Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Egito: Ministério do Interior define orientações para manipular imprensa e... envia-as para a imprensa

  • 333

AMR NABIL / EPA

“Erro técnico” ou não é uma falha elementar, que se arrisca a transformar em comédia uma situação já trágica

Luís M. Faria

Jornalista

Memorandos confidenciais do ministério do Interior egípcio foram parar às caixas de correio de jornalistas. Não porque alguém tenha tido acesso ao sistema informático do ministério, mas porque o seu próprio departamento de imprensa os enviou, algures no meio da ronda noticiosa diária. Sucede que os memorandos visam definir uma estratégia de manipulação da imprensa, a fim de reagir às críticas cada vez mais intensas que recaem sobre o Governo do país. Agora a tentativa arrisca-se a ter o efeito contrário do pretendido.

O general Abdel Fattah al-Sisi, que tomou o poder em 2013 após depor o então Presidente eleito Mohamed Morsi (e mais tarde eleito num escrutínio em que a principal força de oposição, a Irmandade Islâmica, não pôde participar por ter sido ilegalizada), enfrenta uma série de crises que põem em causa a sua popularidade, extremamente elevada até há pouco tempo. Além da instabilidade política, das dificuldades económicas e de certas decisões polémicas – entre as quais a devolução de duas ilhas à Arábia Saudita, presume-se que a troco de apoio financeiro – há casos como o do estudante italiano Giulio Regeni.

Investigador sediado em Cambridge, Regeni estava a preparar um doutoramento sobre os sindicatos egípcios. Foi encontrado sem vida e com sinais notórios de tortura à beira de uma autoestrada próxima do Cairo. É provável que tenha sido morto por interesses poderosos que se sentiram ameaçados com as suas atividades. Vários indícios sugerem cumplicidade da polícia, até por o modus operandi no seu caso se assemelhar ao de numerosas situações em que as vítimas foram egípcias. A explicação oficial das autoridades, porém, vai noutro sentido: o crime teria sido cometido por um gangue especializado em raptar estrangeiros para pedir resgate (e os membros desse gangue entretanto mortos pela polícia num "tiroteio"....). O governo italiano não parece ter ficado convencido.

Estratégia de linha dura

Perante as sucessivas crises, al-Sisi tem adotado a sua habitual estratégia de linha dura no controlo da opinião pública interna. Abusos de vária natureza e gravidade têm sido reportados com frequência, e mais de uma dúzia de jornalistas foram presos recentemente, incluindo alguns no próprio edifício do seu sindicato.

Este, como forma de protesto, organizou um protesto sem termo definido, uma iniciativa que tem recebido cobertura abundante nos jornais do país, incluindo alguns próximos do Governo. É isso que visam contrariar os memorandos revelados esta terça-feira, os quais falam em "escalada deliberada" com objetivos de aproveitamento político, e dizem ser de esperar "uma feroz campanha mediática de toda a imprensa em solidariedade com o sindicato".

O Ministério do Interior egípcio, diz um dos memorandos, "não pode recuar da sua posição agora; um recuo significaria que foi cometido um erro, e se há um erro quem é responsável e quem deve pagar?" Em lugar disso, deve-se questionar a credibilidade dos jornalistas, acusando o seu sindicato de ter protegido indivíduos sobre quem pendiam mandatos de captura.

Outras medidas propostas incluem impedir quaisquer notícias sobre o caso Regeni e aumentar o pessoal que faz a monitorização da internet. O Governo não pôs em causa a veracidade dos memorandos, mas também não comentou o seu conteúdo. Limitou-se a dizer que houve um "erro técnico".