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“Ou UE forte ou viragem à direita”

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Uma líder aguerrida, hábil no discurso e eficaz a ganhar votos

John MacDougall / AFP

Entrevista a Frauke Petry, dirigente da Alternativa para a Alemanha (AfD)

Tiago Carrasco

A líder do partido de extrema-direita alemão AfD (Alternative für Deutschland) quer acabar com o euro e deportar 800 mil imigrantes. Tem cada vez mais apoiantes e obteve resultados históricos nas últimas eleições federais. No Parlamento Federal da Saxónia, nas traseiras da majestosa Ópera de Dresden, as hostes do AfD vivem a euforia da vitória nas regionais de março: 24% na Saxónia-Anhalt, 15% em Baden-Württemberg e 13% na Renânia-Palatinado. O melhor resultado da direita nacionalista alemã desde o fim da II Guerra Mundial.

Frauke Petry, engenheira química e empresária de 40 anos, é a cara deste crescimento supersónico. Três semanas antes do congresso do partido esperámos 40 minutos por ela e falámos entretanto com o porta-voz do partido, Andreas Harlaß: “Em Portugal têm muitos imigrantes muçulmanos? Não? Sorte a vossa”, começou. Seguiu-se um rol ideológico sobre islamização do Ocidente, a falta de integração dos muçulmanos, os seus hábitos pouco higiénicos e o seu plano estratégico de conquistar a Europa através da reprodução em série.

Petry tenta ser mais moderada. Alega que o AfD é uma instituição democrática e pluralista, defende o fim do euro, “demasiado forte para Portugal e demasiado fraco para a Alemanha”. Quer acabar com o espaço Schengen para ter as fronteiras externas e internas constantemente vigiadas. A conversa centrou-se na imigração. Petry seguiu a estratégia contraditória que tem resultado: demarcação da ideologia xenófoba mas ataque cerrado à cultura islâmica.

Disse ao jornal “Manheimmer Morgen” que os guardas fronteiriços deviam ser autorizados a usar armas contra os imigrantes ilegais para proteger as fronteiras alemãs. Não é incitamento à violência?
Eu só disse o que está na lei alemã e essa lei que diz que é legítimo o uso de armas como última opção. As patrulhas fronteiriças devem decidir que medida aplicar.

Esses agentes obedecem a instruções para disparar para o ar ou sobre um refugiado, certo? Que instruções daria no caso de uma entrada em massa de imigrantes?
Primeiro, temos de emitir um sinal político para os países de origem, alertando que a Alemanha não pode receber mais gente. Depois, temos de proteger as nossas fronteiras, tal como 26 dos 28 países da UE já decidiram fazer. Se não conseguirmos proteger as fronteiras com mensagens políticas só poderemos fazê-lo com policiamento. As regras estão na lei. O problema é que a chanceler Angela Merkel convidou todo o mundo a vir para cá e nem sequer estamos a aplicar a lei que prevê que todos os que sejam encontrados sem passaporte, mesmo que não tenham entrado ainda em território alemão, possam ser detidos e deportados. Pelo contrário, enfiam-nos num autocarro e levam-nos a um centro de acolhimento. É ilegal e o nosso Governo está a violar a lei.

Está ligada ao Pegida (Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente)?
As pessoas que vão para a rua manifestar-se devem ser levadas a sério.

Falo do movimento em si e do seu líder, Lutz Bachmann?
Temos de distinguir os organizadores dos manifestantes. Não concordamos a 100% com os organizadores.

Então não partilha da opinião de Lutz Bachmann, para quem os refugiados são “gado e lixo”?
Ele não é um dos nossos.

Mas as pessoas vão às manifestações do Pegida para ouvi-lo dizer estas coisas. Como é que vocês apoiam essas pessoas e não apoiam Bachmann?
Os media só pegam em algumas frases problemáticas e deixam de fora o resto que é dito nas manifestações. Conheço muitas pessoas que dizem que continuam a manifestar-se, não por Lutz Bachmann, mas apesar de ele lá estar. Faz diferença...

