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Espanha precisa de um milagre

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FRACASSO. Felipe VI com Pedro Sanchez, líder do PSOE, num dos encontros com líderes políticos para tentar desbloquear o impasse político

REUTERS

Apenas um milagre de última hora poderá resolver a incapacidade de os partidos políticos espanhóis chegarem a um acordo de Governo. As eleições foram há exatamente quatro meses

Angel Luis de la Calle

Angel Luis de la Calle

Correspondente em Madrid

Embora quase ninguém tenha esperanças, ainda há alguns dias – poucos – para os principais partidos políticos poderem alcançar um qualquer acordo que ponha fim à grave crise institucional que o país atravessa desde as eleições legislativas de dezembro do ano passado. Faz hoje quatro meses que se celebrou esse ato eleitoral e Espanha permanece sob o mandato de um Governo em gestão, o que adia as grandes decisões e lança uma névoa densa sobre a confiança externa em relação à situação espanhola.

Incapazes de superar as suas diferenças e de sobrepor o interesse geral da nação aos seus interesses particulares, as forças políticas estão, irremediavelmente, a conduzir Espanha à repetição das eleições. Curiosamente, todos os atores desta tragicomédia se mostram contrários a essa solução, que consideram unanimemente ser sinal de um fracasso coletivo, mas nenhum faz o que é necessário para evitar esse desenlace.

Para tal, segundo os prazos constitucionais, teria de haver Governo até 2 de maio. Em obediência a tal preceito, o rei Filipe VI convocou os partidos políticos para os próximos dias 25 e 26 de abril. O propósito do monarca, a quem todos reconhecem um escrupuloso papel institucional nesta crise, é avaliar oficialmente a situação. Salvo surpresas, ela resume-se na impossibilidade manifesta de alguma força ter apoios suficientes para ser investido como chefe de Governo. À meia-noite de 2 de maio, a lei obriga o rei a dissolver as duas câmaras do Parlamento e a convocar novas eleições, que se realizariam a 26 de junho.

Resultados quase iguais

O grande paradoxo é que a nova ida às urnas, em lugar de resolver o conflito, pode mesmo agravá-lo até extremos intoleráveis. No atual estado de coisas, tudo indica que os resultados previsíveis não seriam muito distintos daqueles que as forças em liça obtiveram em dezembro.
As sondagens mais recentes auguram nova vitória do Partido Popular (PP, centro-direita), com ligeiro aumento das suas intenções de voto. Em segundo lugar está o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, social-democrata), que não sobe nem desce significativamente. Quem progride bastante é o Cidadãos (C’s, centro liberal), recompensado por se ter disposto a assinar com os socialistas o único acordo lavrado até à data, ainda assim insuficiente para governar. Já o Podemos (P’s, esquerda populista) cai de terceiro para quarto lugar da tabela, um castigo pelas divisões e conflitos internos, combinados com a arrogância dos seus dirigentes mais conhecidos nas negociações com os demais partidos.

Há que somar a este panorama o mais do que previsível crescimento da abstenção, resultado do cansaço dos espanhóis, que se sentem enganados pelos seus representantes. Com tal prognóstico, um desbloqueio depois das legislativas do verão só seria possível se os maiores partidos mudassem de forma significativa a sua postura no que toca a procurar acordos. Se o fizerem, a cidadania perguntará porquê agora e não antes. Se não o fizerem, o país volta à casa da partida deste jogo absurdo.

Inflexibilidade partidária

As posições pouco variaram daquelas que cada partido anunciou no rescaldo das eleições de dezembro. Salvo o pacto alcançado por PSOE e C’s – inesperado devido às divergências ideológicas entre ambos, e cuja ineficácia ficou latente nas duas tentativas falhadas de empossar o líder socialista Pedro Sánchez como primeiro-ministro –, os políticos espanhóis revelaram-se incapazes de negociar.

O PP, com o sobrevivente Mariano Rajoy à cabeça, não se moveu um palmo da ambição de continuar a governar, sonhando com uma grande coligação PP-PSOE. Os socialistas, com a liderança de Sánchez sujeita a contestação interna, insiste na rejeição em falar, sequer, com o ainda primeiro-ministro. O líder do C’s, Albert Rivera, anda de um lado para o outro num esforço louvável por urdir acordos, procurando o impossível encaixe entre Sánchez e Rajoy. E o P’s ergue obstáculos à qualquer caminho aberto de negociação, convencido que está Pablo Iglesias de que novas eleições favoreceriam a sua expectativa de trucidar o PSOE e converter-se em nova referência da esquerda espanhola.

Adivinha-se uma campanha eleitoral aborrecida, com as mesmas caras de sempre projetadas urbi et orbi através dos meios de comunicação e com um novo e obsceno gasto de dinheiro público pouco compatível com a grave situação económica que vive o país. Nas legislativas de dezembro, o Estado gastou 130 milhões de euros, a somar às quantias gastas pelos principais partidos: 12 milhões para o PP, 9 para o PSOE, 4 para o C’s, 3,6 para o P’s e 2,5 para a Esquerda Unida. Já surgem vozes respeitadas a pedir legislação urgente para encurtar a campanha eleitoral (15 dias) e reduzir ao mínimo o seu custo autorizado.