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“Nenhum grupo ou tendência representa todos os muçulmanos”

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MEHDI FEDOUACH/afp/getty images

Tariq Ramadan é professor de Estudos Árabes e Islâmicos, filósofo e escritor. Estará em Lisboa para participar na segunda edição das Conferências de Lisboa (Fundação Gulbenkian, 5 e 6 de maio) que tem como tema A Globalização do Desenvolvimento. A sua comunicação vai versar as ameaças globais e o Expresso antecipa as principais linhas de pensamento nesta entrevista feita via Skype a partir de Londres

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Tariq Ramadan é um académico suíço suficientemente empenhado no debate público da atualidade para ter sido banido dos Estados Unidos e proibido de entrar em países muçulmanos como a Arábia Saudita, Síria ou Egito, a sua terra natal. Conselheiro da União Europeia, é convidado frequente de universidades em todo o mundo, exceto em França, onde a má imprensa o persegue. É um defensor da “jihad da solidariedade” e já em dezembro de 2011 identificava, em entrevista ao Expresso, que o ponto sem retorno do Médio Oriente seria a Síria. “O que se passar lá vai ter consequências na relação com o Irão e na divisão entre xiitas e sunitas.” Cinco anos depois, soa o alarme.

Há globalização das ameaças de segurança? Ou só chamamos globais às ameaças diretas ao Ocidente?
Acontece com frequência considerar-se global o que nos afeta... Há ameaças globais a vários níveis. A primeira diz respeito ao choque de perceções que alimenta sentimentos nacionalistas e desconfianças. Digo há muito tempo que Huntington [autor de “O Choque das Civilizações”] estava errado. Mas basta ouvir no Ocidente o que se diz sobre o Oriente. Basta ir a países de maioria muçulmana ou à Índia para ver que há tendências muito perigosas. Instalou-se uma cultura mundial de resistências baseadas em medo, rejeição mútua e simplificação das perceções. A segunda ameaça é a ordem económica global. Não podemos negligenciar o facto de 6% da população mundial possuírem mais de metade da riqueza global. Nem o impacto do aumento do número dos pobres e da consequente desestabilização das sociedades. Nem da ausência de justiça social e de falta de dignidade que se vive no Sul global. A mão oculta que aparentemente regula o mercado já não funciona. A terceira ameaça é sermos levados a uma violência, à qual ninguém está imune. Estou pronto a dizer “Eu sou Paris”, “Eu sou Bruxelas” se disserem comigo “Eu sou Beirute”, “Eu sou Damasco”, “Eu sou Bassam” [Costa do Marfim]... Clima e ambiente devem ser levados a sério.

Há timings diferentes para a política climática e para a crise de refugiados na Europa. A suspensão do Acordo de Schengen não negará um dos sinais mais positivos da globalização, a abertura das fronteiras?
A melhor maneira de reagir ao extremismo violento não é olhá-lo apenas do ponto de vista da segurança, tentando proteger-nos com leis, fechando portas, aumentando a vigilância... Claro que precisamos de fazê-lo, mas não é a única maneira. É uma resposta direta ao discurso populista cujos adeptos não se importam com a falta de justiça nem com o que se passa no Sul global. Os populistas só pensam em proteger a sua identidade, as suas fronteiras, as suas especificidades, sublinhando quem é o “outro” e o que recusam “dele”. É uma reação muito perigosa.

Tornou-se persona non grata em vários países de maioria muçulmana ao denunciá-los como sociedades não democráticas. Que modelo propõe para a liberdade de expressão em países islâmicos?
Temos de ser críticos e fazer as mesmas perguntas em todo o lado. Na maior parte dos países de maioria muçulmana não há liberdade de expressão e isso tem de ser dito. Tenho-o afirmado e por isso fui banido de uma longa lista de países... Arábia Saudita, Egito, Síria. Não me deixam entrar na Argélia há anos. Quem condena as sociedades não democráticas também tem problemas com a liberdade de expressão. Há dois pesos e duas medidas. Já a França é o único país do mundo onde nunca falei numa universidade.

Essa atitude está associada ao pós-Charlie Hebdo?
Não se está a tentar pacificar a atmosfera em França, recusa-se qualquer discussão crítica sobre a atualidade. É o oposto do que se passa noutros países europeus e em países de maioria muçulmana, onde me pedem que analise o fenómeno extremista, fale sobre o Daesh, explique as tendências. O Governo francês alimenta aquilo a que chamo uma “distração estratégica” ao invocar sistematicamente o islão, a cultura ou a integração, para evitar abordar as verdadeiras questões. Falha em todas as frentes e o primeiro-ministro resolve ressuscitar a proibição do uso do véu nas universidade! Para quê? Estão a tentar mobilizar as pessoas contra os muçulmanos porque sabem que esse é um argumento usado pela extrema-direita, pela Frente Nacional. Na paisagem intelectual em França acabo por representar aquilo que a discussão dos minaretes representa na paisagem social da Suíça.

Está a dizer que rejeitam a sua visibilidade internacional?
Estão a instrumentalizá-la para demonizar a minha presença. O problema é que eles falam francês tal como eu falo francês. A minha cultura é francesa, conheço tão bem a filosofia e a literatura francesas como eles. Estou muito perto e não lhes agrada que eu simbolize aquilo que eles querem tratar como o “outro”.

