Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Moita Flores critica “falsos moralismos” de Portugal face a Angola

  • 333

O criminalista e escritor encontra-se em Luanda para dirigir uma ação de formação para Magistrados do Ministério Público angolano e, em entrevista ao jornal estatal distancia-se das críticas de alguns sectores de Portugal à Justiça em Angola

DR

O criminalista e escritor português Francisco Moita Flores faz esta quarta-feira a capa do "Jornal de Angola" ao criticar os "falsos moralismos" de Portugal em relação à Justiça angolana e o sonho de um "certo domínio neocolonialista cultural" português.

Moita Flores encontra-se em Luanda para dirigir uma ação de formação para Magistrados do Ministério Público angolano e, em entrevista ao jornal estatal, distancia-se das críticas de alguns sectores de Portugal à Justiça em Angola.

"Não se pode confundir a árvore com a floresta. Nem a ignorância com formas mais elaboradas de análise. Essas críticas de que fala são filhas de falsos moralismos e de uma grande hipocrisia. Não me revejo nesses discursos demagógicos que escolhem problemas externos para omitir os problemas internos", diz Moita Flores na mesma entrevista, com grande destaque na primeira página do jornal.

Para justificar esta posição, o também político e comentador lembra que Portugal tem neste momento "o maior registo de presos da sua história recente", cerca de 15 mil para uma capacidade de 11 mil reclusos, enquanto em Angola são perto de 24 mil detidos, tendo o país mais do dobro da população portuguesa.

"Ouviu essas vozes portuguesas críticas da Justiça angolana levantar a voz para defender os Direitos Humanos dos nossos detidos? Ouviu essas vozes protestar contra a situação dos nossos tribunais, atulhados de processos, alguns deles à espera de decisão há mais de dez anos? Ouviu essas vozes rebelarem-se contra a sistemática violação do segredo de justiça no nosso país? Não", aponta.

"Quando falam da Justiça portuguesa recorrem ao lugar-comum, à política o que é da política, à justiça o que é da justiça. Não os leve a sério. Gostam de fazer política gira, populista, indiferentes aos graves problemas que assolam o país", diz ainda Moita Flores.

Questionado diretamente sobre as "relações de amor/ódio entre Portugal e Angola", sobretudo através de decisões "judiciais e políticas", o criminalista garante que essa relação "é mais de amor do que de ódio".

"Muitos dos críticos das decisões das autoridades angolanas estão armados de um paternalismo moral, por vezes a rondar a beatice, considerando-se os juízes absolutos do caminho, da verdade e da vida. São deuses com pés de barro e estrábicos", afirma.

Diz mesmo que muitos destes críticos "sonham com um certo domínio neocolonialista cultural" face a Angola: "Do género 'vá lá, governem-se mas de acordo com a minha norma moral e política'. Na maioria, são ignorantes das realidades que criticam", critica Moita Flores na entrevista publicada esta quarta-feira pelo "Jornal de Angola".

Afirma que "não vale a pena valorizar" estas reações de Portugal, já que "jamais tirará da cabeça de um ressabiado a ideia pré-formada que tem sobre determinado assunto por mais que lhe tente mostrar o outro lado da verdade", salvaguardando ao mesmo tempo a importância das relações económicas com Angola e a presença de empresas e trabalhadores portugueses no país.

"Há quem não aposte nisto e prefira o conflito, porém, é apenas um problema de cães e de caravanas. A força daquilo que nos une, enquanto povos, é muito maior do que os protestos de meia dúzia de sonhadores de novas formas de domínio", conclui.