nigéria e da China, as novas regras britânicas para investimentos no setor imobiliário vão levar muitos "criadores de riqueza" a deixar de fazer negócio em Londres, já que "metade" dos seus clientes, aponta o agente, compra propriedades londrinas através de empresas offshore com sede nas Ilhas Caimão ou nas Ilhas Virgens Britânicas.

Das cerca de 100 mil propriedades no Reino Unido que são detidas por empresas estrangeiras, mais de 44 mil estão situadas em Londres. Uma em cada três mansões da Bishops Avenue, considerada por muitos como "a rua dos multimilionários", no norte de Londres, são detidas por empresas offshore, com muitos dos apartamentos em condomínios e bairros de luxo a serem detidos por empresas com sede em paraísos fiscais que escondem a identidade dos seus reais proprietários.

"Provavelmente vão vender" as casas que já têm assim que as novas regras entrarem em vigor, diz Abrahamson. "A privacidade é importante para alguns dos meus clientes. Eles têm as suas razões boas e legítimas, por exemplo, para garantir a segurança das suas famílias. Não são apenas oligarcas mas boas pessoas que simplesmente não querem estar na ribalta. Pode ser um detentor de uma empresa de media nos EUA ou um bilionário da internet que não querem ser expostos. Esta [política] classifica todos os que querem a sua privacidade de criminosos. Não podemos dar-nos ao luxo de fazer isto e de repelir os criadores de riqueza", defende o agente imobiliário.

Para Downing Street, a nova legislação é necessária para garantir que "indivíduos e países corruptos deixarão de poder movimento, lavar e esconder fundos ilícitos através do mercado imobiliário de Londres".

Na próxima semana, a capital britânica acolhe uma cimeira anticorrupção marcada há mais de um ano que ganhou destaque redobrado no âmbito do escândalo Panama Papers, revelado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) e seus parceiros, entre os quais se inclui o Expresso, e que tem por base 11,5 milhões de ficheiros internos da sociedade de advogados panamiana Mossack Fonseca — especializada em ajudar milionários, grandes empresas, políticos, celebridades e criminosos a abrir empresas e contas bancárias em paraísos fiscais.