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O país onde o passado é imprevisível

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Mao ainda reina apesar dos pedaços da memória que os chineses tiveram de apagar

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Após 20 anos na China, António Caeiro fala do país cujos chefes manipulam o passado para controlar o futuro

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Parece surrealista, mas é a realidade!”, lembra António Caeiro ao evocar um dos muitos episódios que testemunhou. Tinha havido fogo no edifício da televisão estatal da China (CCTVl), um dos ícones da nova Pequim na zona oriental, desenhado pelo arquiteto Rem Koolhaas (autor da Casa da Música, no Porto). Provocadas por fogo de artifício ilegal, as chamas alastravam e todos os meios de comunicação as noticiavam. Só a CCTV, que estava “literalmente dentro da notícia”, ignorava o incidente. Caeiro foi alertado pelo telefonema de uma amiga que lhe pedia confirmação. “É verdade?” — perguntava ela enquanto olhava para as imagens na BBC que a filha, em Inglaterra, lhe mostrava via Skype. A televisão chinesa ardia... em Londres! “E em Pequim não se sabia...”.

Pode ser conclusão ou ponto de partida: “Estou inibido porque vivi lá tantos anos e deveria ter uma teoria sobre a China, mas não tenho”, diz o ex-correspondente da agência Lusa, regressado a Lisboa depois de 20 anos a reportar sobre a mais rápida e extraordinária transformação que o país viveu.

Prosperidade em grande

“Não há dúvida de que a China é a ditadura com maior sucesso dos últimos anos, isto se medirmos o sucesso pela prosperidade económica e pelo número de pessoas saídas da pobreza” (ver em baixo). O grande enigma futuro é que impacto terão na população a abertura política e o desenvolvimento. A resposta não é evidente, reconhece Caeiro: “Quanto mais prósperas as pessoas forem, mais livres e exigentes se tornarão. Não é o mesmo governar 1350 milhões de pessoas no limiar da pobreza ou 1350 milhões de cidadãos, metade dos quais já atingiu uma prosperidade considerável, incluindo bens, casas e férias no estrangeiro”.

Quase tudo o que António Caeiro aprendeu nestas duas décadas confirmou que a China é “um país fortemente contraditório” e, por isso mesmo, “intrigante e fascinante”. Dizia-se dantes que cada chinês era um parafuso de uma engrenagem, “mas já não é assim”. A liberdade individual exis- te e o Partido Comunista Chinês (PCC) já não controla toda a vida da sociedade como no tem- po em que ditava o que as pessoas deviam vestir e a música que deviam ouvir, diz Caeiro.

Nos jardins públicos já só os mais velhos praticam tai chi chuan porque “os mais novos deitam-se tarde demais para se levantarem ao nascer do sol”. Já a popularidade do ioga disparou.

Embora controlado, há acesso à internet, há informação para quem souber procurá-la e as pessoas viajam com frequência. Os operadores turísticos chineses já ultrapassaram em número os do resto do mundo.

Ao mesmo tempo, a Assembleia Nacional Popular continua a ser “o ponto mais solene” da agenda política anual entre os congressos que o PCC faz de cinco em cinco anos. A sessão inaugural tem como prato forte o relatório em que o primeiro-ministro apresenta aos 3000 delegados que ali se reúnem, vindos de todo o país. Não há memória de uma proposta do Governo ter sido chumbada. Mesmo a construção da barragem das Três Gargantas, nos anos 90, a votação mais contestada de que António Caeiro se lembra, teve menos de 40% de votos contra e abstenções. A própria eleição do Presidente e do chefe do Governo ultrapassa os 90% dos votos.

Mesmo assim, é quando os cerca de 3000 jornalistas (mil dos quais são estrangeiros) acreditados no país têm a sua única oportunidade de fazer uma pergunta direta ao primeiro-ministro. António Caeiro passou várias vezes pela sondagem prévia. “Para que não haja surpresas”, os jornalistas enviam a pergunta que passa, ou não, no crivo dos assessores. As primeiras são feitas por jornalistas chineses, os russos têm garantida uma se for do género “como encara as atuais relações sino-russas?”. Segue-se uma para os coreanos, outra para os japoneses, um ou outro europeu lá terá a sua hipótese bem como alguns americanos... E pronto, até ao ano seguinte.

Este foi o quotidiano que António Caeiro viveu e contou nos dois livros — “Pela China Dentro”, 2003, e “Novas Coisas da China”, 2013 — que precederam o que na quinta-feira lançou em Lisboa, apresentado por Pacheco Pereira: “Peregrinação Vermelha — O Longo Caminho até Pequim” (ver pág. 70, Revista E). Fluente em mandarim, o jornalista viveu as contradições de reportar a partir de um país hiperpopuloso onde “a vida é dura”. Todos os dias há milhares de pessoas a fazer tudo: “Uma viagem de metro em Pequim é alucinante. Às 18h há estações onde as pessoas nem põem os pés no chão!”.

Nada na escala da China — 1/5 da humanidade — faria supor o “défice de reconhecimento ocidental” de que os chineses padecem. Caeiro cita o “complexo do Prémio Nobel”..., no entanto o sentimento serve de mobilização e potencia os investimentos de grande monta tal como o programa espacial que estão a desenvolver. Tudo serve para ultrapassar “os 100 anos de humilhação nacional que o PCC tão bem soube explorar, e durante os quais a China era uma espécie de self service para as potências ocidentais”.

Em “modo repórter”

A 10 de junho de 2012, António Caeiro recebe em Pequim das mãos do chefe da diplomacia portuguesa a comenda da Ordem do Infante D. Henrique pelo seu contributo para o jornalismo e a aproximação entre Portugal e a China. Não foi coisa pouca, ainda que o dia não lhe tivesse permitido dedicar tempo extra à distinção atribuída. Nesse dia, conta, começou a trabalhar às 9h e terminou perto da meia-noite. Normal, para um repórter de uma agência noticiosa “agarrado à realidade”, o que o obrigou “a interessar-se pela vida da China”.

Compara-se à infantaria nas batalhas, obrigada a “ter de estar no local”. Na verdade, “ninguém vê por ele e relata os factos em bruto, tal como os vê”, diz o repórter como se falasse com distanciação dessa pessoa que tanto vai ao Grande Palácio do Povo como a um jogo de futebol, à inauguração da primeira sex shop de Pequim ou ao lançamento de uma nave espacial. “Falhei muitas coisas, claro”. Só o “New York Times” tem 13 repórteres no terreno... Para saber como é andar de metro ou como se come na China Caeiro não recorre aos tratados de sinólogos, mas a livros escritos por camaradas de profissão. “A carne de porco aumentou 60%, o que é quase mais importante do que a inflação oficial”. Fazer jornalismo permite uma ligação à terra, fundamental num país opaco. “Há muitas peças e perceções erradas. Nunca usei tantas vezes o advérbio ‘aparentemente’ como lá”.