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Terramoto político na Turquia

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ADEM ALTAN/Getty

O Presidente Erdogan força o primeiro-ministro Davutoglu a demitir-se

O líder do Executivo turco Ahmet Davutoglu anunciou disse esta quinta-feira irá sair da liderança do partido – e portanto do Governo. Em conferência de imprensa, defendeu o seu mandato e o seu trabalho, enumerou os seus diversos êxitos e feitos, defendeu o Presidente Recep Tayyip Erdogan e a sua honra, mas sugeriu, indiretamente algumas vezes, ter sido forçado a sair e que o faz para manter a unidade do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, islamita moderado, no poder há 13 anos).

A demissão vem na sequência de divergências com Erdogan. Uma reunião entre os dois líderes esta quarta-feira à noite não terá sanado as diferenças e Davutoglu foi forçado a demitir-se. Antes da reunião, Erdogan já tinha dado o mote: “O que é importante é não esquecer de onde se veio para ocupar a posição atual, o que é necessário fazer quando se está lá, e quais são os objetivos”, disse o Presidente. O AKP irá realizar um congresso extraordinário no dia 22 de maio e Davutoglu não será candidato.

Entretanto, a lira turca afundou-se – desceu 4,5% esta noite.

As divergências entre Davutoglu – que foi conselheiro de Erdogan quando este era primeiro-ministro e foi escolhido por ele para líder do Executivo quando este assumiu a presidência - e Erdogan são conhecidas e têm crescido nos últimos tempos. Erdogan insiste numa alteração de regime para uma presidência executiva, arrasa e pressiona todos os críticos, incluindo jornalistas, e continua com as suas teorias da conspiração anti-europeias, enquanto Davutoglu tem assumido uma postura mais democrática, menos beligerante.

Os primeiros sinais de crise surgiram no fim da semana passada, quando o comité central do AKP decidiu tirar ao líder do partido o direito a nomear os líderes distritais, quando Davutoglu estava numa visita de Estado ao Qatar. Desde então, blogs e a imprensa próxima a Erdogan começaram a sugerir que Davutoglu começava a ser um “elo fraco” na cadeia, um “traidor interno” próximo dos conspiradores estrangeiros que planeiam continuamente atacar a Turquia.

A convivência entre Davutoglu e Erdogan não tem sido fácil, devido às contantes intervenções executivas do presidente, numa liderança bicéfala. Enquanto a atual Constituição dá um papel mais representativo ao presidente, Erdogan impôs logo desde o início do seu mandato uma presidência executiva de facto, nomeadamente convocando e liderando conselhos de ministros, num claro desrespeito pelo papel de Davutoglu, que teve sempre de assumir um papel mais secundário.

Com o tempo, várias linhas de fratura apareceram entre os dois líderes. Davutoglu era o “polícia bom”, o moderado, que negociava com a UE – o acordo sobre refugiados foi sua obra, impunha uma política económica mais ortodoxa (Erdogan quer baixar as taxas de juro para promover o crescimento), e era mais moderado nas suas críticas. Erdogan, por seu turno, era o “polícia mau”, arrasava frequentemente a Europa e o Ocidente, acusando-os de estarem por detrás de uma campanha anti-Turquia, e de serem anti-Islão, e tentava manietar e calar todos os seus críticos, mesmo usando a Justiça - o presidente estará por trás da recente vaga de detenções e expulsões de jornalistas turcos e estrangeiros.

Os apoiantes de Erdogan também criticaram a posição demasiado discreta de Davutoglu quanto à presidência executiva – o primeiro-ministro nunca a defendeu ativamente. Erdogan não terá gostado da linha que Davutoglu tomou relativamente ao levantamento da imunidade parlamentar dos deputados. O presidente queria que os deputados curdos fossem investigados devido ao seu alegado apoio aos separatistas curdos do PKK – com um olho na dissolução do partido curdo e nos ganhos eleitorais, para poder aprovar no parlamento uma Constituição que solidificasse a presidência executiva, mas Davutoglu preferiu o levantamento da imunidade para todos os deputados. Esta proposta foi entretanto aprovada na comissão parlamentar e será votada em plenário mais tarde - numa abordagem menos sectária e mais democrática.

O país estará pois em limbo até ao congresso extraodinário do AKP, que decorrerá ainda este mês. Os principais candidatos à liderança do partido, e eventualmente à chefia do Governo, parecem ser o ministro dos Transportes, Binali Yildirim, muito próximo de Erdogan, ou mesmo o ministro da Energia, Berat Albayrak, que é casado com uma filha do presidente. Resta ainda saber a estratégia de Erdogan relativamente a eleições antecipadas – agora, ou para mais tarde?

[Notícia atualizada às 13h22]