Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Grécia: alívio da dívida começa a ser discutido

  • 333

O ministro grego das Finanças Euclid Tsakalotos e o presidente do Eurogrupo Jeroen Dijsselbloem antes da reunião desta tarde em Bruxelas

FRANÇOIS LENOIR / Reuters

Eurogrupo começa a debater o “como”, o “se” e o “quando” sobre o alívio da dívida grega. Decisões só depois de uma análise técnica. Impasse no encerramento da primeira avaliação mantém-se também por causa do Plano B exigido a Atenas

Os ministros das Finanças da zona euro começaram finalmente a discussão difícil sobre o alívio da dívida grega. O tema é delicado mas é também uma condição imposta pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para entrar financeiramente no terceiro resgate à Grécia. Desde agosto que só os europeus têm feito transferências para Atenas.

“Vamos discutir o ‘quando’, o ‘se’ e o ‘em que condições’ o alívio da dívida poderá acontecer, e se isso é necessário”, disse à entrada para a reunião o presidente do Eurogrupo. Jeroen Dijsselbleom é prudente nas palavras e avisa que do encontro desta segunda-feira ainda “não saem decisões”, sendo necessário esperar “por que mais trabalho técnico seja feito” sobre a sustentabilidade da dívida grega. O objetivo é voltar ao assunto na próxima reunião de 24 de maio.

Os países da moeda única são os principais credores da dívida grega e é a estes que o FMI tem pedido insistentemente para que pensem numa forma de aliviar o fardo do governo grego, aumentando as probabilidades de Atenas não falhar os compromissos financeiros. Sem esta medida, o Fundo liderado por Christine Lagarde deverá continuar a não querer emprestar dinheiro à Grécia.

“No verão passado, tínhamos dito que a questão do reescalonamento da dívida, ou do seu alívio, poderia ser alcançada se a Grécia fizesse reformas credíveis”, recordou o comissário com a pasta dos Assuntos Económicos. Pierre Moscovici diz que está na altura de começar falar sobre o tema e adianta que a Comissão está disponível para dar o seu contributo.

Moscovici fala ainda na necessidade de se chegar a “um acordo global”, que inclui para além da renegociação da dívida um pacote de reformas e um plano de contingência caso as contas gregas voltem a derrapar.

Sem os três elementos não há encerramento da primeira avaliação do terceiro resgate, nem desembolso de uma nova tranche que deverá ultrapassar os cinco mil milhões de euros. Aumenta a pressão sobre a Grécia, que começa a ver os cofres mais vazios a cada mês, tendo de pagar vários milhões ao FMI em junho e ao BCE em julho.

A discórdia em torno do plano de contingência

À desconfiança que o FMI tem sobre a sustentabilidade da dívida grega – que segundo as previsões da Comissão Europeia deverá chegar este ano muito perto dos 200% do PIB – junta-se a dúvida de que o país consiga atingir em 2018 um excedente orçamental primário de 3,5% do Produto Interno Bruto, com o qual se comprometeu em julho passado.

As previsões do Fundo Monetário Internacional apontam para que fiquem mais perto dos 1,5% do PIB. Por isso, a instituição tem pressionado os parceiros europeus para que peçam à Grécia que prepare já um plano de contingência do valor de mais de três mil milhões de euros (2% do PIB). Um “Plano B” que esteja pronto a ser usado caso seja necessário.

O problema é que ainda faltam dois anos para 2018 e o governo grego já fez saber que não pode legislar medidas específicas antecipadamente, e que insistir nesta ideia pode trazer mais problemas políticos internos. Em contrapartida, o governo do primeiro-ministro Alexis Trispras propõe um mecanismo mais genérico que possa ser acionado em caso de necessidade. Moscovici sai em defesa do argumento grego.

"A Comissão é da opinião que temos em cima da mesa uma proposta grega que vai na boa direção. Ela propõe, tal como pediu o Eurogrupo, um mecanismo que seja legislado, automático e credível”, diz o comissário, adiantando porém que o mecanismo “pode ser melhorado tecnica e politicamente”.

“O FMI é mais cauteloso, mais conservador do que os parceiros europeus”, admitiu esta segunda-feira Dijsselbloem aos jornalistas, ao mesmo tempo que tentava relativizar as divergências e tensões entre o Fundo e o Eurogrupo. “Se o FMI estiver certo, o plano de contingência é ativado e é para isso que temos o plano de contingência”, concluiu.

A reunião extraordinária deste segunda-feira deverá servir para pressionar um pouco mais o governo grego, tranquilizando assim o FMI, e, ao mesmo tempo acenando a Atenas com a possibilidade de uma alívio da dívida.

E que alívio será este? Um perdão, ou corte nominal, está fora de questão. Isso mesmo já foi várias vezes dito pelos ministros da zona euro e repetido pela Comissão Europeia. Mexer nos juros também não parece opção, uma vez que isso implicaria perdas para os países credores.

O Mecanismo Europeu de Estabilidade – o fundo de resgate da zona euro – tem emprestado dinheiro à Grécia a taxas de juro semelhantes às que consegue a junto dos mercados.

Um alívio poderá assim passar por mexidas nos prazos de pagamento e nos períodos de graça.