Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

FBI pagou €1,15 milhões para desencriptar iPhone do atirador de San Bernardino

  • 333

O atual diretor do FBI, James Comey, considera que valeu a pena a agência federal gastar mais de um milhão para aceder ao iPhone de Farook

Joe Raedle

Em Londres, diretor da agência federal norte-americana confirma pagamento elevado por software que permitiu acesso aos dados do smartphone do simpatizante do Daesh, após Apple se recusar a ajudar as autoridades

À primeira resposta, James Comey foi contido: "Pagámos muito", declarou simplesmente aos jornalistas que estavam a cobrir o Fórum de Segurança Aspen em Londres na quinta-feira à noite, quando questionado sobre quanto é que o FBI desembolsou para conseguir aceder aos dados encriptados do iPhone de Syed Rizwan Farook — o americano de ascendência paquistanesa que, em dezembro, levou a cabo um tiroteio com a mulher em San Bernardino, na Califórnia, matando 14 pessoas alegadamente em nome do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh).

Desde fevereiro que o FBI estava a tentar aceder aos dados do smartphone do suspeito terrorista, que foi abatido pelas autoridades no decorrer do tiroteio. Perante a recusa da Apple em ajudar, citando a abertura de um "grave precedente" que põe em risco a privacidade dos seus utilizadores, a agência federal recorreu a hackers para conseguir entrar no iPhone de Farook sem ativar a definição do sistema que apaga todos os dados ao final de dez tentativas de código falhadas.

A notícia de que o FBI pagou a hackers para conseguir aceder ao smartphone tinha sido avançada pelo "Washington Post" a 13 de abril, um pormenor que não escapou aos jornalistas que ontem estavam presentes no fórum de segurança. Sob pressão, o diretor do FBI acabaria por ajudar os mais dedicados à matemática a perceber que que o Estado norte-americano gastou pelo menos 1,3 milhões de dólares (cerca de 1,15 milhões de euros), pagos diretamente aos hackers que desenvolveram um software para contornar as medidas de segurança da Apple.

"Pagámos mais do que o dinheiro que vou fazer até abandonar este emprego, ou seja, nos próximos sete anos e quatro meses", declarou Comey. Considerando que o seu salário ronda os 180 mill dólares por ano e multiplicando esse valor pelos sete anos e quatro meses, os jornalistas concluíram que o FBI desembolsou pelo menos 1,26 milhões de dólares. "Na minha opinião valeu a pena", garantiu o diretor da agência.

O caso do iPhone 5c do atirador de San Bernardino volta assim a gerar mais controvérsia, com o "The Guardian" a referir esta sexta-feira que o valor pago pelo FBI demonstra o crescente "mercado de exploração" de instrumentos e ferramentos de espionagem digital e outro tipo de armas usadas em ciberataques.

Nos últimos anos, vários especialistas em cibersegurança têm acusado os governos dos EUA, do Reino Unido, China e Rússia de criarem e alimentarem um mercado negro de vírus e códigos de malware que põem em risco a segurança e privacidade dos consumidores online. Raramente são conhecidos os preços praticados nesse mercado para adquirir softwares como aquele que os EUA pagaram a preço de ouro para acederem ao telemóvel de Farook.

Quando revelou que o FBI pagou a hackers para visualizar os dados do iPhone em questão, que até agora não demonstraram quaisquer contactos entre Farook e outros simpatizantes ou militantes do Daesh, o "Washington Post" tinha sublinhado que a agência estava a ponderar se vai ou não revelar à Apple as falhas que permitiram contornar os mecanismos de segurança do seu sistema operativo. O que dizem os especialistas em cibersegurança é que manter essas falhas privadas, sem informar as empresas de tecnologia e os consumidores, abre a porta a ciberataques por qualquer pessoa ou grupo.