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Diretor de jornal despedido em Hong Kong por causa de manchete sobre os Panamá Papers

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Trabalhadores do Ming Pao protestam contra a demissão do diretor

Getty

O jornal onde Keung Kwok-yuen era um dos principais responsáveis faz parte do mesmo consórcio internacional que o Expresso integra

Luís M. Faria

Jornalista

Um diretor do Ming Pao, um diário de língua chinesa em Hong Kong, foi despedido ontem à meia-noite, imediatamente após o prestigiado jornal ter ocupado toda a sua primeira página com uma manchete sobre os Panamá Papers. Políticos, empresários e celebridades são mencionados como clientes da Mossack Fonseca, o escritório de advogados panamiano que funcionava como uma gigantesca conduta para colocar fortunas em paraísos fiscais. Três membros do governo regional de Hong Kong surgem ao lado de Li Ka-shing, um empresário da construção, que é o homem mais rico do território, e do ator Jackie Chan, entre outros.

Embora a administração do jornal tenha explicado o despedimento com a necessidade de poupar - "ambiente difícil para negócios" foi a expressão usada no comunicado - ninguém terá levado a sério a justificação. Já há dois anos o então diretor do Ming Pao tinha sido substituído depois de serem publicadas notícias com base noutra fuga de informação. O jornal é membro do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (que o Expresso também integra) e conseguiu manter a sua reputação de integridade, assente num jornalismo geralmente descrito como independente e determinado.

O diretor despedido em 2014, Kevin Lau Chun-to, ficaria depois gravemente ferido num ataque de rua pelo qual dois homens foram presos e condenados a 19 anos de cadeia. Quem ordenou o ataque, nunca se chegou a saber. Mas o facto de o jornal ter mantido a sua força deverá muito a Keung Kwok-uyen, o diretor agora despedido. Sete sindicatos ligados ao setor protestaram imediatamente após a decisão ser anunciada, e o líder do Partido Cívico, pró-democracia, juntou-se a eles.

Hong Kong, uma antiga colónia inglesa, foi devolvido à China em 1997, num tratado que estabelece que a cidade manterá o seu sistema, e as suas liberdades, durante cinquenta anos. Esse arranjo já foi posto à posta várias vezes, em especial durante as manifestantes populares maciças a favor da democracia que ficaram conhecidas como "movimento dos chapéus de chuva".