Enquanto personalidade atuante no debate público de temas globais qual acha que deve ser o papel dos intelectuais muçulmanos junto das comunidades islâmicas no Ocidente?
Em especial nestes tempos de medo e desconfiança e com os populistas presentes em toda a parte, o que os intelectuais muçulmanos devem fazer é o mesmo que todos os outros: esclarecer a confusão que tende a obscurecer os debates. O que se passa não radica no islão, mas em situações que decorrem da globalização como o desemprego e os problemas socioeconómicos. Cai-se neste tipo de política emocional baseada na rejeição do outro devido a visões binárias muito dogmáticas, em que o medo alimenta sentimentos de identidade alienada. Os políticos não estão a lidar com política mas com emoções e medos. E isso acontece porque não sabem resolver os problemas de fundo. Em vez de falarmos do uso do véu porque não falamos da posição das mulheres no mercado de trabalho? De salários iguais para formações iguais... Que fazer? Temos de insistir na racionalidade, sensatez e confiança. Como a emoção é alimentada pela confusão, temos de clarificar os termos do debate. De sermos capazes de separar o que é religião dos assuntos sociais, da política, da história... Depois disto esclarecido, não se trata de falar só com muçulmanos. Falo consigo, com os meus concidadãos europeus, com todos nós. Temos de nos livrar da vitimização.

É o combustível ideal do populismo?
É na mentalidade de vítima que o populismo se alimenta, tanto ao nível mais básico como ao nível de George W. Bush. Dizia: “Somos as vítimas destas pessoas que não gostam do nosso modelo de sociedade, da nossa democracia.” Punha-se no lugar da vítima, esquecendo o que a política americana tinha feito em todo o mundo, por exemplo, a quantidade de vítimas colaterais que provocara. Somos todos vítimas com responsabilidade, mas temos de tornar-nos sujeitos. Isso significa compreender o quadro de referência, a responsabilidade e o que é sermos cidadãos. É o que tenho tentado fazer em todo o mundo.

Como se combate o extremismo?
Logo após 2001, fui banido dos EUA. E de novo em 2004 quando afirmei publicamente que não se resolvia o problema do extremismo sem revisão da política externa. Os norte-americanos não queriam ouvi-lo, ainda menos quando perguntei qual era a legalidade da invasão do Iraque. Porque são cegos ao que se passa com os palestinianos? Porquê bombardear civis afegãos que não tiveram nada que ver com o 11 de setembro nos EUA? Os intelectuais devem ter uma presença corajosa na sociedade e fazer as perguntas difíceis. Digo aos muçulmanos que o islão é uma grande religião mas nem todos os muçulmanos são fantásticos. Tenho vergonha que os países de maioria muçulmana não estejam a acolher refugiados e se limitem a culpar a Europa por não o fazer. Onde está a ação dos países de maioria muçulmana, além da Turquia, Jordânia e Líbano? Onde estão os Estados do Golfo? Mas, como europeu, tenho vergonha por tratarmos as pessoas como animais nas fronteiras!

Defende a “jihad da solidariedade” e diz que “temos de ser diferentes daquilo que somos levados a ser”. Falamos da realidade ou da perceção dela?
Quando Huntington publicou “O Choque das Civilizações”, Edward Said escrevia “O Choque da Ignorância”. Não há uma coisa nem outra. É um choque de perceções que nos leva a construir uma imagem do “outro”. Ou a pensar que há um “outro”. Lidamos com autorrepresentações que condicionam a definição da nossa perceção. Passa-se o mesmo com os muçulmanos e todos têm medo do outro.

Em 2011 falámos sobre a vitória da Irmandade Muçulmana no Egito. Que diria hoje da primavera árabe?
Exatamente o mesmo que disse antes, que nunca houve uma primavera árabe. Nunca comprei essa ideia. Quando muito, houve um despertar das sociedades civis árabes. A população percebeu que era possível mudar, mas nunca confiei no processo que estava em curso. Confirmou-se, entretanto, que nos concentrámos demasiado no lado político e pouco no lado económico e estratégico. O Médio Oriente está completamente desestabilizado. Fui muito crítico da Irmandade Muçulmana no Egito, porém foram depostos por um golpe de Estado e o atual regime é pior do que o anterior. Matam, torturam e prendem impunemente sem uma reação da comunidade internacional.

Diz que o Daesh distorce a imagem do islão e não o representa, tal como “muitos dos ditadores atuais”...
É responsabilidade nossa, nos países de maioria muçulmana e entre as comunidades muçulmanas no Ocidente, compreendermos que não se pode querer que haja um só grupo ou tendência a representar todos os muçulmanos. Precisamos de plataformas, comités que promovam e aceitem a diversidade, que compreendam que temos de nos sentar à mesa para trabalharmos juntos. Que é nossa responsabilidade trabalhar para ultrapassar a fratura entre xiitas e sunitas. No islão não existem só bons e maus muçulmanos, há reformistas, racionalistas, literalistas, sufis... Temos de aceitar esta diversidade e unirmo-nos num diálogo intracomunitário.

Fala de uma crise de autoridade?
Sim, profunda. Não sabemos quem fala em nome dos muçulmanos.

Texto publicado na edição do EXPRESSO de 30 abril 2016