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Internacional

Jiadismo e combate ao terrorismo ameaçam liberdade de imprensa

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ISAAC LAWRENCE

No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, Repórteres Sem Fronteiras (RSF) dizem que “paranóia dos líderes” no ano passado conduziu ao nível mais baixo de jornalismo livre dos últimos 12 anos. Eritreia, Coreia do Norte, Turquemenistão, Síria e China são os cinco países onde o trabalho dos jornalistas está sob maior ameaça neste momento

A luta contra o terrorismo jiadista está a ter um impacto direto e negativo sobre a liberdade de imprensa em todo o mundo, com as campanhas de segurança acrescida lançadas após os atentados de novembro em Paris e de março em Bruxelas a serem utilizadas como "álibi" para limitar o trabalho dos jornalistas.

A denúncia foi feita esta terça-feira, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, pelos Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e pela Aministia Internacional num relatório conjunto onde definem França, Egito, Rússia e Turquia como os "pontos quentes" desta deterioração das condições para exercer jornalismo que está a ser registada na sequência do jiadismo. De acordo com as duas organizações, a liberdade de imprensa atingiu em 2015 o seu nível mais baixo em 12 anos, muito por causa da "paranóia dos líderes", apontam os RSF.

O Egito, onde neste momento há pelo menos 24 jornalistas presos por fazerem o seu trabalho, é um dos países onde o direito à liberdade de informação foi mais restringido entre 2015 e este ano, apontam as duas organizações sem fins lucrativos. O caso do fotojornalista Mahmoud Abu Zeid, conhecido como Shawkan, é citado como um dos mais flagrantes: acusado de pertencer a um grupo criminoso, enfrenta neste momento a pena de morte. As duas organizações exigem a liberdade "imediata e incondicional" do repórter.

A par do Egito, a Turquia converteu-se "na principal prisão de jornalistas", uma posição que já ocupou no passado e que volta a chamar a si na sequência do regime securitário extremo que o governo de Recep Tayyip Erdogan implementou após os atentados em Ancara e Istambul. De acordo com uma investigação do "The Guardian" publicada esta terça-feira, os jornalistas que trabalham para meios de comunicação curdos estão a ser detidos de forma rotineira sob acusações de terrorismo, enquanto os que trabalham para media mais alinhados com o governo são muitas vezes impedidos de investigar e publicar determinados artigos.

A Rússia continua a integrar o conjunto de países onde a liberdade de imprensa está sob maior ameaça, com os jornalistas submetidos ao controlo quase total e sistemático do Estado ao leme de Vladimir Putin. No México, outro dos países citados pelos RSF e pela AI, oito informadores foram assassinados em 2015 apesar de ter sido criado o Mecanismo de Proteção de Defensores de Direitos Humanos e de Jornalistas.

Em todos estes países, o medo de represálias pelo Estado está a levar muitos jornalistas a abandonarem a profissão ou a exercerem autocensura, outra das fontes de deterioração do jornalismo livre. Segundo dados dos RSF, em 2015 pelo menos 63 jornalistas perderam a vida como consequência direta da sua profissão e outros 40 foram assassinados de maneira suspeita. A par deles, 19 jornalistas-cidadãos e seis colaboradores perderam a vida por causa da falta de liberdade de imprensa. "Foi um ano brutal, marcado pela barbárie do terrorismo jiadista", sublinha a presidente dos RSF Espanha, Malén Aznárez, citada pelo "El País".

A Eritreia, a Coreia do Norte, Turquemenistão, Síria e China são os cinco países onde a liberdade de imprensa está mais ameaçada, segundo o ranking dos RSF. A Finlândia ocupa o lugar oposto, encimando a lista de países onde mais se respeita o pluralismo, a independência dos meios de comunicação e a transparência. No ranking de 180 países, Portugal está em 23.º, três lugares acima da posição que ocupava em 2015.