Em duas manifestações do Pegida a que fui, vi neonazis no meio dos cidadãos de classe média que o seu partido considera base de apoio. Conta com os votos deles?
Não, não precisamos deles. Há grupos radicais em qualquer democracia, à direita ou à esquerda. Na Alemanha representam 3% da população. O que um partido democrático tem de fazer é dar hipótese a esses grupos de votar num partido democrático e não numa organização extremista.

Surpreendeu-me que manifestantes moderados convivam com gente tatuada com símbolos nazis...
Não podem expulsá-los, seria ilegal. Desde que estes grupos não violem a lei, ninguém pode tirá-los das ruas.

Mesmo com suásticas nos braços?
Se mostrarem símbolos nazis podem ser expulsos, mas se os esconderem não se pode fazer nada. E a democracia precisa de viver com os extremistas.

Não é demasiado perigoso para se deixar andar?
Como assim?

Perigoso ao ponto de tentarem incendiar mais de 30 asilos e campos de refugiados nos últimos meses!?
Os que foram apanhados foram julgados, não foram? É isso que tem de acontecer. Se alguém cometer um crime, tem de ser punido.

Muitos não são capturados e há ataques semanais.
Acho que se deve aplicar um sistema que julgue estas pessoas rapidamente para mostrar ao povo que a justiça funciona.

Há enormes problemas entre os ativistas de esquerda e o Pegida. Eu testemunhei um ódio de morte...
Há muitos problemas com extremistas de esquerda Até mais do que com os de direita.

Numa entrevista que fiz a Tatjana Festerling, dirigente do Pegida e ex-membro do seu partido, ela disse: “Haverá sangue se nada mudar.” Concorda?
Ela tem razão. Se não arranjarmos soluções pacíficas para a crise da imigração vamos ver incidentes criminosos e problemas com mulheres, com raparigas a serem assediadas, roubos, vandalismo. Claro que as pessoas se vão radicalizar se o Governo não solucionar os seus problemas.

Uma das dirigentes do AfD, Beatrix von Storch, disse que “o islão é uma ideologia política incompatível com a nossa lei” e que é favorável à proibição de “minaretes, muezzins e uso do véu”. Como reage?
Está em curso uma discussão sobre o islamismo e isso está a enriquecer a democracia porque ouvimos opiniões antes ignoradas. O que todos os antieuropeus devem ter em mente é isto: sem uma União Europeia forte, aparece uma Alemanha descontrolada que se torna radical. Talvez outros países possam controlar o nacionalismo de direita. A Alemanha não.

Fala muito sobre o islão. Não deveria ter mais contacto com muçulmanos?
Não preciso! Basta ouvir tudo o que é dito sobre o islão pelos seus representantes na Alemanha porque eles dizem claramente o que planeiam fazer. Olhe-se para a sharia (lei islâmica literal), para a maneira como as muçulmanas são tratadas, olhe-se para o que se mostra do Daesh... Nada disso encaixa na democracia europeia. Não estou a falar de muçulmanos integrados, é interessante que nenhum dos integrados siga um islamismo radical.

Para si não há diferença entre um refugiado de guerra e um requerente de asilo de um país sem conflito?
Não, porque no fundo são todos requerentes de asilo, uma vez que há uma lei europeia que os coloca a todos no mesmo saco.

Se estes refugiados não fossem muçulmanos, mas hindus, judeus ou budistas, o seu discurso contra a imigração ilegal seria o mesmo?
Sim, há um problema de base com a imigração ilegal. Trata-se de um número avassalador de pessoas com um contexto cultural diferente, que está na raiz dos problemas.

Se o AfD chegasse ao Governo, qual seria a sua política para a imigração?
A Alemanha recebeu 1,2 milhões de requerentes de asilo em 2015, com muitos casos não registados e de origem indeterminada. Aqueles que receberam asilo temporário devem aproveitá-lo bem antes de voltarem aos países de origem. E devem usufruir de todo o apoio para aprender alemão, trabalhar e ter educação secundária. Segundo as estatísticas, pelo menos dois terços dos requerentes não vão obter o estatuto de residência e terão de voltar para casa o mais rápido possível.

Falamos da deportação de 800 mil pessoas?
Sim.