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Coreia do Norte só usará armas nucleares em situações de ameaça à soberania do país

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ED JONES/AFP/Getty

O líder norte-coreano Kim Jong-un afirmou que o país irá cumprir “fielmente” as suas obrigações de não-proliferação e luta pela estabilidade mundial

Helena Bento

Jornalista

O líder norte-coreano Kim Jong-un garantiu que a Coreia do Norte não vai recorrer a armas nucleares a não ser em situações de ameaça à soberania do país. Kim, que discursava perante milhares de delegados de todo o país no VII Congresso do Partido dos Trabalhadores, que decorre desde sexta-feira em Pyongyang, afirmou também que o país irá cumprir “fielmente” as suas obrigações de não-proliferação e luta pela estabilidade mundial.

“A nossa República não vai usar armas nucleares a menos que a sua soberania seja posta em causa por forças hostis agressivas com recurso a armas nucleares”, afirmou o líder, citado pela agência de notícias estatal KCNA. E acrescentou: “É objetivo do nosso partido construir um mundo pacífico, sem guerra (…) e lutar pela paz e segurança regionais e mundiais”.

É a primeira vez, em 36 anos, que o congresso do partido único da Coreia do Norte se reúne. Milhares de delegados e mais de 100 jornalistas rumaram a Pyongyang, capital do país, para participar no evento histórico que começou na manhã de sexta-feira na Casa da Cultura 25 de Abril, data que evoca a fundação do Exército norte-coreano.

De acordo com um relatório dos trabalhos do Comité do Partido, tornado público este domingo, Kim Jong-un apresentou durante o congresso uma estratégia a cinco anos (2016-2020) para estimular o crescimento económico da Coreia do Norte. Kim sublinhou a necessidade de resolver o problema enérgico do país e apostar na agricultura e indústria ligeira como forma de melhorar a vida dos cidadãos. O plano, de que não foram apresentados quaisquer detalhes, vem, à partida, contrariar as vozes que davam como certo que este encontro serviria apenas para reafirmar as aspirações nucleares do regime e cimentar a liderança de Kim à frente dos destinos do país, depois de o “Rodong Sinmun“, jornal dos trabalhadores, o ter consagrado como o “Grande sol do século XXI”.

Mas as reservas mantêm-se e os analistas não têm dúvidas de que Kim Jong-un está interessado noutros voos. Para Bruce Bennett, analista da Pardee Rand Graduate School, instituição de ensino norte-americana, o objetivo desta aparente alteração de prioridades é levar os Estados Unidos a retirar as suas tropas da península coreana para que o norte possa depois atacar o sul e, assim, consolidar o seu poder numa fase de grande instabilidade interna. “Kim Jong-un diz que não vai usar armas nucleares a não ser em caso de ameaça, mas o objetivo do congresso é consolidar o seu poder. Ele já está sob ameaça interna”, afirmou o analista, citado pelo britânico “Guardian”.

“Uma purga a este nível sugere que estamos perante alguma agitação interna”, referiu Victor Cha, especialista do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) de Washington, também citado pelo jornal britânico.

O último congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia, em 1980, durou quatro dias. Kim Jong-un ainda não era nascido. O seu pai, Kim Jong-il, foi então designado como o sucessor de Kim Il-sung, fundador do regime.