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Para vencer as eleições, Rajoy promete acertar relógios com Portugal

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CURTO DE LA TORRE / AFP / Getty Images

Agora que Espanha se prepara para voltar às urnas no final de junho, o líder conservador promete legislar fim da jornada laboral às 18h se o PP conseguir a maioria que não obteve em dezembro

Diz o "El Mundo" que a discussão sobre os horários laborais em Espanha é um tema tão recorrente como falar do tempo em conversas de circunstância no elevador. E talvez por isso seja a nova fisgada de Mariano Rajoy para atrair eleitores, agora que foi confirmado que estes vão voltar às urnas no final de junho para novas eleições gerais.

O líder dos conservadores do Partido Popular (PP), que em dezembro não conseguiu garantir uma maioria qualificada para continuar a presidir ao governo espanhol, quer criar uma lei que defina o fim da jornada laboral às 18h. Para que as pessoas "tenham tempo para conciliar a vida profissional e pessoal", Rajoy quer Espanha no fuso horário do meridiano de Greenwich (GMT+0) para reconciliar o país com a sua hora solar — a mesma de Portugal.

Num artigo intitulado "Como viveríamos com a mesma hora de Portugal?", o "El Mundo" empenhou-se na quinta-feira em tentar perceber que impactos teria esta alteração prometida por Rajoy. "Se só nos fixarmos na hora marcada pelo relógio", aponta o artigo, "é indiscutível: somos os que saem por último do trabalho", em comparação com a "imensa maioria dos noruegueses, britânicos e alemães que, às 18h, já estão em casa". Em Espanha, pelo contrário, "só às 21h é que podemos dizer que vamos descansar".

Mas até que ponto é que colocar o país no horário GMT+0 vai ajudar os espanhóis, é a principal questão a que jornal tentou dar resposta. A explicação foi esta: "O horário dos espanhóis é muito semelhante ao dos italianos e portugueses, países com os quais partilhamos a latitude, com a ressalva de que Espanha faz tudo uma hora mais tarde. O mesmo acontece com França: a sua linha é muito parecida com a do Reino Unido e da Alemanha, mas deslocada uma hora para a direita. Isto deve-se ao fuso horário. Tanto França como Espanha encontram-se geograficamente colocadas entre os meridianos que delimitam a zona horária GMT+0, que é a que é usada por Londres e Lisboa. Mas desde 1940 que os relógios espanhóis estão sincronizados com Berlim e Roma (GMT+1 no inverno e GMT+2 no verão). E se em Roma anoitece pelas 16h42 no inverno, é de esperar que em Madrid anoiteça cerca de uma hora depois, às 17h52."

Isto significa que é raro os espanhóis conseguirem sair do trabalho ainda de dia, o que segundo Rajoy e os conservadores lhes está a roubar tempo de qualidade fora da esfera laboral. O primeiro-ministro em funções retoma assim um tema que chegou a ser alvo de discussões no Congresso dos Deputados em 2013 e que é debatido por associações, outros partidos políticos e até pela imprensa internacional há vários anos. O assunto é igualmente bandeira de alguns patrões e empresários, embora "na hora da verdade" sejam poucas as empresas que avançam com medidas práticas, como no caso da Iberdrola, aponta o mesmo jornal.

"A mudança depende dos diretores executivos e gerentes intermédios das empresas", defende ao jornal Nuria Chincilla, professora do IESE, especialista em "conciliação horária" e uma das grandes defensoras de acertar os relógios espanhóis pela hora portuguesa. É uma vontade que nem sempre existe e que continua a perpetuar uma prática herdada do "pluriemprego no pós-guerra", quando era comum ter um emprego de manhã e outro à tarde.

Para explicar tudo ponto a ponto — ou hora a hora — o "El Mundo" criou um conjunto de gráficos que podem ser consultados aqui.