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Tristeza, medo e desconfiança uma semana após mortes em posto militar em Cabo Verde

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Monte Tchota continua cercado pelos militares

Décio Barros/REUTERS

Uma semana após a morte de 11 pessoas no posto militar de Monte Txota, em Cabo Verde, a tristeza, o medo e desconfiança são ainda os sentimentos dominantes entre os moradores de Rui Vaz, a localidade mais próxima

Monte Txota, antigamente denominado por Monte Gamboa, faz parte da localidade de Rui Vaz, no concelho de São Domingos, noroeste da ilha de Santiago e dista cerca de 30 quilómetros e 45 minutos de carro da cidade da Praia.

Para lá chegar a partir da capital cabo-verdiana, percorre-se por 20 minutos uma estrada asfaltada e relativamente plana até São Domingos e desvia-se depois em direção a Rui Vaz, a localidade mais próxima, já numa zona de montanha, sempre a subir.

Chega-se a Rui Vaz, a cerca de 800 metros de altitude, uma comunidade com cerca de 500 habitantes, que vive sobretudo da agricultura e da criação de gado, e onde pontua um dos empreendimentos turísticos mais visitados de Santiago, a Quinta da Montanha.

Vera, 25 anos, proprietária de uma pequena mercearia em Rui Vaz, respira fundo antes de começar a falar do que aconteceu há uma semana em Monte Txota. Mas a conversa flui normalmente quando recorda a rotina dos soldados na localidade.

"Via-os sempre a passar aqui na estrada a fazer corrida", recorda, adiantando que os militares eram simpáticos, pediam água, mas não se recorda de alguma vez lhes ter vendido alguma coisa.
"Talvez em outras lojas, mas aqui nunca compraram nada", prosseguiu a jovem, dizendo, que depois das mortes não se vai afastar dos miliares, mas vai passar a vê-los "com outros olhos".

Na última casa da localidade mora a senhora Zina Landim, 74 anos, com o marido e um neto. A maioria dos filhos do casal está emigrada. Há 50 anos a viver na zona, a septuagenária tenta ainda perceber o que aconteceu e garante que ainda tem medo de sair à rua.

O principal suspeito dos assassinatos é Entany Silva, também militar no destacamento e que já está detido, mas a senhora Zina disse esperar que "algo do género não volte a acontecer".

É o que também espera Sara, 22 anos, também moradora em Rui Vaz e empregada na casa da senhora Zina. A jovem não larga os seus afazeres. Mas vai recordando que estudou o 7.º ano no liceu de São Domingos com Mário Stanick, um dos oito soldados mortos no destacamento.

Inconformada, Sara, que estudou até ao 9.º ano, disse que o colega, natural do mesmo concelho, era tão tímido que os outros gozavam com ele, apanhavam as suas coisas, sem que este reagisse. "Era sorna", brincou, ao mesmo tempo que lamentou a morte trágica do jovem de 21 anos.

Depois de Rui Vaz, continuando a subir, chega-se à residência de férias da Presidência República de Cabo Verde, onde no dia em que foram descobertos os mortos - oito soldados e três civis, dos dos quais de nacionalidade espanhola - a polícia montou um perímetro de segurança, impedindo a subida de jornalistas e populares até ao monte.

A casa, que não tem sido usada, está em obras e é lá que trabalha como guarda, desde 1992, Elias da Veiga Ramos, mais conhecido por Zezé, de 59 anos.

Recorda que antes de ser transferido para Monte Txota, o posto militar funcionava na residência, mas nos anos 1990 o então Presidente António Mascarenhas Monteiro decidiu enviar os militares para o monte.

Zezé Ramos, que guarda a residência em turnos com um filho e um sobrinho, disse que entrou de serviço no dia 25 de abril à tarde e que ninguém, inclusive o sobrinho que o antecedeu, tinha visto e muito menos ouvido alguma coisa de anormal, já que "fazia muito vento naquele dia".

Em mais de 20 anos de serviço, Zezé recorda que já viveu outros momentos conturbados na casa, como roubos, e que os familiares já lhe pediram para deixar aquele trabalho.

"Mas tenho que sobreviver", explicou, dizendo que apesar de o motivo das mortes ter sido um desentendimento entre o suspeito e os colegas, já vê a tropa "com alguma desconfiança".

O guarda disse que do anterior grupo conhecia apenas o sargento responsável pelo posto e que não havia muito tempo para ter muitas ligações com os soldados, uma vez que antes permaneciam no local por um mês, passando para 15 dias e agora é por apenas uma semana.

Disse também que o local é muito frequentado por turistas nacionais e internacionais, sobretudo no verão, mas que isso não tem acontecido desde as mortes de há uma semana. Porém, espera que isso não belisque a beleza e tranquilidade da zona, eminentemente turística.

Depois da casa de férias do chefe de Estado, sobem-se algumas dezenas de metros, numa estrada coberta por imponentes pinheiros e eucaliptos até chegar ao destacamento de Monte Txota, um miradouro de Santiago, com 1.050 metros de altitude, perto do Pico de Antónia, o ponto mais alto da ilha, com 1.394 metros.

No local, onde além de várias localidades de São Domingos a vista alcança até à Assomada, Picos e Órgãos, já se encontra outro grupo de militares a guardar as sete torres com antenas da rádio, televisão e telecomunicações, naquele que é considerado o ponto nevrálgico das telecomunicações do país.

Uma placa, o portão azul, as enormes torres e um soldado com arma em punho anunciam a chegada a Monte Txota, mas não é permitida e entrada sem autorização no destacamento, que é vedado por uma parede com quase dois metros de altura e arame farpado.

O silêncio é quebrado pelo som dos pardais e do vento nas copas das árvores. No local, nada lembra os trágicos acontecimentos de há uma semana. Lá dentro, os militares prosseguem a sua rotina diária, até o sargento pedir num cordial "por favor" para que se afaste da frente do portão.